Na Minerva, a operação vai bem, obrigado. Porém, a parte financeira ainda tira o sono dos Vilela de Queiroz.
O resultado do balanço do primeiro trimestre de 2026 ilustra essa dualidade. De um lado, receita, vendas, exportações e Ebitda em alta. Do outro, um lucro em queda.
Dando nome aos bois, a receita bruta alcançou R$ 14,5 bilhões de janeiro a março, alta de 21,3% e com exportações representando 55% desse total. No acumulado dos doze últimos meses, o indicador chega a R$ 60,6 bilhões, avanço de 49,2% em relação ao mesmo intervalo anterior.
Já a receita líquida somou R$ 13,4 bilhões no primeiro trimestre, crescimento de 19,8% em um ano, e no acumulado dos doze meses até março de 2026, a receita líquida já chega a R$ 57 bilhões, um recorde histórico para a empresa nesse intervalo, segundo revelou o CFO da empresa, Edison Ticle, em conversa com jornalistas para comentar sobre os resultados.
"Foi um trimestre bastante difícil e volátil, com um monte de coisa acontecendo ao mesmo tempo no Brasil e no mundo. Mesmo assim mantivemos o ritmo de crescimento, fruto da integração das novas plantas adquiridas que foi realizado com bastante sucesso", disse o executivo.
A linha final do balanço ilustra as dificuldades: o lucro líquido de R$ 87,3 milhões veio 52,8% menor do que no primeiro trimestre de 2025. A baixa, de acordo com Ticle, se deve a um resultado financeiro negativo, invertendo o sinal visto no ano passado e justificado por um "real que apreciou muito" e pelo preço da arroba do boi.
Segundo dados do Cepea/Esalq, a cotação subiu 13% em um ano, indo de R$ 313 para cerca de R$ 350 a arroba, com um pico de R$ 360 há algumas semanas.
Ticle ainda acrescentou que a margem bruta recuou 140 pontos-base de um ano para o outro (saindo de 18,5% para 17,1% em um ano), mas apesar disso, a rentabilidade operacional não foi tão prejudicada.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) foi de R$ 1,1 bilhão no trimestre, alta de 16,5% em um ano. No acumulado dos últimos doze meses, o indicador chega a R$ 5 bilhões, outro recorde.
A questão é que a margem Ebitda passou, em um ano, de 8,6% para 8,3%, uma queda menor do que na rentabilidade bruta.
Ticle explicou que isso se deve à integração das plantas adquiridas da Marfrig (hoje MBRF), que ajudaram a diluir os custos no resultado final.
Ele cita que as economias de escala diminuiram o SG&A (sigla para Despesas de Vendas, Gerais e Administrativas), de um patamar de 13% a 14% da receita líquida para algo próximo aos 10% neste ano.
"Todo o setor vai ver a margem cair pelo preço alto do gado. A Minerva tem uma margem bruta menor, mas parte disso é compensado pela diluição de custo de novos ativos", disse o CFO.
O CFO ainda ressaltou que o fluxo de caixa livre ficou negativo em R$ 800 milhões por uma necessidade de capital de giro. O movimento é sazonal, segundo Ticle, pela dinâmica dos pecuaristas em receber os pagamentos no "novo ano".
"Há uma melhora na conta no quarto trimestre e uma piora no primeiro trimestre, que acaba prejudicando o fluxo de caixa livre. Se não fosse o efeito sazonal, a geração de caixa livre seria perto de R$ 100 milhões", disse.
A posição de caixa da Minerva encerrou o trimestre em R$ 11 bilhões, e a alavancagem medida pela relação da dívida líquida e o Ebitda dos últimos doze meses continuou estável em 2,7 vezes.
No aspecto operacional, a empresa somou R$ 7,93 bilhões em vendas no mercado externo e R$ 6,54 bi no interno, avanços de 19% e 23% em um ano, respectivamente.
Da receita de exportação, 24% veio das vendas para a China e 18% das vendas para os EUA, principais destinos.
"A performance foi impulsionada pela aceleração do mercado chinês e, ainda, pelas restrições na oferta de carne bovina nos Estados Unidos, que seguem enfrentando um dos piores ciclos pecuários de sua história", justifica a empresa.
Fernando Queiroz, CEO da empresa, cita que os patamares de exportação devem continuar fortes para a China mesmo com as salvaguardas do gigante asiático, que segundo projeções do mercado, deve fazer com que a cota brasileira seja cumprida até metade do ano.
"O nosso acesso ao mercado chinês é pulverizado via nossas operações na Argentina, Brasil, Colômbia e Uruguai. Mas também destaco as oportunidades no Sudeste Asiático, onde países como Indonésia, Vietnã, Malásia, Tailândia e Filipinas seguem ampliando o seu nível de consumo de carne bovina".
Segundo Queiroz, a companhia não aumentará o abate em outros países para fazer com que a China permaneça no top 1 de compradores. O que muda é a origem.
"O que muda é que, no ano passado, o Brasil fez a maior parte das exportações, e agora vai reduzir esse percentual, mas Argentina, Uruguai e Colômbia vão aumentar, e os outros países atendidos vão absorver o volume brasileiro que iria para a China", disse o CEO.
A Minerva ainda mencionou no balanço que o México alcançou 4% da receita de exportação, tanto pela demanda interna quanto pela oportunidade de atender o mercado americano com mais facilidade.
Outro dado dúbio do balanço é a relação entre abates e volumes vendidos.
A Minerva abateu 1,3 milhão de animais, uma queda de 5,3% em relação ao mesmo trimestre de 2025. A venda, contudo, avançou 16,2% e atingiu 481,7 mil toneladas.
Edison Ticle explica que a alta se dá pela diferença na base de comparação. No primeiro trimestre do ano passado, as plantas da Marfrig ainda não estavam no nível atual de integração, e que na comparação direta com o quarto trimestre, há uma queda de 3,2% nas vendas.
"O volume de vendas aumenta porque viemos com um estoque grande ao longo de 2025 frente ao visto no início do ano passado. Já o abate cai pela menor disponibilidade de gado, dada a virada de ciclo", disse o CFO.
Para o segundo trimestre, a Minerva estima que os estoques estão mais altos do que no fechamento de 2025.
Resumo
- Receita líquida da Minerva cresce 19,8% e atinge R$ 13,4 bi, com exportações somando 55% do total
- Já o lucro caiu cai 52,8%, a R$ 87,3 milhões, pressionado pela alta na arroba do boi e pela apreciação do real
- Integração de ativos dilui custos, mas ciclo do gado limita expansão de rentabilidade