Enquanto o mercado observa o crescimento dos grandes frigoríficos listados nas bolsas e os recordes nas exportações brasileiras de proteína animal, há um universo na cadeia, mais voltado ao mercado interno, que também avança de forma silenciosa.
A empresa de origem paranaense Alfama Foods é o exemplo desta realidade. Começou há 14 anos, em Cascavel (PR), atendendo a demanda por carnes processadas em franquias, mas foi expandindo, e hoje já acessa, via 110 distribuidores, um total estimado de mais de 30 mil clientes no País.
A fábrica principal ainda fica em Cascavel e tem foco na proteína animal termoprocessada, que inclui cozidos, grelhados e cortes esterilizados, abastecendo restaurantes, lanchonetes e todo o tipo de serviço de alimentação fora do ambiente doméstico.
Uma segunda fábrica foi inaugurada no ano passado em Louveira, no interior de São Paulo, com foco em bovinos e frangos porcionados, também voltados ao mercado de food service.
“Nessa linha de cozidos, a gente praticamente abriu o mercado brasileiro. Hoje a gente tem vários concorrentes no mercado, mas fomos pioneiros, e a gente ainda tem hoje mais ou menos 90% de market share”, afirmou o CEO da Alfama Foods, Bruno Sonda Sodré, em entrevista exclusiva ao AgFeed.
Para abastecer suas fábricas, a Alfama opera com dois modelos: compra animais ainda no pasto e terceiriza o abate ou adquire diretamente de grandes grupos.
Sodré diz que, com a interrupção das exportações brasileiras para a China, neste momento, financeiramente está fazendo mais sentido comprar de grandes empresas e a aquisição própria de animais foi reduzida. A Minerva é uma das principais fornecedoras.
A Alfama está comprando, atualmente, na fábrica de Cascavel, um total de 820 toneladas de carnes por mês, sendo que 580 toneladas são processadas. A expectativa é de um crescimento de 16% nos volumes este ano.
A unidade de Louveira começou a operar em março deste ano, tem capacidade para 1,2 mil toneladas, mas por ora está produzindo somente 140 toneladas. “Ainda este ano pretendemos chegar a 230 toneladas por mês”.
A previsão da Alfama Foods este ano é alcançar R$ 380 milhões de receita, um crescimento de quase 70% em relação ao ano anterior.
Nos primeiros anos da empresa, a maior parte dos clientes eram redes de alimentação. Agora, elas representam 15% do faturamento e o restante é o atendimento dos distribuidores, o que dá mais capilaridade, segundo o CEO.
A empresa chegou a ter uma unidade em Curitiba, há alguns anos, mas acabou vendendo ao Grupo Pluma, alegando que não houve viabilidade para instalar no local a produção de porcionados – o que acabou ocorrendo mais tarde, em Louveira, onde a Alfama adquiriu uma planta que no passado havia sido usada pela Marfrig.
“Em Louveira é uma fábrica mais estruturada e o processo estava mais adequado ao portfólio que a gente esperava para food, é um porcionado diferente. A gente importou uma tecnologia da Alemanha, que chama Food Press System, que lá eles usam para cozido. Eles pressionam a peça e cozinham. A gente fez basicamente isso, só que ao invés de cozinhar, a gente congela”, explicou.
A vantagem seria um padrão de peso e formato, algo desejado pelos clientes.
“É um momento bem oportuno para o porcionado porque o mercado na ponta ele está vivendo uma escassez muito grande de mão de obra, mais do que o normal, o que é um limitador do crescimento, no momento que está havendo uma maior procura por proteína”, pontuou.
O porcionado tem valor agregado mais baixo em relação aos cozidos produzidos no Paraná. Mas quando passar das 200 toneladas por mês, o executivo calcula que a unidade de Louveira já responderá por 22% da receita da empresa.
Chegada em Portugal
O nome Alfama – um dos bairros mais antigos de Lisboa – não é por acaso. Bruno Sodré é neto de portugueses.
“A gente se espelhou bastante no modelo Europa e Estados Unidos para replicar aqui no Brasil e a gente tem uma relação muito forte, meus pais moram em Portugal, então a gente sempre teve o desejo de ter uma operação de proteína na Europa”, disse Sodré.
Na visão do executivo, o consumidor europeu tem um perfil “um pouco diferente, mas até mais aderente ao mercado de cozido do que o Brasil”.
Nesse cenário, a empresa adquiriu há dois anos um local para estabelecer uma fábrica em Portugal. É uma antiga fábrica de presunto cru no município de Mação, distrito de Santarém, na região central do país, com 3 mil metros quadrados.
A Alfama pleiteou um financiamento diferenciado junto a um programa da União Europeia, que foi desmembrado para Portugal e chamado PT 2030. É um plano de incentivo para unidades de fabricação, com a possibilidade de receber 50% de subsídio sobre o investimento total.
“Para nós é bem importante, vai permitir a gente fazer uma fábrica num nível de automação bem maior. Na primeira quinzena de agosto esperamos receber essa devolutiva final do projeto aprovado”, ressaltou.
Assim que for autorizado o financiamento, as obras seriam iniciadas no primeiro trimestre de 2027. Já o início das operações é previsto para 2028.
O executivo está otimista porque este tipo de habilitação na União Europeia não permite vender apenas para Portugual, mas também atender outros países do bloco.
Caso haja algum imprevisto, ele disse que vai buscar os recursos necessário junto aos bancos europeus.
“É um projeto de 13 milhões e meio de euros, que engloba desde a parte de equipamento a parte civil e a parte sistêmica”, revela. O investimento, pela cotação atual, ficaria próximo de R$ 85 milhões.
Plano para 2030
A subsidiária portuguesa é parte de um plano que a Alfama Foods traçou para ser atingido até 2030.
“Pensando na operação Brasil, estamos concluindo o terceiro ano de balanço auditado, ano que vem vamos fazer registro na categoria B da CVM, no primeiro trimestre, e com isso vamos acessar alguns níveis de investidores um pouco diferentes do que estávamos até hoje sem a essa categoria”, explicou Sodré.
Na conversa com o AgFeed, o CEO admitiu que o plano é “caminhar futuramente” para uma abertura de capital no Brasil.
A intenção é alcançar uma receita de R$ 1,4 bilhão em 2030, sempre na tese prioritariamente voltada para o mercado food.
Embora este mercado não esteja crescendo de forma significativa – dados atuais indicam um avanço de 3% em 2026 – o executivo argumenta que a empresa segue ganhando market share e deve avançar nos porcionados, com a escalada da produção em Louveira.
“O nosso core business vai permanecer sendo food, mas você tem ali alguns subsegmentos, de exportação, marca própria que supre parte de volume, mas a gente não pretende mudar nosso core para eventualmente varejo para chegar esse faturamento, o ideai é permanecer orientada ao mercado de food, esse é o longo prazo”.
Em Portugal, o plano é consolidar a unidade que será erguida, atingido o mesmo potencial de capacidade de Cascavel, com cerca de 600 toneladas mês. Quando isso ocorrer, ele calcula que o faturamento ficará entre “7 ou 8 milhões de euros mês”, com os cozidos.
Desta forma, há chance de alcançar receita de mais de 90 milhões de euros (o equivalente a R$ 540 milhões). “É isso que estamos mirando até chegar 2030 e ganhar essa representatividade na Europa”.
Resumo
- Alfama Foods, indústria de proteína animal, já adquiriu uma planta e pretende investir R$ 85 milhões em Portugal
- No Brasil, empresa opera com fábrica de cozidos em Cascavel (PR) e de porcionados em Louveira (SP), onde está ampliando a produção
- Companhia projeta alcançar receita de R$ 1,4 bilhão em 2030, com a possibilidade de fazer um IPO