Não-Me-Toque (RS) - Os últimos meses de 2025 até mostravam uma certa recuperação na indústria de máquinas e equipamentos agrícolas, mas os resultados do início deste ano voltaram para o campo negativo, de acordo com dados recentes divulgados pela Abimaq, que representa o setor.
É neste cenário que está sendo realizada esta semana mais uma importante feira de tecnologia agrícola do País, a Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul.
Mais uma vez os organizadores não divulgaram expectativa de negócios e nem pretendem fechar um balanço de faturamento quando a feira terminar, na sexta-feira.
E é fácil de entender o motivo. Além do cenário de margens mais apertadas para produtores rurais em todo o Brasil, no Rio Grande do Sul a situação é considerada mais grave, porque foram pelo menos três anos seguidos de quebras significativas por problemas climáticos.
Em entrevista exclusiva ao AgFeed, o diretor comercial da Valtra, uma das marcas da multinacional AGCO, Claudio Esteves, confirmou que as vendas neste começo de ano seguem muito lentas.
“A gente continua ainda olhando uma estabilidade em relação ao ano passado, mas mantivemos a mesma participação de mercado”, afirmou.
Até o ano passado, tratores para pequenos produtores ainda registravam leve crescimento, enquanto as máquinas para grandes propriedades ficavam estagnadas, mas agora o cenário se estende para diferentes segmentos.
“A agricultura familiar estava se mantendo e você tinha, principalmente, crescimento puxado pelo café. Aqui no Rio Grande do Sul, puxado pelo fumo, que também teve um resultado importante. Valor de produto alto. Então o pessoal aproveitou para renovar a frota”, lembrou. “Mas agora houve uma retração no geral, porque era o mercado que estava mais aquecido.”
Consórcio em alta
Se os juros estão altos para comprar uma máquina via financiamento tradicional, o jeito é buscar alternativas. Uma das vertentes, desde 2024, tem sido a maior procura por consórcios.
Claudio Esteves disse que, neste período de aperto, a marca discute internamente de que forma pode ajudar mais o produtor. E uma das decisões foi fazer ofertas diferenciadas em consórcios.
A empresa lançou um produto chamado Super 3000, que é um grupo de 3 mil cotas. “E a gente tem um compromisso de contemplar 800 cotas em dois anos, ou seja, disponibilizar mais de mil oportunidades em uma taxa atrativa como é do consórcio”.
Segundo o executivo, as vendas de cotas aumentaram 30% na Valtra em 2025, na comparação com o ano anterior. Em janeiro deste ano, o mercado ficou estável, mas em fevereiro já aumentou a procura novamente, com crescimento de pelo menos dois dígitos – os números ainda não foram fechados.
Os consórcios já representam 15% da receita total da Valtra no Brasil, patamar muito acima do que era visto anos atrás (ficava abaixo de 10%), quando os juros estavam mais baixos e os preços das commodities eram mais altos, o que sustentava um crescimento contínuo da indústria.
Esteves diz que em alguns segmentos a participação do consórcio é ainda maior. No caso do café, que até o ano passado vinha com preços em alta, quase 60% das vendas de tratores e outros equipamentos da Valtra foram feitos com consórcios. O cálculo desconsidera compras feitas com recursos dos próprios agricultores.
Outra marca do mesmo grupo AGCO, a Massey Ferguson, também vem registrando maior demanda por consórcios. A alta foi de 21,2% em 2025 em relação ao ano anterior.
Para o primeiro trimestre de 2026, segundo Flávio Vincensi, gerente nacional do Consórcio Massey Fergusona, a expectativa segue positiva.
“A finalização da safra na maior parte do Brasil tradicionalmente impulsiona o planejamento de novos investimentos por parte dos produtores. Além disso, importantes feiras do agronegócio, como a Expodireto (RS) e a Show Safra (MT), contribuem para aquecer o mercado de consórcios”, afirmou.
Motor remanufaturado
A Valtra levou para a Expodireto um destaque para um programa que também é oferecido por outras marcas do grupo, o chamado “Reman”.
Na prática, é o incentivo ao produtor para que, na dificuldade de comprar um motor novo, opte por adquirir um motor “remanufaturado”. É um modelo diferente do “retificado”, explicou Esteves, onde apenas algumas peças seriam trocadas.
“Uma carcaça de motor foi feita para durar a vida toda. Então a gente leva essa carcaça, faz todo o trabalho de manutenção e tudo que vem de periférico é novo.”
No estande da Expodireto a marca mostra um motor em que a metade foi “remanufaturada” e outra metade foi mantida como estava.
Para o produtor, a principal vantagem é econômica. O preço fica entre 30% e 40% mais baixo do que a compra de um motor novo.
A fabricante também defende atributos ESG do projeto, já que a remanufatura pode gerar uma economia de 90% no uso da água, por exemplo.
Resumo
- Vendas por consórcio da Valtra cresceram 30% em 2025 e já representam 15% da receita no Brasil
- Juros elevados e margens apertadas dos produtores mantêm vendas de máquinas agrícolas em ritmo lento
- Empresa promove motores remanufaturados, até 40% mais baratos que novos e com menor impacto ambiental