Há dois meses, a Organização das Nações Unidas (ONU) fez um chamado para que os países intensifiquem os esforços para reduzir as emissões de metano, gás de efeito estufa com forte presença na pecuária.
Para a entidade, cortar as emissões de metano está entre as medidas mais rápidas, baratas e eficazes para desacelerar o aquecimento global no curto prazo.
Nesse contexto, o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, lançou nesta terça-feira, dia 18 de agosto, um caderno com propostas para reduzir as emissões de metano no Brasil.
Ao todo, o documento reúne 37 soluções, das quais 15 estão relacionadas à agropecuária e o restante está distribuído entre energia, mudanças de uso da terra e resíduos.
Segundo o SEEG, a agropecuária brasileira emitiu 15,7 milhões de toneladas de metano em 2024, o equivalente a 75,8% das emissões do gás no país, que lançou 21 milhões de toneladas de metano na atmosfera no período.
As propostas para a agropecuária foram elaboradas pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), que participa de outros projetos voltados à aproximação entre meio ambiente e pecuária, como o Boi na Linha e a certificação Beef on Track.
A ideia foi mesclar soluções que já são adotadas no campo e políticas públicas do setor, com o objetivo de envolver as cadeias de produção e consumo, passando por governos, academia e instituições financeiras, disse Gabriel Quintana, coordenador de Ciência do Clima do Imaflora, em entrevista coletiva a jornalistas.
"Percebemos que é uma forma de a gente buscar, direcionar e fortalecer as ações. Muitas delas já acontecem no campo, mas que precisamos sejam escaladas para qualquer tipo de sistema produtivo e de acordo com o fôlego que esses produtores tem, para que consigam implementá-las", afirmou Quintana.
Boa parte das soluções está concentrada na mitigação da fermentação entérica, o "arroto do boi", responsável por 91% das emissões de metano da agropecuária em 2024.
Entre as propostas estão o uso de aditivos para reduzir o metano entérico, o melhoramento genético dos animais, o aumento da eficiência zootécnica e alimentar dos rebanhos, a redução da idade ao abate, a adoção de sistemas integrados e de práticas conservacionistas e a recuperação e manutenção de áreas de pastagem.
De acordo com Gabriel Quintana, do Imaflora, a criação de soluções específicas busca direcionar e fortalecer ações de mitigação que já são adotadas no campo, mas que ainda podem ganhar escala.
“É uma forma de a gente buscar, direcionar e fortalecer as ações. Muitas delas já acontecem no campo, mas que sejam escaladas para qualquer tipo de sistema produtivo e de acordo com o fôlego que esses produtores têm e consigam implementá-las”, afirmou.
Em paralelo, segundo Quintana, outras propostas aparecem de forma transversal e não ficam restritas à pecuária.
É o caso da ampliação da assistência técnica e extensão rural, do crédito para práticas agropecuárias conservacionistas, da transferência de tecnologias e do zoneamento aplicado ao planejamento territorial.
“É uma mitigação que vai conseguir de forma indireta para a gente aterrissar essas soluções”, afirmou.
O caderno também traz uma sugestão curiosa, propondo mudanças também no consumo, como o aumento da participação de alimentos de menor emissão de gases de efeito estufa na dieta das populações.
Segundo o paper, a expansão no volume consumido decorre de políticas de compras públicas e corporativas de alimentos voltadas à promoção de dietas saudáveis, diversificadas e sustentáveis que, combinadas ao fortalecimento da agricultura familiar e de base agroecológica, podem contribuir para a redução das emissões de metano.
Outras sugestões envolvem o manejo de arroz irrigado, redução da queima agrícola e manejo de resíduos da produção animal por compostagem e biodigestão.
O SEEG prevê que, no cenário mais ambicioso, a agropecuária poderia reduzir sua quantidade de emissões de metano em 28% até 2035, chegando a um volume de 10,45 milhões de toneladas de metano lançados na atmosfera.
"A mudança exigida é expressiva: o setor precisa deixar uma trajetória recente de alta e avançar para reduções sustentadas apoiadas por produtividade, manejo, tecnologia, financiamento e assistência técnica", conclui o paper.
Resumo
- Observatório do Clima aponta 15 medidas para reduzir o metano da agropecuária, que responde por 75,8% das emissões do gás no Brasil
- Aditivos, melhoramento genético, abate precoce e recuperação de pastagens estão entre as estratégias para conter o “arroto do boi”.
- No cenário mais ambicioso, emissões do setor podem cair 28% até 2035, para 10,45 milhões de toneladas de metano