A startup re.green tem um plano ambicioso: restaurar 1 milhão de hectares de florestas nativas espalhados entre a região amazônica e a mata atlântica na próxima década.

O caminho ainda é longo, pois hoje, a companhia possui apenas cerca de 28 mil hectares de áreas próprias em quatro estados: Bahia, Maranhão, Pará e Mato Grosso.

Por isso, a empresa está avançando em uma estratégia diferente, já prevista no modelo de negócio. Segundo explicou o CEO da startup, Thiago Picolo, ao AgFeed, até o ano passado, a empresa estava centrada na compra ou arrendamento de terras. Agora, além disso, foca em parcerias com o agro e também em áreas de concessões públicas.

É justamente no agro que Picolo enxerga boas oportunidades para parcerias – principalmente com pecuaristas.

“Vejo que muitos proprietários têm espaço para serem mais produtivos. Dentro de uma fazenda, vemos áreas acidentadas, com infraestrutura mais precária de acesso, que dão menos lucro do que uma área plana ao lado da sede. Queremos pegar essas áreas de baixa produtividade”, diz.

“Essa é uma boa oportunidade para o empresário rural, em receber uma receita adicional em uma área de pouca produção”.

Na prática, a re.green compraria ou arrendaria essa parte menos produtiva das fazendas, a transformaria em floresta original e geraria renda a partir da venda de créditos de carbono.

Na pecuária extensiva, ele acredita que há espaço para produtores que tenham, por exemplo, mil hectares e mil cabeças de gado, cederem 200 hectares de áreas limítrofes para a startup.

“Ele diminui o investimento atuando com as mesmas cabeças em menos hectares, se torna mais produtivo e ainda recebe uma receita de créditos de carbono que nós dividimos com ele ou do arrendamento que a re.green vai pagar”, explica.

Para ganhar produtores, céticos e desconfiados por natureza, nada melhor do que uma vitrine. Para tal, a re.green tem um case de sucesso para mostrar no setor.

Em janeiro deste ano, anunciou uma parceria com a Agro Penido para restaurar 600 hectares das fazendas Pioneira e Darro, localizadas no município de Querência (MT).

O sobrenome Penido fala por si só, já que é sempre associado à Fazenda Roncador, que já foi a maior do País. Hoje, depois da partilha do espólio do fundador, a Roncador passou a ser apenas do empresário Pelerson Penido, homônimo do avô, enquanto os irmãos Caio e Eduarda ficaram com outras fazendas na Agro Penido.

“Essa é a primeira de muitas parcerias no setor. O Caio Penido pegou áreas de baixa produtividade para transformarmos em florestas. A rentabilidade vai complementar a da operação agropecuária”, afirmou.

Outra vitrine está em uma parceria com uma das maiores empresas do mundo: a Microsoft. A big tech tem um compromisso de compra de 3,5 milhões de créditos de carbono com a startup, numa parceria que visa restaurar 33 mil hectares de áreas da Amazônia e Mata Atlântica.

Picolo explica que a re.green nasceu com o objetivo de atuar no segmento com um porém: sempre em grande escala.

A grandiosidade pode ser vista desde antes da criação oficial, pois para colocar o negócio no mercado, recebeu um aporte de R$ 380 milhões (US$ 80 milhões na época), da Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, da BW, o family office dos Moreira Salles, da Lanx Capital, de Marcelo Barbará e Marcelo Medeiros, da gestora Dynamo e de Guilherme Leal, fundador da Natura e da Dengo.

“Tradicionalmente, a restauração de florestas foi feita no Brasil de forma artesanal, ou com dinheiro filantrópico. É um trabalho bonito, corajoso e que precisa ser valorizado, mas nós entendemos que dá para fazer negócios maiores e a crise climática demanda isso”, disse o CEO.

Além da grande escala, Picolo cita que a empresa não abre mão de qualidade no processo de reflorestamento. Segundo ele, a companhia faz restaurações num “padrão cinco estrelas”, definido pela Society for Ecological Restoration (SER).

“Uma restauração cinco estrelas restaura tanto o ambiente físico quanto os serviços ecossistêmicos, tornando a floresta resiliente, com capacidade para se recuperar de choques que ela sofra”.

Além disso, aposta em um time de doutores especialistas no tema, como Bernardo Strassburg, cientista-chefe e professor da PUC-Rio, e Ricardo Rodrigues, da Esalq/USP.

As inúmeras vitrines da re.green, seja via sócios ou pelos projetos em andamento, a companhia ajudam, mas a empresa também pretende aumentar a clientela por um “trabalho de formiga”.

“Ir para municípios que temos interesse em promover eventos, conversas, mostrar o negócio, negociar preços de terra que façam sentido”, explica Picolo.

Hoje a companhia já é certificada pela Verra, que detém mais de 80% do mercado de créditos de carbono no mundo. Além disso, também passou pelo crivo da BeZero, uma agência de classificação de carbono.

Nos moldes das agências de risco de crédito, como S&P, Fitch e Moodys, a companhia faz análises semelhantes mas com projetos de carbono.

A re.green recebeu um rating AA, o segundo mais alto da instituição e, segundo Picolo, é a avaliação mais alta para empresas que restauram florestas.

Para dar tração ao tamanho da ambição, Picolo disse que a companhia se prepara para uma nova rodada de captação. Sem citar valores, disse que o recurso será usado para escalar as restaurações.

“Para acessar essas terras e fazer a restauração precisamos de créditos. Levantamos muito capital em 2022 e nesse ano vamos trazer mais recursos e continuar no ritmo de expansão”.

Em 2024, a empresa teve um empréstimo de R$ 187 milhões aprovado pelo BNDES, mas ainda não conseguiu ver a cor do dinheiro. Tudo ainda depende de um rito do banco estatal, que exige que algum outro banco aprove uma carta fiança.