Depois de registrar a "mãe de todas as safrinhas", palavras cunhadas pela própria consultoria Agroconsult em relação ao cultivo do milho de inverno em 2025, um bom termo para definir o cultivo de 2026 é "safra de contrastes".
O resultado final e acumulado do plantio da safrinha neste ano mostra, na média, quedas de produtividade e produção, além de um aumento marginal de área. O mais interessante está nos detalhes.
Em entrevista coletiva realizada nesta quinta-feira, 25 de junho, para apresentar os números obtidos ao final da Etapa Milho do Rally da Safra 2026, a Agroconsult mostrou que houve muitos brasis dentro do Brasil quando o assunto é milho de segunda safra.
Partindo do macro para o micro, o País deve colher 115,8 milhões de toneladas de milho de segunda safra neste ano, cerca de 10 milhões de toneladas a menos frente às 125,3 milhões de toneladas da temporada passada. O número, contudo, mostra uma melhora frente ao apresentado no início da Etapa: 112 milhões de toneladas.
A área nacional de milho segunda safra se manteve praticamente estável em 18,2 milhões, uma alta de apeans 0,3%, e a produtividade estimada para o País é de 105,9 sacas por hectare, uma queda de 7,8% em um ano.
"O que define uma boa safra de milho? Falando em produção, tivemos uma boa colheita, não ótima igual ano passado, mas boa. Só que perguntando ao produtor, não importa só volume, e sim a geração de renda, e o cenário foi de aumento de custos e preços que não reagiram. Olhando para as margens, são menores", refletiu André Debastiani, coordenador do Rally da Safra e sócio-diretor da Agroconsult, no início da coletiva.
De cara, o primeiro contraste já é visto: uma boa safra com menor rentabilidade. Segundo ele, a combinação de custo de produção pelo menos 6% acima da safra 2024/2025, junto a um preço da saca estável e uma base de comparação difícil na última temporada, prejudicou a operação do produtor. Isso sem contar os velhos problemas financeiros já conhecidos como taxa de juros elevada e o cenário restrito de crédito.
No médio norte do Mato Grosso, região que a produção e produtividade foi até melhor que em outras áreas, a queda de margem beira os 20% em relação à safra anterior. No Paraná, onde houve queda de produtividade, a consultoria estima baixa de 40% na renda.
O primeiro motivo que explica tudo isso diz respeito à safra de soja. Com chuvas acima da média entre setembro e outubro, o que se viu no País foi um atraso no plantio da oleaginosa. Meses depois, esse atraso se refletiu em um novo retardamento, nesta vez no milho.
Esse contexto prejudicou regiões como Minas Gerais e Goiás - onde as quedas foram brutais nos indicadores - que acabaram plantando grande parte do milho em janelas distantes de fevereiro, e com isso, não aproveitaram o clima que seria imposto à frente.
Debastiani cita que no leste de MT e grande parte do Matopiba registraram atrasos. No Piauí, por exemplo, 75% do milho ocorreu em março. "Bem tarde", segundo o sócio da Agroconsult.
"Falamos de janela de risco, pois traz risco para a produção de milho, mas não necessariamente um problema, No ano passado, quem plantou em março viu um bom clima para a produção, e esse ano o clima foi mais usual, sem muita chuva entre maio e junho - o que acabou prejudicando a lavoura tardia", prosseguiu.
No norte de Mato Grosso do Sul, sudeste de Mato Grosso, todo Goiás e na região do Triângulo Mineiro, o atraso foi ainda maior. "Muita chuva em março atrasou a colheita da soja e empurrou o plantio de milho para frente. Era muita umidade para colher e plantar, e isso prejudicou essas regiões".
Uma das primeiras consequências - e outro contraste - se dá na área plantada. Enquanto o Mato Grosso, principal estado produtivo, cresceu 2% a área plantada (cerca de 147,5 mil hectares extras), Goiás teve uma área 5,9% menor (recuo de 132,5 mil hectares).
Outras regiões que cresceram área foram Mato Grosso do Sul (+5,2% ou 114,9 mil hectares), Paraná (+4,2% ou 112,3 mil hectares) e Rondônia (+10,3% ou 37,9 mil hectares).
Enquanto isso, além do estado goiano, a região do Mapito (Maranhão, Piauí e Tocantins) registrou uma área 9,1% menor, com cerca de 33,5 mil hectares a menos que em 24/25 e Minas Gerais reduziu a área com milho safrinha em 4,7% (algo em torno de 22,6 mil hectares).
"Olhando o País, há uma variação positiva mínima de área de 0,3%, mas vemos claramente os estados com boas condições com plantio aumentando área e os com problema reduzindo. Nisso, há um destaque positivo para o sorgo que entrou em Minas Gerais e Goiás com aumento de 20%. A janela não é ruim para o cultivo, pois há menos demanda hídrica e é aceito pelas indústrias de etanol", disse André Debastiani.
Olhando para o desempenho na produção, Mato Grosso registrou uma produtividade média de 130 sacas por hectare, queda marginal frente à safrinha passada, porém sete sacas acima do que projetava a própria Agroconsult antes do Rally.
Debastiani ainda citou que o teto produtivo continuou a subir e que em algumas regiões, como o sudeste do estado, registraram quedas maiores: 10% a 20% na produtividade.
Já em Goiás, se viu um extremo inverso. Além da queda na área, a produtividade despencou de 127 sacas por hectare para 83 sacas, na média. O número ainda veio abaixo da projeção inicial do Rally, que considerava um mes de maio com mais umidade - que não se concretizou.
Em Mato Grosso do Sul, a produtividade caiu de 102 para 99,3 sacas em um ano e no Paraná o mesmo indicador recuou de 104,5 para 97,9 sacas por hectare, na média do estado. O único estado com alta na produtividade foi São Paulo, que registrou uma média de 80,5 sacas ante 79 sacas ano passado.
Juntando os dados com o cultivo de milho de primeira safra, o Brasil deve produzir 144,1 milhões de toneladas de milho na temporada 2025/2026, uma queda frente às 155 milhões de toneladas no consolidado do ano passado. A produção da safra de verão foi de 28,4 milhões de toneladas.
Do lado do consumo, a Agroconsult estimou que a demanda doméstica deve crescer 7,3% neste ano e chegar a 105,5 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, a exportação deve cair 11,3% e chegar a 37 milhões de toneladas na safra.
Por aqui, há alta de consumo das indústrias de ração e também das usinas de etanol de milho - que devem consumir 30 milhões de toneladas do cereal. Na exportação, Debastiani mencionou um "mercado competitivo" diante de boas safras nos EUA e Argentina.
Resumo
- Safrinha de milho soma 115,8 milhões de toneladas, 10 milhões abaixo de 2025, com área praticamente estável, projeta Agroconsult
- Mato Grosso sustentou a produção, enquanto Goiás, Minas Gerais e Matopiba sofreram com plantio tardio e perdas
- Custos maiores e preços estáveis reduziram a rentabilidade, enquanto demanda interna cresce e exportações recuam