O setor de máquinas agrícolas está com boas expectativas em relação a 2026. A chance de queda nos juros em março, a possibilidade de melhores preços para os produtos agrícolas e também novas tecnologias devem ajudar as vendas a crescer de 3,5% a 4% em volume no ano que vem, de acordo com Artur Monassi, conselheiro da Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeirão Preto (Abag/RP) e dono da rede de revendas de máquinas Tracan.

A previsão é semelhante à da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), que estima crescimento de 3,4% para o setor em 2026.

Se as previsões se confirmarem, vai ser um grande alívio para o setor. “Este ano, se fecharmos andando de lado ou com uma queda pequena, já vai ser muito positivo”, diz Monassi, que comanda 12 lojas da marca Case no interior de São Paulo e no triângulo pioneiro, e mais três em Goiás.

Isso porque em 2024 as vendas de máquinas agrícolas já haviam caído 19,8% em relação ao ano anterior, conforme a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Em 2025, até o final de novembro, haviam sido vendidas 43.400 máquinas, conforme pesquisa da Associação Brasileira dos Distribuidores Case IH (Abracase), levando em consideração todas as marcas do mercado. No mesmo período de 2025, o resultado havia sido um pouco melhor, de 43.600 unidades.

Conforme a Anfavea, as vendas nos 11 primeiros meses de 2025 totalizaram 46.435 unidades (no varejo, para o consumidor final), 2,1% a menos que no mesmo intervalo de 2024.

O grande entrave para as vendas está no tripé juros altos, preços agrícolas baixos e inadimplência bancária. Os preços ao produtor fecharam 2025 com queda próxima de 3%, principalmente no setor agropecuário, segundo o Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) do ano de 2025, conforme informou a Fundação Getulio Vargas (FGV) em 15 de dezembro.

Os produtos básicos (commodities) internacionais foram os que mais tiveram redução de valor e isso se reflete diretamente na venda de colheitadeiras, pulverizadores, plantadeiras e afins.

“Nesse mercado, 60% das vendas são de grandes máquinas agrícolas para milho e soja. O preço internacional baixo como está não é remunerador para o produtor e, por conta disso, ele deixa de comprar equipamentos”, explica Pedro Estevão Bastos de Oliveira, presidente da Câmara de Máquinas Agrícolas da Abimaq e diretor de relações institucionais da Jacto.

Além disso, esse é um mercado que depende muito de financiamento. Metade das vendas, pelo menos, é parcelada. Com a taxa básica da economia a 15% ao ano -- a mais alta desde 2006 -- o mercado tem até oferecido percentuais menores, em torno de 13,5% ao ano.

“Mesmo assim, esse juro inibe as vendas principalmente porque os bancos estão muito restritivos ao conceder crédito”, diz Oliveira.

Isso porque o crédito rural com chegou a sua maior inadimplência desde o início da série histórica, em 2011, alcançando 11,4% em outubro. No mesmo período do ano anterior, o valor era de 3,54% e em janeiro de 2023, de 0,59%, de acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Por que 2026 vai ser diferente?

As principais causas da inadimplência no agro estão nos recorrentes problemas climáticos dos últimos anos, na queda nos preços das commodities e na alta nos custos de produção. Entretanto, esse cenário pode mudar -- virada essa que pode ser impulsionada por juros menores e preços maiores.

Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), publicada em 16 de dezembro, o Banco Central reconheceu uma melhora no cenário para o controle da inflação. Ainda não o suficiente. Mas isso já dá esperanças ao mercado de que o ciclo de corte dos juros deve começar em março de 2026.

“Só a mudança de expectativa em relação ao juros é positiva para mudar o clima do setor para melhor”, diz Monassi, da Abag.

Além disso, a meteorologia aponta para chuvas abaixo da média no próximo ano. Uma possível seca, desde que não muito severa, pode ser um gatilho para a elevação de preços das commodities, o que seria positivo tanto para o agricultor, quanto para as vendas de máquinas.

Outro fator que pode fazer o agricultor por a mão no bolso para comprar novos equipamentos é o avanço tecnológico. A maior tendência é a descarbonização da agricultura com veículos agrícolas movidos a etanol.

“No próximo ano, nossa ideia é dar continuidade e avançar nos investimentos em máquinas a etanol. Já realizamos testes de campo e o etanol se consolida como um combustível estratégico, especialmente na América Latina, por combinar redução de emissões, menor nível de ruído, uso de fonte renovável e eficiência operacional, mantendo competitividade em custo total de operação (TCO)”, explica Flávio Mazetto, diretor de produto e portfólio da CNH para América Latina, companhia que produz marcas como Case IH e New Holland Agriculture.

Com veículos a etanol, os produtores reduziriam sua dependência do diesel e, no caso dos produtores de cana e milho, o combustível poderia ser obtido através da troca da produção com o fornecimento de insumos para as usinas.

Redução de custos e melhor gerenciamento do que é gasto é também o apelo que consolida o uso da Inteligência artificial nas máquinas agrícolas. Novos modelos que trabalham com essa tecnologia prometem também uma melhor operação.

Uma pulverizadora, por exemplo, com IA, pode aplicar a quantidade certa de defensivos sem desperdício, tudo isso monitorado até mesmo à distância, por meio de celular ou tablet.

“Também existe uma demanda represada por renovação de frota, que pode se destravar à medida que o ambiente econômico se torne mais previsível”, diz Rodrigo Junqueira, gerente-geral da AGCO e vice-presidente da Massey Ferguson América do Sul.

Por isso, a empresa tem lançamentos agendados para o ano que vem nessas duas linhas: máquinas movidas a etanol e com IA embarcada.

Invasão asiática

Outro ponto de atenção para a indústria nacional e a presença cada vez maior no mercado de máquinas chinesas e indianas.

Para a maior parte do setor, elas não são uma ameaça, diz Monassi, da Tracan. Mesmo com produção em larga escala nesses países, as marcas estrangeiras ainda se concentram no Brasil no nicho dos tratores menores, abaixo de 70 cavalos.

“São produtos mais simples, que competem com o apelo de preços menores. Não temos nem como dizer que são ‘X%’ mais baratos que os nacionais, porque não temos similares brasileiros que sejam tão inferiores para fazer a comparação”, diz o empresário.

No entanto, as máquinas menores - de 50 a 60 cavalos - foram a fatia de mercado que mais cresceu em 2025. Até novembro, segundo a Anfavea, o aumento de vendas havia sido de 38%, para 1400 unidades.

“A inadimplência entre os pequenos produtores é menor e os bancos, o governo e as montadoras deram mais crédito a eles este ano”, explica Monassi.

Esse crescimento das máquinas menores deve continuar em 2026. É a expectativa da AGCO, dona da marca Massey Ferguson, Valtra e outras.

“A estratégia para 2026 passa por lançamentos de máquinas em diferentes faixas de potência, desde modelos voltados a pequenos e médios produtores até equipamentos de alta potência para grandes operações”, diz Rodrigo Junqueira.

Este ano a empresa prevê o lançamento de uma nova linha de tratores de 35 a 85 cavalos, em parceria com a fabricante SDF. Mesmo com chineses e indianos disputando esse pequeno mercado, ele aposta que os nacionais ainda são os preferidos dos compradores. Ou seja, o ano que vem tem tudo para ser mais positivo, tanto para os menores, quanto para os maiores.

Nem todos no setor, entretanto, estão otimistas. “Para 2026, o mercado andar de lado”, diz Igor Calvet, presidente da Anfavea. Como os juros continuarão em 15% pelo menos até o fim do terceiro trimestre, segundo ele, isso deve continuar inibindo as vendas. “O reflexo de uma queda de juros, se ela acontecer em março, leva de seis a sete meses para chegar à economia real”, afirma.

Ele teme que se o setor continuar com vendas estáveis, ou se tiver queda, essa estagnação possa influenciar na produtividade no campo. “Sem máquinas novas, o processo contínuo de modernização da máquinas, a rentabilidade deve cair.”

Resumo

  • Expectativa é de crescimento de até 4% nas vendas em 2026, com possível corte de juros, melhora nos preços agrícolas e demanda reprimida.
  • Juros altos, inadimplência recorde e preços baixos das commodities travaram o mercado, que vem de forte queda desde 2024
  • Fabricantes apostam em máquinas a etanol e com IA para reduzir custos, elevar eficiência e impulsionar a renovação da frota