Vários setores do agronegócio fecharam 2025 aliviados após o recuo do governo dos Estados Unidos em aplicar uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros no fim do ano passado.
Nem todas as cadeias, porém, tiveram o mesmo desfecho. Alguns produtos permaneceram sujeitos à tarifa adicional e, no curto prazo, seguem sentindo os efeitos do chamado “tarifaço”, em vigor desde agosto do ano passado.
É o caso do café solúvel, cujo principal mercado de exportação é o americano e que vem registrando queda nos volumes embarcados em razão da manutenção das tarifas.
Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel, divulgados na quarta-feira, dia 28 de janeiro, foram enviadas para o exterior 85 mil toneladas de produto - o equivalente a 3,69 milhões de sacas de 60 quilos -, 10,6% a menos do que em 2024.
Apesar disso, a receita cresceu, atingindo recorde de US$ 1,099 bilhão, impactada positivamente pela alta dos preços do café no mercado internacional.
“Atribui-se esse aumento no valor, apesar da queda no volume, à valorização da cotação da matéria prima, tanto dos cafés arábicas, quanto dos canéforas (conilon e robusta), o que elevou o preço do solúvel no mercado”, explicou Aguinaldo Lima, diretor executivo da Abics.
Os Estados Unidos continuaram sendo os principais importadores do café solúvel brasileiro no ano passado, mas os embarques para o país recuaram 28,2% na comparação com 2024, encerrando o período com 558,4 mil sacas enviadas.
A queda chegou a ser ainda maior. “No período da aplicação dessa tarifação de 50%, entre agosto e dezembro, a redução foi ainda mais drástica: 40% ante o mesmo período do ano anterior. Isso evidencia o impacto direto e imediato da barreira comercial na competitividade do café solúvel nacional nesse mercado vital”, apontou Lima.
Com a sobretaxa sobre o café solúvel brasileiro, Lima salienta que países concorrentes têm ganhado espaço no mercado americano por conseguirem enviar o produto sob taxas menores.
“Isso resulta na perda de participação de mercado para o Brasil e na necessidade urgente de reavaliar estratégias de diversificação de mercados”, disse.
Após os Estados Unidos, entre os principais mercados compradores do café solúvel brasileiro estão Argentina (291,9 mil toneladas), Rússia (278 mil toneladas), Polônia (215,4 mil toneladas) e Indonésia (165,3 mil toneladas).
Para Lima, a queda nos volumes exportados ao mercado americano em função da sobretaxa aponta a necessidade de o Brasil precisar pensar em um possível redirecionamento do produto a outros mercados.
“O Brasil é um país com número relativamente limitado de acordos comerciais abrangentes e as tarifas impostas por outras nações e blocos econômicos acabam prejudicando a competitividade do café solúvel brasileiro no cenário global”, afirmou o diretor executivo da Abics.
Se os volumes exportados diminuíram, no mercado interno o quadro foi mais favorável. O consumo interno atingiu novo recorde, tendo absorvido 27 mil toneladas, equivalente a 1,17 milhão de sacas, alta de 9,5% em relação a 2024.
“Essa performance reflete uma preferência crescente do consumidor brasileiro por essa modalidade de café e o sucesso das estratégias das indústrias de solúvel para o mercado doméstico. A menor inflação sobre o produto — 34% no acumulado de 2024/25 contra 75% do torrado e moído — também deve ter contribuído”, avalia Aguinaldo Lima
Perspectivas para 2026
Para este ano, a Abics avalia que há a urgência de busca de novos mercados e a intensificação de acordos comerciais.
A associação destaca a União Europeia, pelo grande volume de consumo que apresenta e as perspectivas de redução tarifária com o acordo com o Mercosul, é uma "rota promissora" de mercado em médio e longo prazo.
Além disso, a associação também avalia que, em 2026, terá como desafio diminuir o impacto negativo nas contas das indústrias previsto para entrar em vigor em 2027, com o início da Reforma Tributária.
Isso porque a nova regra prevê a extinção de contribuições sociais sobre a receita bruta - PIS/Pasep e Cofins - ao segmento de café solúvel, o que impedirá que o crédito presumido de 7,4% do valor adquirido de café verde industrializado para exportação seja apurado a partir de 2027.
A Abics afirma que as exportações de café solúvel sofrerão aumento de seu custo implícito em decorrência da inexistência de medida compensatória para o fim do crédito presumido.
Para Lima, da Abics, o impacto é "devastador". "Com o fim do crédito presumido, a indústria brasileira do setor, considerando os valores médios do café em 2025, perderá R$ 430 milhões, o que representa 7,4% do valor exportado de café solúvel no ano passado", diz.
"Isso porque, por saca, o crédito presumido equivale a R$ 105,08 em resíduos tributários. Considerando a cotação média do dólar para venda em 2025, esses R$ 105,08 correspondem a um acréscimo de US$ 19,89 para cada saca desse produto exportado, o que significa que, a cada 14 sacas embarcadas, o Brasil ‘exportará’ uma saca em tributo."
Resumo
- Mantido no alvo do tarifaço americano, café solúvel teve queda de 10,6% no volume exportado e retração de 28,2% nos embarques ao mercado americano
- Mesmo com menos volume, a receita do setor bateu recorde de US$ 1,099 bilhão, sustentada pela alta dos preços internacionais do café
- Para 2026, a Abics aponta a urgência de diversificação de mercados e alerta para um impacto “devastador” da Reforma Tributária a partir de 2027, que pode elevar custos e retirar até R$ 430 milhões por ano da indústria