Algumas semanas antes de a “Faria Lima” ter sido colocada lado a lado em uma investigação multibilionária que envolve o Primeiro Comando da Capital (PCC), uma crise reputacional se instaurou no setor de dívida, história essa que se encaminha para uma conclusão.

A securitizadora Virgo será comprada pela holding que controla a Riza Asset, segundo informou a própria empresa em um fato relevante divulgado ao mercado.

O acordo não vinculante foi assinado pelos sócios da Riza, e encerra o processo que se iniciou na metade de agosto, após uma denúncia de que o controlador da Virgo, Ivo Kós, utilizou recursos de clientes para investir em um CRI (Certificado de Recebível Imobiliário) da Cedro Participações de forma indevida.

A holding da Riza é dona, além da asset, com R$ 16 bilhões sob gestão (sendo R$ 4 bi no agro), da Mousik, que gerencia ativos musicais, e da empresa RZA, que atua no segmento ambiental.

Segundo o documento, o acordo tem como objetivo a “alienação da totalidade das ações de emissão da Virgo para a Riza”. A Riza ainda assumiu o compromisso de adquirir a totalidade dos CRIs, o que permite o resgate dos recursos investidos sem prejuízo aos investidores dos títulos emitidos pela Virgo.

A ideia é que a Riza compre e repasse esses ativos para outros investidores, sem encarteirá-los em seus fundos.

“Tal movimento reforça o compromisso da Virgo, de seus colaboradores e acionistas diretos e indiretos com o melhor interesse dos investidores e com a evolução do mercado de securitização brasileiro”, disse a securitizadora, que agora tem novo dono.

Tudo começou no dia 18 de agosto, quando o ex-executivo da Virgo, Eduardo Levy, protocolou uma denúncia na CVM acusando o controlador da securitizadora, Ivo Kos, de “gestão temerária”. A principal acusação envolvia um desvio de R$ 240 milhões de fundos de outros clientes para pagar uma operação de CRI.

A denúncia mexeu com o mercado de dívidas (especialmente CRIs e CRAs), porque a Virgo é uma das maiores securitizadoras do País.

O AgFeed mostrou numa reportagem publicada em julho deste ano que a Virgo emitiu, considerando os dois títulos, 47 certificados de recebíveis no primeiro semestre do ano, mantendo o mesmo número do período equivalente em 2024 enquanto o mercado como um todo reduzia.

Só nos CRAs, foram 16 emissões que somaram R$ 2,5 bilhões. Nesse ranking, na frente da Virgo estava a Opea, que comprou, no ano passado, a True, outra securitizadora ativa no segmento, com 77 emissões (CRAs e CRIs), 28 a menos do que em 2024.

A denúncia pode até ter pego alguns de surpresa, mas para um experiente executivo do mercado de securitização, o sócio Ivo Kos era conhecido por algumas práticas do tipo.

Essa mesma fonte chegou a dizer ao AgFeed que, em casos, a Virgo cobrava um terço do valor cobrado por concorrentes para securitizar emissões. “Não é regular mercado, é inviabilizar operações. A conta não fecha”, disse.

As notícias e a crise reputacional que a Virgo encarou fizeram com que grandes gestoras e bancos que confiavam as emissões de CRIs e CRAs à empresa suspendessem operações, segundo apurou o site The Agribiz. Entre elas estavam XP Investimentos, Kinea e Itaú BBA.

A Virgo chegou a emitir uma nota, na época, dizendo que “nenhuma lei ou regulamento de mercado havia sido violado, e que não houve dano ou prejuízo a nenhum parceiro da securitizadora”.

Passado esse momento, a própria Virgo iniciou um processo de vender a empresa com ajuda da assessoria financeira CVPar, movimento que em menos de uma semana teve seu desfecho.

Resumo

  • Riza compra a securitizadora Virgo, assume seus CRIs e encerra crise deflagrada por denúncia de desvio de R$ 240 milhões
  • A denúncia acusava o controlador da Virgo de usar R$ 240 milhões de clientes em um CRI da Cedro Participações, desencadeando a suspensão de operações por grandes gestoras.
  • A Virgo, que emitiu 47 certificados de recebíveis no 1º semestre, incluindo R$ 2,5 bilhões em CRAs, buscou venda emergencial da empresa