A combinação que tira o sono do produtor brasileiro de soja em plena colheita está longe de ser novidade: preços pressionados em Chicago, prêmios de exportação baixos e um câmbio mais apreciado corroendo o valor recebido em reais. O problema, segundo o Itaú BBA, é que esse cenário ainda pode piorar.
Na última edição do seu Radar Agro, divulgado nesta semana, o banco fez um apanhado geral do momento da safra 2025/26, e chamou atenção para um conjunto de fatores que segue jogando contra os preços ao produtor no curto prazo, em um momento em que boa parte da safra brasileira ainda não foi comercializada.
Com uma produção recorde estimada em cerca de 180 milhões de toneladas de soja no Brasil e ampla oferta global, o mercado entra na fase mais delicada do ano justamente quando a colheita ganha ritmo.
"A produção brasileira deve atingir esse patamar impulsionada por chuvas regulares. Mato Grosso e Paraná apresentam ótimos rendimentos, e a safra argentina também tende a ser boa. Esse quadro amplia a oferta global e limita altas em Chicago", diz o relatório.
Some-se isso a uma safra cheia também nos países vizinhos ao Brasil a um estoque global "confortável" e um câmbio mais baixo e tenha uma tempestade perfeita, que em certos casos, deixa a cotação da saca de soja abaixo de R$ 100 no Mato Grosso.
Além de uma oferta que pressiona as cotações, o relatório relembra que, nos últimos dois meses, o preço da soja acumulou queda próxima de 6% na Bolsa de Chicago (CBOT).
A última reação mais relevante dos preços ocorreu entre outubro e novembro, em meio às negociações comerciais entre Estados Unidos e China, quando os chineses se comprometeram a comprar cerca de 12 milhões de toneladas de soja americana.
Mais recentemente, declarações do presidente Donald Trump sobre a possibilidade de compras adicionais pela China chegaram a animar o mercado, mas ainda cercadas de incertezas.
“Ainda não é possível afirmar nada em relação à aquisição ou não desse volume, mas, racionalmente, não faria sentido a China deslocar suas compras do Brasil para os EUA nesse momento, em plena colheita”, avalia o relatório.
Se do lado externo Chicago oferece pouco suporte, os prêmios de exportação, que vinham sustentando os preços internos, também começaram a dar sinais de enfraquecimento.
O Itaú BBA destacou que janeiro houve uma movimentação mais forte, com embarques 129% superiores aos do mesmo mês do ano passado, fator que manteve os prêmios em níveis elevados. Mas, à medida que o volume da safra brasileira chega com mais força ao mercado, a tendência é de deterioração desses diferenciais.
“Com a entrada mais robusta da safra, esses prêmios tendem a se deteriorar, risco que consideramos bastante provável diante da oferta recorde no Brasil e da boa safra argentina”, diz o Itaú BBA.
O terceiro fator é o câmbio. A apreciação do real no início de 2026 foi determinante para que a soja no mercado spot do Mato Grosso recuasse abaixo de R$ 100 por saca. O banco lembra que a taxa abaixo de R$ 5,30 por dólar já foi suficiente para produzir esse efeito, mesmo com prêmios ainda positivos.
O Itaú BBA ainda simulou cenários com o dólar a R$ 4,75 e a R$ 4,50. A conclusão foi que, mantidas as demais variáveis, um câmbio de R$ 4,50 poderia levar o preço da soja para níveis inferiores a R$ 90 por saca no Mato Grosso, algo que preocuparia - e muito - os produtores.
No médio prazo, a projeção do Itaú Unibanco é de um dólar a R$ 5,50 no fim de 2026, refletindo uma desvalorização gradual do real. Ainda assim, o caminho até lá tende a ser marcado por volatilidade: fraqueza da moeda americana em todo o mundo, incerteza fiscais e políticas por aqui - além da própria eleição ao final do ano, devem limitar o real apreciado por muito tempo.
Com todos esses fatores, o produtor tem adiado as vendas da safra brasileira, que se encontra em um ritmo de comercialização mais lento nesta temporada.
Dados da consultoria Safras & Mercado divulgados nesta sexta-feira mostram que, até 6 de fevereiro, apenas 33,9% da produção estimada da safra 2025/26 havia sido negociada.
No mesmo período do ano passado, esse percentual era de 42,4%, enquanto a média dos últimos cinco anos é de 45,1%. Considerando uma safra projetada pela consultoria em 179,3 milhões de toneladas, são menos de 60 milhões de toneladas que foram comercializadas até agora - deixando cerca de dois terços da produção ainda exposta ao mercado.
Resumo
- Itaú BBA estima produção brasileira próxima de 180 milhões de toneladas e destaca que a ampla oferta global limita reações em Chicago, onde a soja acumula queda de cerca de 6% nos últimos dois meses
- Com a entrada mais forte da colheita, o banco vê alta probabilidade de deterioração dos prêmios de exportação, após um janeiro atípico com embarques 129% acima do ano anterior
- Segundo dados da Safras & Mercado, apenas 33,9% da safra 2025/26 foi vendida até 6 de fevereiro, deixando quase dois terços da produção expostos a um cenário que pode levar a saca abaixo de R$ 90 com dólar mais baixo