Ourolândia (BA), Morro do Chapéu (BA) e Várzea Nova (BA)* – Cabras pedindo passagem, poeira e pedregulhos dominam a estrada de chão que liga Ourolândia, Morro do Chapéu e Várzea Nova, pequenos municípios do sertão da Bahia.

A paisagem é árida, típica da caatinga do Nordeste, marcada pela vegetação baixa, solo pedregoso, alguns animais no meio do caminho e pouquíssimas casas. Poderia ter sido filmada por Glauber Rocha para Deus e o Diabo na Terra do Sol, o filme de 1964 que eternizou a região na história do cinema nacional.

O sol às oito horas da manhã já é forte. E os ventos, também. Durante décadas, essas condições climáticas, somadas às chuvas escassas, limitaram as possibilidades da agricultura local, que encontrou no sisal uma das poucas culturas capazes de se adaptar ao ambiente.

Mas foi justamente o vento, antes visto como uma das marcas da adversidade do sertão, que ajudou a transformar a paisagem da região.

Desde o começo da década passada, o horizonte do sertão baiano vem sendo pontilhado por gigantescos aerogeradores, nome técnico dos “cataventos”, de 105 metros de altura, que giram quase continuamente, sincronizados ao sabor das correntes de ar e transformando vento em eletricidade.

"É aqui onde a gente colhe a nossa 'safra dos ventos'", resume Jayson Lee, vice-presidente de esmagamento de grãos e gestão de riscos da ADM na América Latina, para a reportagem do AgFeed, diretamente do Complexo Babilônia Sul, uma "fazenda" com de 80 geradores implantados pela Casa dos Ventos, uma das maiores empresas de energia eólica do País e que tem como sócia a francesa TotalEnergies, no começo desta década.

A ADM é uma das sócias do complexo eólico. A partir da energia gerada em Babilônia Sul, a companhia norte-americana consegue abastecer quase que 100% do consumo de energia de sete unidades de esmagamento de soja em cinco Estados do País, situadas em Campo Grande (MS), Rondonópolis (MT), Joaçaba (SC), Uberlândia (MG) – onde duas plantas são abastecidas – Porto Franco (MA) e Ipameri (GO).

Considerando a distância continental entre cada uma dessas unidades, não há um "cabo" que ligue a energia gerada na Bahia às plantas, mas sim a garantia de que a energia gerada à ADM é renovável. "É igual o dinheiro, não é carimbado", explica Lee.

No recorte apenas da parceria com a ADM, a capacidade total de geração em Babilônia Sul é de aproximadamente 31,9 MW de potência elétrica. Considerando toda a operação de todo o complexo como um todo, Babilônia Sul tem capacidade instalada de 360 MW, energia suficiente para abstecer cerca de 300 mil residências.

A ADM não revela o valor total aportado pela companhia na parceria. O complexo eólico como um todo exigiu um investimento de R$ 1,8 bilhão por parte da Casa dos Ventos.

A parceria entre a ADM e a Casa dos Ventos iniciou em 2021 e entrou efetivamente em operação em 2023, quando o Complexo Babilônia Sul teve seu start.

Jayson Lee lembra que o projeto começou a ser idealizado antes disso, entre 2019 e 2020, quando a ADM se deparou com a vigência de bandeira vermelha, que significa que os custos de energia de energia estão mais altos para o consumidor, e passou a buscar saídas para mitigar esse tipo de problemas e reduzir custos.

A iniciativa também coincidiu com um momento em que a companhia recém havia lançado um plano de sustentabilidade chamado Strive 35.

Esse programa estipula que, até 2035, a companhia deve reduzir em 25% a emissão de gases do efeito estufa e em 15% o uso de energia em suas operações.

“Foi um timing muito justo. A companhia global lançou essas metas e a gente já estava trabalhando nessa ideia”, conta Lee.

Depois de conversar com outras empresas, a ADM decidiu pela parceria com a Casa dos Ventos. Para dar cabo ao projeto, as duas empresas passaram a ser sócias em uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), modelo jurídico utilizado pela companhia da TotalEnergies para desenvolver e operar projetos de energia renovável em conjunto com outras empresas.

Ao todo, só no Complexo Babilônia Sul, a Casa dos Ventos possui cinco SPEs, com diferentes acionistas. Além da ADM, entre os parceiros da empresa estão outras companhias como Unigel e Valgroup.

Nessa estrutura, a ADM entra como autoprodutora, termo da legislação do setor que designa quem investe na construção ou compra de participação em usinas geradoras de energia elétrica para suprir sua própria demanda.

“A SPE vende a produção total para a ADM, ou seja, tudo que ela produz ela vende exclusivamente para a ADM”, explica Lee. O contrato foi assinado em 2021, com duração prevista de 15 anos.

O projeto executado na operação brasileira chamou a atenção do board global da ADM, apurou o AgFeed. Mas Lee despista se há a possibilidade de replicá-lo para outras unidades da companhia.

“Se a gente crescer, construir mais três fábricas, por exemplo, aí a gente vai ficar deficitário. Claro que tem meses que a gente roda mais, tem vezes que a sazonagem é ao longo do ano. Mas estamos mais ou menos equilibrados”, diz Lee.

Nas plantas, há ganhos tanto em custos quanto na pegada de carbono deixada pela operação. A ADM estima que a geração de energia eólica resulte em uma redução de aproximadamente 40% nos custos de energia elétrica dessas operações de esmagamento de grãos, equivalente a cerca de R$ 6 por tonelada processada.

A expectativa da ADM é de que a iniciativa gere aproximadamente US$ 18 milhões em ganhos acumulados ao longo dos 15 anos de vigência do contrato. O valor presente líquido estimado dos ganhos futuros é de US$ 3,3 milhões.

Em meses que “sobra” geração de energia em Babilônia Sul, a companhia aproveita para comercializar o excedente no mercado livre de energia, sistema de negociação em que os consumidores compram energia elétrica diretamente de geradores ou comercializadores.

“Essa é a beleza do mercado livre de energia. Você, sendo um participante registrado, pode vender o seu excedente ou comprar o seu déficit. Em um mês que a gente consumiu muito mais do que esperado, por algum motivo, a gente compra o que falta no mercado livre”, diz Lee. “Só que, antes, a gente comprava tudo no mercado livre.”

Do ponto de vista do balanço de emissões de CO2, a ADM estima que o projeto proporciona uma redução estimada de 19 mil toneladas de CO2 por ano e contribui com um recuo de 9,52% das emissões da companhia na América do Sul como um todo.

*O repórter viajou a convite da ADM.

Resumo

  • ADM usa energia eólica do Complexo Babilônia Sul para abastecer sete fábricas de esmagamento de soja no Brasil
  • Projeto tem capacidade de 31,9 MW e reduz em cerca de 40% os custos de energia das plantas envolvidas
  • Iniciativa deve gerar US$ 18 milhões em ganhos durante 15 anos e evitar 19 mil toneladas de CO₂ por ano