Nacionalmente conhecida no mercado automotivo e industrial, a Baterias Moura - com receitas que ultrapassam a casa do bilhão anualmente - tem se enveredado cada vez mais no agronegócio.

Observando demandas de segurança energética e redução de custos, a companhia de origem pernambucana vem ampliando sua atuação no setor rural para além da venda tradicional de baterias e colocou o agro como uma de suas  principais avenidas de crescimento da divisão de armazenamento energético, baseada em sistemas conhecidos como BESS (Battery Energy Storage System).

Na prática, a Moura atua em três frentes dentro do agronegócio: baterias pesadas para tratores, colheitadeiras e veículos agrícolas, baterias estacionárias para sistemas fotovoltaicos e estruturas fixas e os chamados sistemas de armazenamento de energia, usados para reduzir custos, garantir estabilidade elétrica e permitir expansão operacional em áreas com limitações de rede.

“O agro hoje convive basicamente com três dores: custo da energia, qualidade e confiabilidade do fornecimento e, em muitos casos, ausência total de energia elétrica”, justificou ao AgFeed Adalberto Campelo, gerente de negócios de armazenamento de energia da Moura.

Segundo ele, o agronegócio já representa cerca de um terço da receita comercial da divisão de armazenamento energético da Moura em 2026.

Segundo o executivo, a pressão sobre energia vem crescendo à medida que alguns setores do agro avançam: irrigação, refrigeração em algumas agroindústrias, automação e conectividade em larga escala.

“Energia virou um dos principais insumos da operação agroindustrial. Em muitos casos, perde apenas para folha de pagamento de pessoal em relevância dentro do custo de uma atividade agrícola”, disse.

O principal foco - e alvo de maior procura por parte do agro pela Moura - está na expansão da irrigação. O Brasil encerrou 2025 com cerca de 10 milhões de hectares irrigados, ante 9,5 milhões no ano anterior. Desse total, aproximadamente 3 milhões de hectares utilizam pivôs centrais, outros 3 milhões estão ligados à irrigação em canaviais e cerca de 2 milhões utilizam sistemas de gotejamento e métodos convencionais.

A expectativa do setor é que a área irrigada nacional alcance cerca de 12 milhões de hectares nos próximos três anos, movimento que deve pressionar ainda mais a demanda por infraestrutura energética no campo.

Na visão de Campelo, da Baterias Moura, muitos produtores enfrentam hoje um gargalo estrutural: possuem terra e demanda para ampliar produção, mas não conseguem expandir o consumo elétrico por limitações da rede de distribuição.

“Boa parte dessas operações está em fim de linha da rede elétrica. O produtor quer instalar mais pivôs, ampliar produção, mas não consegue aumentar a oferta de energia”, afirmou Campelo.

Segundo ele, esse cenário se tornou ainda mais frequente com a expansão agrícola em regiões mais afastadas dos grandes centros consumidores, onde a infraestrutura elétrica costuma ser mais limitada.

“O agro brasileiro está crescendo justamente em regiões onde a infraestrutura ainda não acompanhou essa expansão. Quem está no fim da linha normalmente sofre mais com oscilações e falta de energia”, disse, citando como exemplo  a região do Matopiba.

Nesse contexto, os sistemas de armazenamento aparecem como alternativa para reduzir dependência da rede ou complementar sistemas solares, ele argumenta.

A lógica é simples: armazenar energia em horários mais baratos e utilizá-la nos períodos de pico, quando as tarifas sobem significativamente.

“É comum encontrar operações em que apenas três horas do horário de ponta representam quase metade da conta de energia elétrica”, disse o executivo.

De acordo com Campelo, muitos produtores já investiram em geração solar fotovoltaica, mas perceberam que apenas a geração não resolve completamente o problema energético da operação.

“A energia fotovoltaica ajuda muito, mas não é segura, não entrega potência firme o tempo todo. O armazenamento de energia entra como se fosse esse aliado”, afirmou Campelo.

Além da irrigação, a Moura também vê crescimento da demanda em operações agroindustriais que dependem de refrigeração contínua, armazenagem e climatização. Um dos exemplos citados pelo executivo envolve a cadeia de proteína animal, especialmente granjas de aves.

“Na avicultura, por exemplo, basta uma interrupção energética para comprometer sistemas de climatização. Dependendo da situação, a perda da produção pode acontecer em minutos”, disse.

Segundo ele, sistemas de backup e armazenamento têm ganhado espaço justamente para evitar prejuízos ligados à oscilação da rede elétrica.

Outra frente que começa a ganhar espaço envolve operações totalmente off-grid ou parcialmente desconectadas da rede convencional.

Em alguns casos, produtores precisam expandir áreas irrigadas ou instalar novas estruturas produtivas em locais onde simplesmente não existe capacidade disponível de distribuição elétrica.

Historicamente, a alternativa nesses casos era recorrer a geradores movidos a combustíveis fósseis.

“Se ele quer expandir produção e não possui energia suficiente, normalmente a solução acaba sendo geração térmica, queimando combustíveis fósseis. Mas muitos produtores hoje também estão preocupados com eficiência e metas de sustentabilidade”, afirmou Campelo.

Segundo a Moura, o armazenamento energético pode funcionar como complemento de sistemas renováveis, reduzindo consumo de diesel e aumentando previsibilidade operacional.

A empresa também vem apostando em modelos de “energia como serviço”, em que o produtor não precisa comprar os equipamentos diretamente.

Nesse formato, a Moura realiza o investimento na infraestrutura energética e o cliente paga a Moura em contratos de longo prazo, de cerca de uma década.

“Desenvolvemos um modelo em que o próprio projeto se autorremunera. Isso tem ganhado força especialmente no agro porque libera capital para o produtor investir na atividade principal dele”, afirmou. A maior demanda tem sido novamente na irrigação.

No geral, os projetos da Moura no agro estão concentrados principalmente em operações “atrás do medidor”, ou seja, sistemas instalados diretamente no consumo do cliente, envolvendo fazendas, agroindústrias, armazenagem e irrigação.

A leitura interna é que esse mercado ainda está no começo de um ciclo mais forte de expansão.

“A tecnologia de armazenamento, como o BESS, chegou no Brasil há poucos anos. Agora começam a aparecer os primeiros cases de sucesso e isso gera um efeito multiplicador muito forte no agro”, afirmou Campelo.

Foi justamente essa percepção que levou a empresa a ampliar sua presença no setor e participar da Agrishow 2026 com um estande próprio.

"O que nos levou à feira foi essa constatação que o mercado do agronegócio tem percebido valor nesse equipamento em apoio a uma de suas principais dores. Convencionalmente o setor recebe energia de muito baixa qualidade e tem procurado alternativas", comentou.

A empresa afirma ainda que começa a observar crescimento do interesse de médios e pequenos produtores, o que deve levar ao lançamento de soluções personalizadas e de menor custo num futuro próximo.

Resumo

  • Moura vê irrigação e gargalos de energia como principal motor da demanda por sistemas de armazenamento no agro
  • Agronegócio já responde por cerca de um terço da receita da divisão de armazenamento energético da empresa
  • Moura aposta em modelo de “energia como serviço” para financiar projetos sem exigir compra direta dos equipamentos