Lucas do Rio Verde (MT) - O município de Lucas do Rio Verde não é apenas um grande centro da produção de grãos e proteína animal no País. É neste ponto de Mato Grosso, que fica a 330km da capital Cuiabá, que foi instalada a primeira planta de etanol de milho de uma das maiores produtoras do biocombustível no Brasil, a FS Fueling Sustentability.

Essa é uma das razões para que a principal feira de tecnologia agrícola do Brasil, o Show Safra, não tenha apenas estandes de tratores, colheitadeiras e insumos. Quem circula pelo parque encontra logo na entrada um espaço da FS, onde circulam principalmente os produtores rurais que são fornecedores de milho para a empresa.

Entre uma reunião e outra no Show Safra, o diretor comercial da FS, Victor Trenti, recebeu o AgFeed para uma entrevista exclusiva e revelou que os negócios de barter com os produtores esse ano estão a todo o vapor.

“Nós somos sempre muito incentivadores, principalmente dessas feiras onde estão nossas plantas, porque é uma forma de a gente poder estar próximo dos nossos parceiros de negócio”, afirmou Trenti.

Na semana anterior a FS havia participado da Farm Progress, outra feira de Mato Grosso, em Primavera do Leste, local que a empresa também tem uma usina.

“A gente tem uma mesa de barter, de troca, bastante grande, onde a gente consegue trocar o DDG pelo milho. E consegue financiar o produtor trocando fertilizantes pelo milho. Fazendo com que o milho se torne uma moeda e que a gente consiga trazer uma solução para o produtor e ele nos envie o físico do milho”, explicou.

Em tempos de crédito cada vez mais restritivo em revendas e bancos, com juros altos, a demanda por barter tem aumentado. O diretor da FS disse que, historicamente, a empresa fazia entre 10% e 15% da sua originação de milho via operações de troca. Este ano acredita que a fatia ficará entre 20% e 25%.

“É uma operação de confiança, de credibilidade entre as partes. E, ao longo do tempo, essa relação vai ficando cada vez mais forte. É o que a gente vem sentindo”, analisa.

No caso dos fertilizantes, a troca é feita não apenas com o tradicional NPK, por meio de parcerias com fabricantes, mas também com o fornecimento de um biofertilizante que é produzido pela própria FS.

Resíduos orgânicos como as cinzas que sobram da queima da biomassa e outros da nutrição animal de bovinos viram matéria-prima para um produto que foi desenvolvido na empresa.

Atualmente a FS já produz entre 50 mil e 70 mil toneladas desse biofertilizante, que é usado para efetivar a proposta de “economia circular”.

A FS espera originar aproximadamente 5,8 milhões de toneladas de milho durante esse ano-safra, que vai de abril de 2025 a março de 2026. A produção de etanol esperada é de 2,5 bilhões de litros.

“Estamos falando de um aumento de 7% com a mesma estrutura, só ganhando eficiência dentro das plantas que a gente já possui”, destacou Victor Trenti.

Preços firmes e exportação em alta

A FS avalia que o ritmo de comercialização do milho está um pouco lento, especialmente porque a janela do plantio do milho, embora tenha sido boa, foi um pouco mais atrasada.

O produtor rural, na visão de Victor Trenti, está “bastante conservador” quanto às próximas chuvas e a consolidação da segunda safra de milho, para fazer o mercado rodar.

A expectativa é de que os preços do milho sigam firmes.

“A gente chega nesse final da safra com estoques de passagem bastante baixos. E isso pressiona os preços para cima. E quando a gente olha para o futuro, vê uma oferta chegando de milho. Mas uma sustentação de preços importante também por conta da demanda”, analisa.

Hoje 45% do milho de Mato Grosso tem como destino a exportação, com previsão de seguir nestes níveis também no Brasil, ele destaca. Além disso, a indústria de proteína animal, grande consumidora do cereal, segue com boas margens, enquanto a indústria do etanol de milho vive um momento de expansão.

“Para a próxima safra vai continuar uma demanda bastante alta. Deve aumentar de 2 a 3 milhões de toneladas de milho só para a produção de etanol”, diz.

Um dos destaques dos resultados para a FS pode ser a exportação. A empresa pode, por exemplo, pegar carona na abertura de novos mercados que vem sendo negociada em missões oficiais, como o próprio Japão, no caso do etanol.

Ao AgFeed, o diretor comercial disse que a exportação do etanol deve crescer dos atuais 130 mil metros cúbicos para 250 mil metros cúbicos, saindo de uma participação de 5% para 10%.

“Do lado do DDG, também a gente deve exportar cerca de 5%. Ainda grande parte da produção fica aqui”, ponderou.

No caso específico da FS, são produzidos diferentes tipos de DDG, sendo que o mais exportado é HP DDG, considerando um ingrediente de alto valor agregado, com 45% de proteína.

“Esse é um produto exportável, em que a gente deve chegar de 5% a 7% de volume exportado esse ano, à medida em que o mundo, principalmente o Sudeste Asiático, conhece o nosso produto, a nossa qualidade. O Brasil, como setor, já está exportando cerca de 1 milhão de toneladas de DDGs, de coprodutos de etanol de milho”.

No mercado interno, o executivo diz que as perspectivas seguem positivas. No caso do etanol, a visão é de que a relação com a gasolina se manterá abaixo de 70%, o que indica ser mais barato para o consumidor abastecer com etanol, apesar da diferença na autonomia dos veículos.

Victor Trenti, diretor comercial da FS

“Além disso, tivemos a aprovação da Lei do Combustível do Futuro no ano passado. Essa lei possibilita o aumento da mistura do etanol anidro dentro da gasolina, saindo de 27%, podendo chegar a 30% e depois 35%”, lembrou.

Para o DDG, a expectativa é de um mercado crescente, à medida em que o produto passa a ser mais usado na cadeia de proteína animal, com foco em aumento de produtividade e redução de custos.

“O Brasil consome mais ou menos 90 milhões de toneladas de ração. São dados da ABPA no ano passado. E hoje a agroindústria produz 5,5 milhões de toneladas de DDG. Então, 6%, 7% de DDG dentro da dieta completa de proteína animal do Brasil”.

Victor Trenti acredita que o DDG pode representar 15% para algumas proteínas e até 50% em bovinos.

Plano para novas plantas

Entre 2020 e 2023 a FS abriu duas novas plantas, uma em Sorriso e outra em Primavera do Leste. Com o avanço acelerado do etanol de milho naquele período, o mercado já esperava a abertura de mais três unidades. Entre as cidades candidatas estariam Querência, Nova Mutum e Campo Novo do Parecis.

O período mais desafiador para o agronegócio, no entanto, tem refletido num ritmo mais lento no processo de expansão. Victor Trenti disse ao AgFeed que o plano estratégico da empresa realmente prevê chegar a seis plantas, com uma produção de 5 bilhões de litros.

“A gente continua nessa direção, a velocidade que a gente vai fazer isso é que vai se adaptando conforme a dinâmica que o mercado mostra”, afirmou.

O executivo descreve o momento da empresa: “Estamos azeitando a máquina”. Na visão dele, é hora de ganhar eficiência a partir dos investimentos que já foram feitos nas plantas que estão em funcionamento. Isso deve ocorrer em processos tanto na parte produtiva quanto administrativa.

“A gente entende que é um mercado para se observar, para entender como vão se acomodar todas essas mudanças que vêm vindo, tanto a evolução da segunda safra (de milho) quanto a essas novas plantas que estão sendo colocadas com uma posição do Brasil como grande exportador. Então, é um momento de acomodação do setor e, para a gente, é um momento de ganho de eficiência”, avaliou.

“É focar no que está fazendo hoje para estar pronto para, quando a gente entender que o momento é de crescimento, retomar e acelerar de novo as possíveis construções de outras plantas e ampliações”, acrescentou.

Neste cenário, não há data específica para que uma nova planta de produção comece a ser construída.

Em paralelo, porém, a FS garante que seguirá investindo em seu projeto para produzir o primeiro etanol do mundo “carbono negativo”. É o chamado BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage).

A empresa já obteve o aval sobre viabilidade técnica para o projeto de captura do CO2 que é gerado durante a produção de etanol de milho e armazenagem no subsolo, contribuindo para a redução de emissões de gases de efeito estufa. A unidade de Lucas do Rio Verde foi escolhida para ser a primeira a implementar o projeto.

Foram realizadas audiências públicas para avaliar impactos para as comunidades locais e há a expectativa do lançamento da pedra fundamental ainda este ano.

“Por mais que estamos concentrando os nossos investimentos e esforços nas plantas que nós temos, não deixamos de fazer investimentos em novos fermentadores, novos ajustes nas plantas, e principalmente na agregação de valor. Uma dessas agregações é tornar o etanol carbono negativo. Então, o investimento no BECCS foi bastante alto e deve ter operação sendo iniciada dessa planta em 2026. Deve ser a primeira de etanol negativo do mundo”, destacou.