Mais de 40 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, gerando US$ 700 milhões em receita desde a sua criação. Os grandes números ajudam a dimensionar o negócio por trás do Farming Simulator, maior franquia de jogos sobre agricultura do mundo.

Explicam, também, porque as principais fabricantes de máquinas agrícolas têm usado essa vitrine digital como uma peça relevante em suas estratégias de marketing.

“Quando um jovem entra no jogo, conhece uma cultura, entende uma operação e começa a perceber toda a tecnologia envolvida naquele processo, estamos ajudando a aproximar uma nova geração do agronegócio”, afirma Joel Backes, diretor comercial e de marketing da Indústrias Colombo, montadora brasileira de máquinas, hoje com negócios em mais de 60 países.

“Para a gente, estar no Farming Simulator significa poder conectar a nossa marca a milhões de pessoas de diferentes países e gerações e fortalecendo nossa estratégia de internacionalização ", afirmou.

A Colombo acaba de fazer sua estreia na plataforma, levando suas máquinas para uma edição especial do simulador lançada nesta sexta-feira, 28 de agosto.

A Cerrado Edition a primeira totalmente desenvolvida no Brasil é também a dedicar um conteúdo específico ao retrato da agricultura do País, trazendo um mapa inspirado exclusivamente no ambiente de produção agrícola brasileiro.

"A nossa proposta foi criar um ambiente brasileiro, para o mundo olhar para o Brasil de uma forma diferente", resume Luiz Eduardo de Lima, sócio da Connect Modding, empresa por trás da criação da nova edição.

Sediada em Sorriso, em pleno coração da principal região produtora de grãos do Brasil, a companhia atua como embaixadora da marca Farming Simulator no País. É ela, hoje, a interface entre marcas nacionais como Colombo, Stara e Jacto, e a Giants Software, empresa suíça criadora e proprietária da franquia.

O Farming Simulator é um simulador que coloca o jogador no comando de uma propriedade rural completa: plantar, colher, criar gado, administrar finanças e expandir um império agrícola virtual.

O jogo se tornou um fenômeno global graças ao realismo, ao motor gráfico próprio e a uma ativa comunidade de modders, como são chamados os criadores individuais de conteúdos que podem ser adicionados de forma contínua ao jogo.

A franquia trabalha com mais de 400 máquinas e ferramentas licenciadas de grandes marcas do setor, como John Deere, Case IH, CLAAS, New Holland, Fendt, Massey Ferguson e Valtra. E, nos últimos anos, tem contado também com a presença de equipamentos genuinamente brasileiros.

O jogo é atualizado regularmente, com novas versões sendo lançadas no máximo a cada três anos. A atual é a Farming Simulator 25, lançada no fim de 2024 que já ultrapassou 5 milhões de cópias, conquista anunciada recentemente na Gamescom, o maior evento de games do mundo, realizado nos Estados Unidos.

O modelo de negócio, porém, vai muito além da venda do jogo base. A franquia monetiza por meio de passes de temporada, DLCs (conteúdos adicionais pagos), parcerias de licenciamento com marcas agrícolas e a plataforma oficial de mods, o ModHub.

Os mods — conteúdos que ampliam a experiência original com novos mapas, culturas, máquinas e funcionalidades — são um pilar central do sucesso da série: por regra dos criadores, os mods oficiais devem ser gratuitos para os jogadores, com apoio alternativo por meio de doações, monetização de vídeos e do próprio ModHub. É nesse ecossistema que a indústria de jogos encontra uma das pontes mais curiosas com o agronegócio real.

A ponte brasileira

A trajetória da Connect Modding até a parceria com a Giants começou em 2019, com trabalhos ainda amadores, e ganhou tração quando os primeiros modelos da empresa entraram no ModHub.

A qualidade da entrega chamou a atenção da desenvolvedora suíça, que concedeu à empresa o título de embaixadora e, mais tarde, a incluiu em programas de parceiros e de criadores de conteúdo.

“O Farming Simulator começou a ser produzido na Europa, que é onde a desenvolvedora tem a sua sede. Mas hoje, quando você produz um conteúdo, você precisa ter um contato mais próximo com indústrias locais", diz Lima.

Segundo ele, o programa de embaixadores existe justamente para olhar para a comunidade regional e produzir materiais que dialoguem com ela. O Brasil, nesse contexto, é uma das comunidades mais fortes das Américas, atrás apenas dos Estados Unidos, e representa hoje quase 10% do total global de jogadores da franquia.

Foi esse o espírito que moveu a Connect Moddign a idealizar a Cerrado Edition, em parceria com as marcas. Uma primeira versão do mapa, batizado de Fazenda Recanto da Alvorada, já havia sido criada para uma edição anterior do game, e retorna agora na versão do Farming Simulator 25.

Agora, de acordo com Lima, ele foi desenhado para representar o cerrado brasileiro com fidelidade: a vegetação, as texturas do solo, a arquitetura das cidades e até a precificação em reais foram pensadas para aproximar o jogador da realidade do campo brasileiro.

O conceito, segundo ele, é mostrar a cadeia de produção completa e a sustentabilidade do agro nacional. "O Brasil é um país muito sustentável, que leva todo o reaproveitamento desses materiais. É mostrar as cadeias de produção, é mostrar a cultura local", explicou.

Ele cita como exemplo a possibilidade do reaproveitamento da casca do café como composto orgânico para fertilização — um detalhe que, na visão dele, diferencia o conteúdo brasileiro do de outros países, onde técnicas como essa não têm a mesma relevância.

O nome Cerrado, aliás, é quase um spoiler dado pelo empreendedor. A intenção da Connect é representar, em cada versão do jogo, uma região diferente do Brasil, do agronegócio de grande porte do Centro-Oeste às fazendas de pequeno e médio produtor do Sul.

A Colombo e o amendoim

Uma das principais novidades da edição é a chegada da Indústrias Colombo, multinacional brasileira com 53 anos de história e sedes industriais em Pindorama e Catanduva, no interior de São Paulo, além de filiais nos Estados Unidos e na Argentina.

A companhia é pioneira na fabricação de máquinas para a colheita mecanizada do amendoim no País e isso ajuda a explicar porque, pela primeira vez, essa cultura poderá ser vivenciada no Farming Simulator 25.

A Colombo leva para o jogo quatro equipamentos da marca Miac, reproduzidos digitalmente a partir das máquinas reais: o arrancador C600, as colhedoras Twin Master Peanut Combine e Avanti e o transbordo CTA 6500, que permitem executar desde o arranquio até o transporte da produção.

A escolha do amendoim, segundo Joel Backes, atendeu a um pedido constante da comunidade de jogadores, especialmente dos Estados Unidos, um dos maiores mercados do jogo e também um dos principais mercados da Colombo.

"A gente sempre observava muito nas nossas redes o pedido da cultura do amendoim", conta Lima. Ele lembra que o diálogo com a Colombo começou cerca de três anos antes do lançamento, envolvendo toda uma estrutura jurídica e de planejamento.

"Quando todo mundo fala de amendoim dentro do jogo, fala das máquinas deles", afirma o sócio da Connect Modding para conquistar visibilidade em novos públicos.

A estratégia repete o modelo já utilizado com outras marcas brasileiras no passado. A paulista Jacto, por exemplo, entrou na plataforma há alguns anos levando seus pulverizadores, carro-chefe da empresa, às lavouras virtuais de café. Já a gaúcha Stara estreou com seus equipamentos voltados para a cultura de cana.

A convivência entre as diferentes indústrias é uma regra de ouro para a Giants e a Connect Modding. Segundo Lima, a Cerrado Edition traz 40 diferentes máquinas, com cada marca atuando em uma diferente cultura. “A gente sempre teve que ter muito cuidado para sempre respeitar o limite de ser igual para todas”.

No mapa da Fazenda Recando da Alvorada, além do amendoim, o jogador pode simular operações de soja, milho, cana-de-açúcar, café e praticamente todas as culturas comercializadas no Brasil, com equipamentos que vão desde plantadeiras de pequeno porte até máquinas de grande escala.

“Ela é pensada para ser o mais fiel possível ao agro brasileiro, para atingir desde o produtor de pequeno ao médio e até o grande porte”, diz Lima.

“A gente quis investir em um público de modo geral, então a gente tem plantadeiras até de 49 linhas e plantadeiras de 13 linhas lá dentro, trator de médio porte, colhedoras, desde uma que é de arrasto até uma máquina maior. Tem todo um ecossistema a ser trabalhado”.

Os detalhes, segundo ele, são fundamentais nesse sentido, como a arquitetura dos armazéns, a comercialização em reais, ou as janelas de plantio e colheita de cada cultura, colocando um um retrato da diversidade do agro brasileiro ao alcance de milhões de jogadores ao redor do mundo.

O conteúdo da Cerrado Edition será disponibilizado gratuitamente como mod para quem já possui o Farming Simulator 25. Como cada cópia vendida permite a instalação em até três dispositivos, o potencial atual é de 15 milhões de usuários.

Para Backes, da Colombo, mais que o número, o importante é o perfil de quem está conectado ao jogo. “Estando lá dentro, ficamos visíveis a uma nova geração que vai tomar as decisões do agro no futuro”, pontua. “Em alguns anos esse jogador pode estar assumindo um cargo de gestão em uma fazenda e, no momento de troca de uma máquina, vai lembrar da nossa marca”.

Lima, da Connect Modding, faz coro, puxando, é claro, a sardinha para a sua brasa. “A gente sabe que estar em feiras é importante, estar no posicionamento nas redes é importante, mas ao estar lá naquele momento de descanso de uma pessoa você se torna uma referência”.

Resumo

  • Cerrado Edition cria um mapa inspirado no agro brasileiro e reproduz culturas, operações e características da agricultura do País
  • Marcas nacionais ganham espaço: Colombo, Jacto e Stara levam máquinas brasileiras ao Farming Simulator, aproximando suas marcas de milhões de jogadores
  • Brasil representa quase 10% dos jogadores da franquia e nova edição pode alcançar até 15 milhões de usuários do Farming Simulator 25