Além das questões geopolíticas, as tensões provocadas pela ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela envolvem também questões econômicas. Entre elas, uma que pode ter impacto direto no agronegócio brasileiro: o fornecimento de ureia, fertilizante hidrogenado muito utilizado por aqui.

A Venezuela tem a maior capacidade instalada para produção de ureia na América Latina. Segundo Renata Cardarelli, editora de grãos e fertilizantes na Argus Media, o país tem 36% da capacidade de produção de ureia da região, o que corresponde a cerca de 8 milhões de toneladas por ano.

Apesar desse potencial em um país vizinho, a Venezuela responde por cerca de 5% da ureia consumida pelo Brasil. O consumo brasileiro anual do fertilizante fica entre 7 milhões e 8 milhões de toneladas por ano. Desse total, apenas cerca de 400 mil toneladas vêm da Venezuela.

Os principais parceiros comerciais do Brasil nas importações de ureia em 2025 são Nigéria (23%), Rússia (16%) e Catar (15%).

“Por hora, não vimos qualquer impacto de preço na ureia para o Brasil e acredito que não teremos grandes mudanças. Outros mercados que têm um consumo relativo maior de ureia venezuelana podem sofrer mais”, afirma Cardarelli.

A Venezuela produz o fertilizante em três plantas da estatal Pequiven. No entanto, o analista de Inteligência de Mercado da consultoria StoneX, Tomás Pernías, lembra que o país já tinha uma posição limitada dentro do mercado global antes mesmo da ofensiva norte-americana.

Informações da própria Pequiven revelam que a produção tem sido limitada, já que a companhia tem contado com poucos investimentos, inclusive em manutenção. Isso provoca interrupções constantes ao longo do ano.

Segundo informações da StoneX, em 2024, a Venezuela ocupou a 18ª posição entre os maiores exportadores globais de ureia, com pouco mais de 560 mil toneladas embarcadas, o equivalente a cerca de 1% das exportações mundiais.

Para efeito de comparação, a Rússia respondeu por aproximadamente 18% do comércio global do produto no mesmo período.

“Até o momento, não há indícios de impactos diretos sobre a capacidade produtiva e exportadora de fertilizantes da Venezuela”, diz Pernías.

“O que o mercado observa, por ora, são pressões pontuais nos custos logísticos, com relatos de fretes marítimos mais elevados em função do aumento das incertezas na região”, conclui o analista da StoneX.

Renata Cardarelli, da Argus, afirma que houve até um aumento de 5% nos preços da ureia entre a última sexta-feira (2) e esta segunda-feira (5), mas que não há relação com o que ocorreu na Venezuela, já que o movimento começou antes da ofensiva.

“A ureia subiu para um patamar entre US$ 415 e US$ 425 por tonelada por conta de um leilão de compra aberto pela Índia na última sexta-feira”, explica.

A National Fertilizers Limited (NFL), importadora estatal indiana, abriu um certame para comprar 1,5 milhão de toneladas de ureia, com embarques até o dia 20 de fevereiro. A estatal indiana recebeu 26 ofertas de fornecedores globais.

Resumo

  • Venezuela concentra 36% da capacidade de ureia da América Latina, mas responde por apenas 5% do consumo brasileiro
  • Analistas não veem risco imediato de desabastecimento ou alta de preços no Brasil, dado o peso reduzido do país vizinho no comércio global
  • O principal efeito possível no curto prazo é aumento pontual dos custos logísticos, em meio às incertezas geopolíticas