Quem passou pelas emoções e escapou por pouco do tarifaço de Donald Trump em 2025 sabe que, diante das incertezas de 2026, é mais prudente ficar com “as barbas de molho”.

No caso dos citricultores brasileiros, o molho é feito de suco de laranja, que, mesmo tendo sido rapidamente incluído na lista de exceções das tarifas adicionais impostas pelo Estados Unidos aos produtos brasileiros, não garantiu sossego a produtores e à indústria.

“Não dá para saber como o ano vai ser”, diz Marco Antonio Santos, presidente do Sindicato Rural de Taquaritinga (SP) e ex-presidente da Câmara Setorial da Citricultura do Ministério da Agricultura.

Ele também é citricultor, com uma fazenda de 40 hectares em Taquaritinga. E admite mesmo estar com as “barbas de molho”, expressão usada desde a antiguidade para indicar que alguém estaria tomando precauções para se salvar de um incêndio.

Para a citricultura, livre das chamas do protecionismo comercial, esse fogo começou a arder em safras anteriores e se alastrou junto com um pequeno inseto propagador da bactéria causadora do “greening”.

Também chamado de “doença do ramo amarelo” e de “huanglonbing” (HBL), palavra que em chinês significa literalmente “doença do dragão amarelo”, o greening é o mal dos citros de maior importância no mundo hoje: não tem cura, nem controle. De rápida disseminação, a doença também é altamente destrutiva.

Quase metade das árvores estão doentes no cinturão citrícola, que compreende o estado de São Paulo, Triângulo e Sudoueste de Minas Gerais, onde 47,63% dos pés estão comprometidos, com um avanço de 7,4% maior em relação ao ano passado, de acordo com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus).

Foi o greening – de origem chinesa – e a seca que fizeram a safra de 2024/2025 na região ser uma das menores dos últimos 37 anos, totalizando cerca de 230,87 milhões de caixas, uma queda de quase 25% em relação à safra anterior (2023/24), conforme o Fundecitrus.

Com tamanha baixa na produção, o preço disparou em 2024: chegou a R$ 100 a caixa de 40,8 quilos.

Os reflexos se estenderam por 2025: com preços altos, o consumidor deixou a laranja de lado e a trocou por outras frutas ou bebidas, tanto no mercado nacional como também na Europa, um dos maiores consumidores da laranja brasileira.

“A laranja é facilmente substituível”, explica Ibiapaba Netto, diretor executivo da CitrusBR, a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos.

As exportações brasileiras de suco de laranja, de julho a setembro, caíram 4% para 199,7 mil toneladas em equivalente concentrado, na comparação com o mesmo intervalo de 2024, segundo o Comex Stat, sistema oficial para extração das estatísticas do comércio exterior brasileiro de bens.

Isso aconteceu mesmo com os Estados Unidos tendo isentado o suco de laranja do Brasil da tarifa adicional de 40% imposta a vários produtos de exportação, mantendo apenas a taxa de 10% (que vigorou até o dia 10 de novembro de 2025). Atualmente, apenas a tarifa fixa de US$ 415 por tonelada está em vigor.

Segundo Netto, com a queda nas vendas internacionais, o preço despencou 70% no período entre dezembro de 2024 e o mesmo mês em 2025 no varejo.

Para o produtor, o valor da caixa bateu em R$ 30 -- quando o normal seria algo entre R$ 60 a R$ 70, diz Santos, de Taquaritinga.

O cenário negativo surge também nas estimativas do Fundecitrus, que em dezembro revisou pela terceira vez para baixo a expectativa de safra 2025/2026, para 294 milhões de caixas, 6% a menos que a estimativa feita em maio.

“A taxa de queda de frutos do pé aumentou de 22% para 23% por conta dos eventos climáticos, como ventanias”, explica Guilherme Rodriguez, coordenador da Pesquisa de Estimativa de Safra (PES) do Fundecitrus.

A área produtora também vem diminuindo porque muitos citricultores estão cultivando outras frutas. Marco Antonio Santos, de Taquaritinga, plantou goiaba vermelha e limão. “Para diversificar um pouco e não ser tão prejudicado pela queda do preço”, diz ele.

E o que esperar em 2026?

Para 2026, a previsão da meteorologia é que o ano tenha chuvas abaixo da média. Isso pode afetar negativamente a oferta. “A irrigação é cara e só 40% da produção têm esse recurso”, explica Santos.

Mesmo com os novos pés plantados em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás por produtores que buscavam áreas livres do greening começando a produzir agora, essa laranja deve sair mais cara.

“Como essas áreas ficam bem mais distantes das empresas que fazem o suco para exportação (as maiores, Cutrale e Citrosuco, concentram-se no interior de São Paulo), o preço na ponta vai ser mais alto”, diz o presidente do sindicato.

Ou seja: menor oferta, maior preço. Enquanto há essa tendência de recuperação de preços, a demanda na ponta tende a ter uma recuperação tardia.

“Leva tempo para o consumidor, aqui ou na Europa, retomar o costume de tomar suco de laranja, depois que os preços começaram a cair, em 2025. Primeiro, porque o varejo retarda o repasse dos descontos. Segundo, porque é uma questão de hábito”, explica Netto, da CitrusBR.

A qualidade da laranja também deve melhorar neste novo ano, segundo Renato Garcia Ribeiro, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Cepea/Esalq-USP). E isso, segundo ele, pode pressionar os preços para cima.

O melhor cenário para os produtores seria se as duas vairáveis contribuíssem concomitantemente: a retomada do consumo e dos preços.

Um panorama assim só melhoraria ainda mais se as pesquisas de métodos de combate ao greening apontassem para uma cura, ou pelo menos para o controle da praga.

Criado em 2024, o Centro de Pesquisa Aplicada em Inovação e Sustentabilidade da Citricultura (CPA), com sede na Esalq, em Piracicaba (SP), teve investimento de R$ 90 milhões para o desenvolvimento de pesquisas em rede nos próximos cinco anos com foco no controle do greening.

Mas até que os resultados surjam, as barbas dos produtores continuarão de molho no suco de laranja.

Resumo

  • Apesar de escapar do tarifaço dos EUA, a citricultura enfrenta greening, seca e queda do consumo, com preços voláteis em 2026
  • A produção segue pressionada: quase 48% dos pomares estão contaminados e a safra 2025/26 foi revisada para baixo
  • Pesquisas contra o greening avançam, mas produtores adotam diversificação e cautela enquanto oferta e demanda buscam reequilíbrio