Uma conversa de míseros 30 segundos, ocorrida hpa cerca de um ano durante um evento que não tinha nada a ver com o agronegócio, pode resultar na geração de R$ 14 bilhões para o setor no Paraná.

Na ocasião, o governador Ratinho Junior se encontrou com Tiago Reis, chairman da Suno, e Octaciano Neto, ex-diretor da gestora e hoje cofundador da Avra.Ag. Os dois representantes do mercado de capitais mostraram ao chefe do Executivo paranaense que a legislação dos Fiagros permitia uma mescla de financiamentos privados e públicos para o agronegócio, substituindo, em partes, o Plano Safra.

Na manhã desta quinta-feira, dia 3 de abril, a formalização do primeiro capítulo dessa jornada ocorreu na sede da B3, em São Paulo (SP). O governador do Paraná tocou a campainha e estreou o primeiro Fiagro estadual do País.

Com R$ 350 milhões equalizados pelo governo local através da Fomento Paraná, instituição financeira estadual que oferece linhas de financiamento, o fundo nasce com a expectativa de captar R$ 2 bilhões a serem concedidos a produtores rurais do estado para investimentos de longo prazo. A gestão do fundo fica por conta da Suno.

O fiagro paranaense irá financiar o agronegócio local com recursos destinados somente para Capex, privilegiando a indústria paranaense. A ideia é fomentar empresas locais que atuam com máquinas agrícolas, caminhões, silos e pivôs de irrigação, por exemplo. O Fiagro não atuará com operações de custeio ou compra de terras.

“Podemos fazer com que cada real que seja colocado equalizado alavanque o fundo em cinco ou sete vezes”, disse Ratinho Junior em conversa com jornalistas durante o evento.

Animado com o fundo que está sendo lançado agora, o governador do Paraná adiantou que o estado prepara mais quatro novos fundos e revelou que o estado já possui R$ 2 bilhões reservados em caixa para “alavancar novos fundos do tipo”.

Na engenharia financeira do governo, esses R$ 2 bilhões podem gerar, na ponta final, R$ 14 bilhões em crédito de investimento para o agro paranaense.

“Todos esses fundos estão em andamento e devemos anunciá-los nos próximos seis meses. Já temos hoje algumas cooperativas do estado preparando seus fundos e também o Banco New Holland. Tem vários players nos procurando e chega a 10 os segmentos do agro que querem levantar um fundo”, afirmou Ratinho Junior.

A ideia é que as cooperativas paranaenses captem esses recursos e os repassem para os cooperados.

A estrutura do veículo funciona da seguinte maneira: enquanto a Fomento Paraná entra com 20% do fundo, garantindo a cota sênior, o mercado de capitais aporta outros 40%, numa cota mezanino e as agroindústrias e cooperativas interessadas em tomar o crédito para os cooperados ou associados, fecham os outros 40% numa cota subordinada. Os percentuais podem variar de fundo para fundo.

Dessa forma, a maior parte do risco fica com a cooperativa. “O que acontece é que essa cooperativa já faz um primeiro filtro, pois ela conhece o cooperado e sabe da capacidade financeira”, disse Victor Duarte, CIO da Suno.

A Suno, enquanto gestora, também faz uma análise de crédito do produtor interessado em tomar o crédito via cooperativa (ou integrados via agroindústria). São avaliados 24 itens, que englobam critérios ambientais, situação do CAR, denúncias de trabalho escravo ou outros “temas sensíveis”, que, segundo o CIO da Suno, são eliminatórios.

“A ideia é fazer o crédito bastante pulverizado, atendendo o máximo possível de produtores”, afirma. Nesse primeiro fundo, uma das maiores cooperativas do Paraná, a C.Vale, que atua com grãos, será uma das compradoras das cotas subordinadas e tomadora dos recursos.

O governo do Paraná aposta nas cooperativas pela representatividade que têm na economia local e pela necessidade permanente de crédito.
José Roberto Ricken, presidente da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Sistema Ocepar), estima que essas instituições demandam, por ano, R$ 9,2 bilhões em crédito – considerando cooperativas de todos os estados da federação, essa demanda pode ser multiplicada por três.

“Iniciaremos uma agenda de reuniões com diretores financeiros das cooperativas e explicar o que está sendo feito. Daqui uma semana ainda falaremos com o BNDES, que pode ser um parceiro importante para as cooperativas dentro desses Fiagros”, disse Ricken.

Também há uma demanda expressiva no lado do mercado de capitais, antecipou o governador Ratinho Junior. “O mercado está alvoroçado. Eles sentem que há necessidade do setor, mas não há ‘dinheiro barato’, o que, em alguns casos, inviabiliza o investimento. Quando apresentamos uma solução, dentro de uma realidade suportável para o agro, o setor se anima”, disse.

Victor Duarte, da Suno, conta que foi surpreendido com a projeção do governador em fomentar R$ 14 bilhões para o setor nos próximos fundos. “Estávamos imaginando alocar de R$ 1 bilhão a R$ 2 bilhões, e ele veio com essa surpresa que guardou para hoje”, disse, em tom de brincadeira. “Estamos preparados para alocar os primeiros bilhões”.

A gestora também vê investidores interessados nos Fiagros do estado. “Se o produto é bem estruturado e passa segurança, a demanda vem forte”.

Duarte conta que, no dia do anúncio do Fiagro, em dezembro passado, num evento em Brasília, a Suno recebeu ligações de interessados, apresentou o tamanho do investimento e a tese e chegou a ouvir de um investidor: “Não mostra para ninguém, é meu.”