Um levantamento realizado pela Kynetec Brasil, a pedido do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal (Sindiveg), mostrou que o uso de defensivos agrícolas nas lavouras brasileiras cresceu 7,6% em sua Área Potencial Tratada (PAT) em 2025, totalizando mais de 2,6 bilhões de hectares protegidos.

O número, que considera a soma das aplicações feitas com fungicidas, herbicidas, inseticidas e outros produtos na mesma área, cresceu mais do que a área em si, mostrando a pressão das pragas na lavoura. Em montantes financeiros pagos pelo produtor, foram US$ 20,1 bilhões, alta marginal de 0,7% em relação a 2024.

Porém, não há tempo de comemorar. O ano de 2026 - em especial a safra 2026/2027 - será, na visão do Sindiveg, mais desafiador e coloca uma incógnita no comportamento do produtor em relação aos insumos.

Na visão de Julio Borges, vice-presidente da entidade, tanto os fertilizantes quanto os defensivos devem pesar mais na conta dos produtores para a próxima safra.

"Vocês não tem ideia do que vai ser o custo do produtor na próxima safra em relação aos fertilizantes. Não é nossa área, mas está interligado. Em alguns casos os produtos triplicaram de preço e isso será um problema sério para o produtor, que ainda tem a dificuldade de financiamento para tudo isso", disse o executivo, que também é membro do conselho de administração da Ihara no Brasil, para alguns jornalistas em coletiva na sede da entidade, em São Paulo, nesta sexta-feira, 15 de maio.

Nos defensivos, Borges cita que, após a eclosão da guerra no Irã, pelo menos 30 ativos já subiram de 20% a 40% no preço. "Ainda não há problema de disponibilidade, mas sim um impacto de custo imediato. Primeiro pelo frete marítimo e depois pelo preço do petróleo que impacta a cadeia de qualquer químico, seja pela energia quanto pelos derivados", disse.

Ele cita o glifosato (e os herbicidas como um todo) como uma classe de produtos que aumentou de preço nas últimas semanas, além dos derivados do fósforo. "Na pandemia o preço do glifosato foi para patamares muito acima da média histórica. Recuou muito e agora há esse movimento de alta, por ser a principal molécula em volume e pela logística.

Esse aumento, contudo, não significa mais margens para as indústrias. Borges cita que o primeiro trimestre deste ano das companhias de agroquímicos foi, no geral, pior do que o mesmo período do ano anterior. Além da guerra, o vice-presidente do Sindiveg cita o avanço das RJs no campo, o preço das commodities - em especial grãos - baixos e os juros altos.

Ele calcula, por uma percepção própria do setor, que tradicionalmente também é um agente financiador dos produtores, que a inadimplência está duas vezes maior agora do que estava há um ano.

A coletiva foi feita em meio a um novo momento no Sindiveg. Comemorando 85 anos de existência, a entidade recém-empossou sua nova diretoria. Além de Júlio Borges como vice-presidente, a chapa conta com Antonio Mauricio Haddad Marques, da Bequisa, como presidente para o mandato até 2029.

Segundo Marques, para além da dificulade momentânea com a guerra, outra missão da nova diretoria é atuar para agilizar a regulamentação da lei de bioinsumos.

Segundo ele, a lei é satisfatória, mas cita que a regulamentação já era para estar num grau mais avançado de discussão. "O tema central é previsibilidade. O tempo de registro dos produtos no Brasil é muito maior que em outros países, e a lei traz mais clareza e normatização frente a Europa e EUA. Mas o Ministério não consegue ter a liderança e autoridade que deveria para coordenar esse processo", disse.

Além disso, o ano eleitoral acaba atrapalhando o andamento da discussão. "Os defensivos sempre foram tratados com preconceito e pouco pragmatismo. As vezes vira alvo só por disputa política, sem tratamento adequado de agenda de país", acrescentou.

Um raio-x de 2025

Destrinchando os números de 2025 no setor, grande parte dos 2,6 bilhões de hectares de PAT - 55% do total - corresponde aos tratamentos na soja, com pouco mais de 1,46 bilhão de hectares.

Na sequência vem o milho com 18% (478 milhões de hectares), algodão com 7%, pastagem com 5%, algodão com 4% e outras culturas como HF, café, citros, feijão, trigo e arroz se destacando nas demais porcentagens.

A proporção em valor de mercado é similar. A soja corresponde a 51%, cerca de US$ 10,2 bilhões e o milho com 15% (US$ 3 bilhões). Contudo, o estudo mapeou que houve avanço só na soja em valor desembolsado pelos produtores, considerando só as grandes culturas.

A oleaginosa teve alta de 4,7% no investimento, enquanto milho, algodão e cana tiveram baixas de 5,2%, 4,1% e 4%, respectivamente, de acordo com a Kynetec.

Júlio Borges, do Sindiveg, destaca que apesar do aumento de 7,5% do PAT, o volume médio de aplicação também subiu, mesmo que menos percentualmente: 6,5%, chegando em 1,79 milhão de toneladas.

"Aumentou o uso de produtos muito por conta de uma perca de eficácia de algumas moléculas. Mas a diferença também tem a ver com dose: produtos modernos tem quantidades aplicadas menores por hectare, sem contar o uso de outras tecnologias, maquinários, mais fertilizantes e biológicos", disse.

O curioso, segundo ele, é que houve queda de 3,7% no câmbio e de 3% no preço, o que mostra que o agricultor pagou menos pelos produtos, na média. Isso tudo em meio a uma safra que contou com um clima mais previsível e que foi novamente recorde, ele relembra.

Segundo o agrônomo e especialista em pesquisas da Kynetec, Cristiano Limberger, o mercado brasileiro se dividiu, considerando o volume, principalmente em herbicidas (46%), inseticidas (23%) e fungicidas (também 23%). O restante (8%) está diluído em outras categorias, assim como tratamento de sementes (1%).

Olhando em área, o percentual muda. Os inseticidas foram aplicados em 30% de todo PAT - 813 milhões de hectares -, enquanto os herbicidas somam 22% com 600 milhões de hectares e os fungicidas com 18%, equivalente a 478 milhões de hectares.

Regionalmente, a soma do Mato Grosso e Rondônia foi responsável por 33% do potencial de área tratada, ou cerca de 872 milhões de hectares. Na sequência estavam Matopiba e Pará com 18%, São Paulo e Minas Gerais com 13% e Rio Grande do Sul e Santa Catarina com 11%.

Resumo

  • Área Potencial Tratada (PAT) cresceu 7,5% em 2025 e superou 2,6 bilhões de hectares no campo brasileiro
  • Soja respondeu por 55% das aplicações no País e movimentou mais de US$ 10 bilhões em defensivos
  • Sindiveg alerta para forte alta nos custos de fertilizantes e defensivos antes da safra 2026/2027