O conflito entre os EUA, Israel e Irã já dura mais do que o esperado e os efeitos no agro brasileiro começam a ir além do previsto nos fertilizantes e nos preços de combustíveis.
O relatório Rabobank Agroinfo, divukgado nesta quinta-feira, 26 de março, destrinchou os impactos do conflito e notou que a guerra pode impactar, para além do custo, as exportações e uma série de culturas: grãos, algodão, cana-de-açúcar e até a pecuária.
Segundo o documento, o Oriente Médio responde por 7% do valor total de exportações do agro brasileiro, porém, com algumas commodities específicas tendo relevância muito grande.
Em 2025, a região foi destino para 29% das exportações brasileiras de carne de frango, 20% das exportações de milho e 17% das exportações de açúcar.
Apesar disso, o Rabobank citou que nessas semanas iniciais do conflito, a reação dos preços das commodities agrícolas tem sido tímida em comparação com a evolução dos preços de petróleo e fertilizantes. No caso do Irã, o Brasil somou quase US$ 2,5 bilhões em vendas de soja e milho.
"Para commodities que historicamente mostraram um vínculo com o mercado de petróleo (algodão, açúcar) parece que a reação inicial de preço tem sido um pouco maior", diz o relatório.
Por enquanto, levando em consideração a incerteza sobre o fim do conflito, parece certo dizer que o agronegócio brasileiro (como também outros países) provavelmente terá de absorver custos maiores para a próxima safra, tanto na produção no campo quanto na logística de exportação.
"Os setores de biodiesel e de etanol poderiam ajudar em suavizar qualquer transmissão dos preços internacionais do diesel e da gasolina para o mercado local, enquanto ainda conseguindo preços melhores e possivelmente maiores volumes de vendas", escreveu o Rabobank.
O caso dos fertilizantes é o mais notório. Depois de um volume de entregas recordes em 2025, com mais de 49 milhões de toneladas chegando ao produtor rural, o Rabobank cita que o número será dificilmente repetido neste ano.
Primeiro devido a "continuidade do aperto financeiro" que vive o setor, mas também pela alta dos custos que já era uma realidade mesmo antes do conflito no Oriente Médio.
"Nos dois primeiros meses do ano, os fertilizantes já haviam apresentado uma alta de cerca de 17% entre os principais adubos importados pelo Brasil. Ureia e MAP foram os principais fertilizantes a puxar esta alta com 19% e 17% respectivamente", diz o relatório.
O Rabobank ainda acrescentou que, com o início dos conflitos, esta tendencia foi acentuada, principalmente na ureia, que em três semanas de conflito já apresenta uma alta de mais de 46%. Se levarmos em conta desde o primeiro dia de janeiro até o início da semana passada, a alta do insumo já bate 76%.
Além da ureia, o MAP preocupava por uma tendência de alta. "Uma menor disponibilidade somada a custos mais altos no enxofre dava o tom da alta do fósforo".
Agora, com a tendência de um conflito mais longo do que o imaginado, o fósforo também começa a precificar os impactos do conflito e já ultrapassou os US$ 800 por tonelada, maior valor desde agosto de 2022, pontua o Rabobank.
Com isto, o banco projetou uma redução de quase 2 milhões de toneladas nas entregas de 2025, levando o número estimado das entregas deste ano para 47,2 milhões de toneladas.
"Pensando na importação de ureia, o tempo ainda joga a favor do Brasil, uma vez que na média histórica, cerca de 70% do volume importado chega ao país a partir de maio. Contudo, a evolução do conflito no Oriente Médio não indica uma solução no curto prazo", prossegue o relatório.
Apesar disso, o Rabobank também pontua que outras cadeias podem ser impactadas. O mercado da cana-de-açúcar é um que já chacoalhou, com o preço do açúcar subindo em Nova Iorque.
O banco cita que parte do aumento pode ser atribuído a uma redução de posição vendida de alguns fundos, que interpretaram o aumento do preço do petróleo como gatilho para recuperar o preço. Outro fator é a safra indiana, que foi revisada para baixo.
"Apesar desses fatores turbinarem o mercado no momento, o conflito traz desafios que podem frear o avanço do preço. Enquanto o Estreito de Ormuz continuar fechado, as importações pelos Emirados, Iraque e pelo próprio Irã, que juntos respondem por 9% das importações globais de açúcar bruto, vão diminuir, e parte da demanda regional pode ser perdida", diz o Rabobank.
Além do açúcar, o etanol também tem a parte que lhe cabe nessa história. Levando em consideração as importações recentes de gasolina pelo Brasil e os ajustes no preço das bombas (também no diesel), o preço do biocombustível pode acompanhar a alta, o que pode aumentar o preço relativo do etanol frente ao açúcar e mexer com o mix nas usinas.
"Elevar a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, para reduzir a necessidade de importações de gasolina, também criaria apoio ao preço do etanol, pela redução do volume de etanol hidratado disponível no mercado", diz o Rabobank.
O cálculo da instituição financeira é que se a mistura de etanol na gasolina passasse de 30% para 32% até o ano que vem, haveria uma redução do uso de gasolina em 1,2 bilhão de litros, reduzindo também o desconto médio do preço do etanol hidratado na bomba em 2%.
Outra cultura que tem forte relação com o preço do petróleo é o algodão, já que as fibras sintéticas são diretamente afetadas pela cotação do barril brent.
Acontece que, na pluma, os chamados fundamentos mostram uma situação mais complexa do que um avanço no custo para as fibras sintéticas pode trazer.
A produção brasileira de pluma na safra 2024/2025 atingiu um novo recorde de 4,1 milhões de toneladas, um aumento de 350 mil toneladas em relação ao ciclo anterior. Ao mesmo tempo, no mercado internacional, o petróleo registra alta acumulada de 42% desde dezembro do ano passado, enquanto as cotações da pluma em NY mostram apenas 1% de avanço, indicando reação contida da fibra natural.
"Além de elevar os custos logísticos, o agravamento das tensões envolvendo os Estados Unidos, Israel e Irã aumentou a incerteza global, com potencial para reduzir o consumo de fibras e afetar negativamente os embarques brasileiros", diz o relatório, que ainda afirma que, mesmo antes de qualquer conflito geopolítico, o mercado não previa uma expansão relevante do consumo.
"Apesar da forte valorização do poliéster, que aumentou 16,3% na última semana em função da elevação dos preços do petróleo, insumo-chave da fibra sintética, não se espera uma migração relevante da demanda para o algodão", conclui o relatório.
A produção de algodão no Brasil, com isso, deve registrar redução de 3% na área na safra 2025/2026, com uma produção de 3,8 milhões de toneladas, abaixo da temporada anterior. Mesmo com condições climáticas desfavoráveis, não deve ocorrer nenhuma recuperação expressiva dos preços, diz o relatório.
No caso dos grãos, para além de uma dificuldade em exportar soja e milho para o Irã e do efeito nos custos de fertilizantes, há o efeito cascata do preço do petróleo, que encarece o diesel e consequentemente o frete e o próprio abastecimento de máquinas agrícolas.
O Rabobank pontua que esses efeitos poderão ser vistos na soja, café, milho e no leite. No milho, um conflito prolongado até o segundo semestre pode reduzir as compras iranianas, que no ano passado foram 20% dos destinos do cereal nacional.
Resumo
- Conflito pressiona custos: ureia sobe mais de 46% em três semanas (76% no ano) e entregas de fertilizantes devem cair para 47,2 milhões de toneladas em 2026
- Oriente Médio representa 7% das exportações do agro brasileiro, com peso relevante em frango (29%), milho (20%) e açúcar (17%), elevando risco comercial
- Impactos se espalham por cadeias: açúcar e etanol reagem ao petróleo, enquanto algodão e grãos enfrentam custos maiores, incerteza na demanda e pressão logística