Fundada em novembro de 2021, com sede em Cuiabá, a Hydrographe S/A pode ser definida como uma ilustre quase desconhecida do grande público do agronegócio brasileiro.
A primeira aparição de destaque da empresa aconteceu pouco mais de quatro anos após sua criação – e meio por acaso. Em uma cerimônia realizada na prefeitura de Toledo no início de dezembro, a companhia foi apresentada como sócia e responsável por levar para o município do Oeste paranaense um projeto de R$ 1,18 bilhão para a construção de uma planta de etanol de milho.
De forma inesperada, os holofotes do evento se voltaram para Paulo Sérgio Rangel Filho, engenheiro elétrico e sócio da Hydrographe ao lado de João Vianey da Silva. Só os olhos mais atentos é que enxergaram nele e na empresa uma conexão com outros projetos tão ambiciosos quanto esse, que, antes mesmo de sair do papel, já movimentam a região dos municípios de Cristalina e Formosa, no interior de Goiás.
As digitais da Hydrographe, no caso goiano, são menos evidentes. Lá, o anúncio foi feito há cerca de um ano e prevê a construção de duas usinas, no valor total de R$ 1,8 bilhão, com a assinatura da Planalto Bioenergia, companhia criada por um grupo de empresários e produtores rurais para investir no setor.
Rangel está à frente dos projetos da Planalto. “A Hydrographe é sócia do negócio e eu atuo como diretor executivo”, afirma ele ao AgFeed.
No caso de Toledo, a Hydrographe é protagonista, pelo menos por enquanto. O anúncio foi uma surpresa mesmo para Rangel, que esteve na cidade paranaense ao lado do sócio para a formalização de uma carta de intenções junto à prefeitura, que deve marcar o início de uma fase que combina os processos de licenciamento ambiental e de captação de recursos para a viabilização do projeto.
É nessa fase que se concentra a expertise da Hydrographe, empresa criada com o foco no desenvolvimento de projetos para a implantação de usinas de etanol de milho, especialidade de Rangel.
Nos últimos anos, ele atuou junto a alguns projetos emblemáticos do setor, sempre associado a alguns grandes nomes do setor. Foi diretor de Novos Negócios da Ethanol Holding, liderada pelo agropecuarista Otaviano Pivetta, atual vice-governador do Mato Grosso, responsável por uma das primeiras usinas para a produção do biocombustível, em Nova Mutum, posteriormente vendida para a Inpasa.
Na Hydrographe, segundo conta, ele tem planos para a implantação de usinas em 10 diferentes locais – as plantas de Goiás e do Paraná fazem parte desse portfólio.
“Nosso trabalho começa ao fazer os estudos de viabilidade dessas áreas e, depois, costurar a estrutura de capital que vai financiar a sua construção”.
Nos projetos goianos, como diretor executivo, Rangel será responsável também pela execução da montagem das plantas, que ele espera ver iniciadas ainda no primeiro trimestre de 2026.
No final de novembro a Planalto Bioenergia obteve a licença de instalação (LI) da unidade de Formosa. A de Cristalina havia sido concedida no fim de agosto passado.
Com esse sinal verde finalmente aceso, Rangel acredita que será finalmente possível avançar na busca dos recursos. As conversas estavam em ritmo lento, à espera das licenças, segundo ele.
“Principalmente para capital estrangeiro, você não começa nem a conversar sem a licença”, diz. “E como a gente está fazendo a negociação para ambas as plantas, então nós estávamos na dependência das duas para dar sequência”.
Rangel está otimista nesse sentido e acredita ser possível viabilizar o financiamento ainda nos primeiros meses de 2026. “Hoje o projeto já é bastante conhecido nas principais mesas de crédito”, afirma.
O primeiro anúncio da intenção da Planalto de construir as duas em Goiás plantas aconteceu em setembro de 2024. Desde então, a região vem vivendo a expectativa de contar com mais um importante comprador de milho, o que tem incentivado os produtores a investirem na cultura.
O executivo informa que já foram inclusive assinadas as primeiras cartas de intenção de fornecimento para atingir as 500 mil toneladas que cada usina vai precisar para produzir 200 milhões de litros de etanol por safra.
O projeto do Paraná
No Paraná, o cronograma está em fase mais inicial, mas Rangel afirma já ter grupos interessados em participar do projeto – ele prefere não revelar por enquanto nenhuma pista a respeito.
A área onde deve ser instalada a planta, próxima do aeroporto da cidade, pertencente ao agricultor e deputado federal Dilceu Sperafico e passará pelo processo de licenciamento ambiental, que deve ser requerido ainda em janeiro próximo.
Segundo Rangel, a usina deve ter capacidade de processamento de 1,5 mil toneladas de milho por dia. Pelas características da região – uma das principais produtoras de grãos do Paraná – ele acredita que não haverá dificuldade na obtenção da matéria-prima.
O sócio da Hydrographe lembra que o estado é o segundo maior produtor de milho do País, atrás do Mato Grosso, e que exporta anualmente mais de 3,5 milhões de toneladas do grão.
“O nosso projeto cabe bem na região, sem afetar o fornecimento para a atividade da avicultura e da suinocultura, que são muito fortes por lá”, diz.
Por conta da relevância dessa indústria na região, que vem sendo estudada pela Hydrographe há dois anos, Rangel afirma que o foco principal da planta paranaense deve ser a produção do DDGS, concentrado de proteína derivado da produção do etanol de milho com alto potencial para a nutrição animal.
“Teremos, assim, uma vantagem logística muito grande na comercialização e podemos pensar também em soluções como o barter, com o recebimento de milho em troca do DDGS”, explica.
Outra característica importante da região é a presença forte de grandes cooperativas agroindustriais, como Coamo, Coopavel, C.Vale, Integrada e Frimesa, entre outras.
Para Rangel, isso pode favorecer na formação de parcerias, seja na originação do milho, seja na comercialização do etanol ou do DDGS.
Resumo
- A Hydrographe, fundada em 2021 em Cuiabá, ganhou visibilidade ao liderar um projeto de R$ 1,18 bilhão para etanol de milho em Toledo (PR)
- A empresa também está por trás de duas usinas em Goiás, via Planalto Bioenergia, somando R$ 1,8 bilhão, com licenças já obtidas e foco em captação de recursos
- Liderada por Paulo Sérgio Rangel Filho, a companhia atua no desenvolvimento, licenciamento e estruturação financeira de até 10 projetos