A infalível lei da oferta e da demanda está atingindo em cheio o preço do cacau nos últimos meses. E esse início de 2026 tem sido ainda mais difícil para os produtores em todo o planeta.
Nesta terça-feira, 20 de janeiro, os contratos futuros para março negociados na ICE Futures, bolsa de commodities em Nova York, estão em queda de quase 9%, negociados a pouco mais de US$ 4,6 mil a tonelada do cacau.
Somente nos 20 primeiros dias do ano, esse mesmo índice acumula recuo de quase 24%. Com isso, as negociações estão sendo feitas a um valor quase três vezes menor que o visto no ápice atingido em dezembro de 2024, quando a tonelada valia mais de US$ 12 mil.
A queda desse início de 2026 prolonga um movimento de deterioração dos preços internacionais do cacau que já vem desde meados do ano passado.
Depois de alguns meses de leve queda, a cotação do cacau na ICE Futures voltou para o patamar de US$ 11 mil em maio. A partir da segunda quinzena daquele mês, o valor dos contratos não parou de cair, fechando 2025 na casa dos US$ 6 mil.
A cotação atingida nesta terça é a menor em dois anos. Desde janeiro de 2024 não se via a tonelada de cacau ser negociada abaixo dos US$ 5 mil.
Os analistas e a própria indústria de cacau no Brasil, país que é o sexto maior produtor global da amêndoa, apontam a queda no consumo como principal fator para essa regressão nos preços globais.
Nesta semana, a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) divulgou os números de moagem de 2025 no País. Pela primeira vez desde 2018, o volume ficou abaixo de 200 mil toneladas.
Foram pouco menos de 196 mil toneladas de cacau moídas no ano passado, o que representa uma queda de 14,5% em relação a cerca de 230 mil toneladas processadas em 2024. A indústria vinha de um recorde de 253 mil toneladas em 2023.
“Esse movimento reflete uma menor demanda por derivados de cacau, em um contexto de custos elevados da matéria-prima ao longo do ano, com impacto direto no ritmo de processamento da indústria”, explica Anna Paula Losi, presidente-executiva da AIPC, em comunicado.
Oferta em alta
Enquanto a demanda cai, a produção nos países líderes do cacau está com boas perspectivas. Segundo a consultoria Hedgepoint Global Markets, as chuvas na África favorecem uma boa produtividade.
“Na faixa produtora da África Ocidental, chuvas acima da média têm sido registradas nos últimos dias em áreas relevantes da Costa do Marfim e de Gana. Muito diferente do que aconteceu na safra passada, quando essas regiões enfrentavam condições mais secas”, afirma Carolina França, analista da Hedgepoint.
Outros produtores importantes têm colocado mais cacau no mercado global. Os economistas Rafael Borges e Lucca Bezzon, do departamento de inteligência de mercado da StoneX, ressaltam, por exemplo, o volume exportado pelo Equador.
O país sul-americano registrou uma exportação recorde de 568 mil toneladas no ano-safra 2024/25, entre outubro de 24 e setembro de 25, com aumento superior a 35% na produção.
As estimativas para 2025/2026 são de que o Equador possa facilmente superar as 600 mil toneladas exportadas, aproximando o país da posição de segundo maior produtor mundial.
Resumo
- Preço do cacau cai quase 24% em 2026 e atinge menor nível em dois anos, após pico acima de US$ 12 mil em 2024
- Moagem global despenca: indústria brasileira processa menos de 200 mil toneladas pela primeira vez desde 2018
- Oferta cresce com boas safras na África e exportações recordes do Equador, pressionando ainda mais as cotações