Foi-se o tempo do “café com leite”. Mas não estamos falando da política que perdurou no Brasil ao longo da República Velha, e sim da estratégia da Coopama, cooperativa de Machado (MG), com forte presença no Sul de Minas Gerais.

A cooperativa iniciou suas atividades há 82 anos, em 1944, com foco principalmente na cafeicultura e na pecuária leiteira.

O leite ficou para trás há cerca de 20 anos. Já o café continua sendo preponderante nos negócios da cooperativa, mas hoje divide espaço com os grãos, a partir da crescente aposta de produtores da região em culturas como soja e milho a partir do fim dos anos 2000.

“Estamos na região do 'café com leite'. Mas hoje a gente tem trabalhado uma diversidade de culturas", afirma Fernando Caixeta, presidente da cooperativa, ao AgFeed. "Na agricultura sempre existe o ciclo de vaca gorda e vaca magra. Quando uma cultura passa por um momento ruim, outra normalmente ajuda a compensar", avalia Caixeta.

Assim, a diversificação dos negócios tem ajudado a blindar a cooperativa das oscilações típicas do agronegócio e contribui também para que a Coopama continue vendo seu faturamento na casa do R$ 1 bilhão, marca que a cooperativa alcançou há dois anos, em 2024.

O número também é exponencialmente mais alto que os R$ 60 milhões (corrigidos pela inflação do período, cerca de R$ 162,1 milhões) registrados ao fim dos anos 2000, quando a soja começou a entrar nos negócios da cooperativa.

Neste ano, a expectativa é de um crescimento de 10% no faturamento, que passaria de R$ 1,2 bilhão registrado no ano passado para R$ 1,3 bilhão em 2026.

O principal investimento da cooperativa, desde o ano passado, está concentrado na nova unidade de grãos no município de Careaçu (MG), cuja inauguração está prevista para agosto deste ano e exigiu aporte de R$ 40 milhões.

A estrutura será capaz de receber pelo menos 220 mil toneladas de grãos. A localização, segundo Fernando Caixeta, foi escolhida pela proximidade com a rodovia Fernão Dias, que liga os estados de São Paulo e Minas Gerais, facilitando tanto o recebimento da produção dos cooperados quanto o escoamento para o Porto de Santos.

Além disso, a Coopama recentemente ampliou sua estrutura de armazenagem de café com dois novos armazéns, instalados em Elói Mendes (MG) e Campestre (MG) entre 2025 e 2026.

Em paralelo, outra fonte de faturamento da cooperativa é a comercialização de insumos agropecuários aos produtores associados. Ao todo, são nove lojas atendendo os agricultores. Só em 2025, o faturamento das unidades somou R$ 322,4 milhões, 16,1% a mais que os R$ 277,9 milhões de 2024.

A cooperativa mantém ainda postos de combustíveis e concessionária de tratores e implementos, revendendo máquinas da marca italiana Landini.

A força do café

Embora a Coopama tenha ampliado fortemente sua atuação em grãos nos últimos anos, o café continua sendo a principal cultura da cooperativa e responde por cerca de 30% do faturamento anual.

Para Fernando Caixeta, o ciclo 2025/2026 ficará marcado como um dos melhores da história recente da cafeicultura brasileira, pois mesmo com uma produção abaixo do potencial, a disparada das cotações internacionais garantiu rentabilidade elevada aos produtores.

"Na minha vida de cafeicultor, nunca vi um ano tão bom. Só tinha visto em 1985, quando ainda era criança. Apesar de ter havido um pouquinho de quebra na produtividade, tivemos preços em patamares históricos. O produtor foi muito bem remunerado e conseguiu se capitalizar", afirma.

Com os preços mais altos, Caixeta destaca que, diferentemente de outros momentos de alta, muitos cooperados não precisaram vender toda a produção imediatamente para fazer caixa.

Os números do demonstrativo da Coopama indicam isso: a cooperativa comprou 168.876 sacas de café, ante 218.014 sacas em 2024, mas a receita foi maior: R$ 349,1 milhões contra R$ 322,2 milhões.

"Pelas informações que temos das cooperativas da região, muitos produtores venderam apenas cerca de 40% da safra e permaneceram com boa parte do café armazenado. Isso mostra que o produtor estava capitalizado e conseguiu administrar melhor suas vendas”, destaca Caixeta.

Para a safra deste ano, a expectativa da cooperativa continua positiva, ainda que com alguns percalços pelo caminho.

Embora o mercado trabalhe com projeções de recuperação da produção brasileira - nas contas mais recentes da Conab, a produção brasileira deve alcançar 66,7 milhões de sacas em 2026, alta de 18% em relação à safra anterior -, Caixeta acredita que os números podem ser superestimados.

"O mercado sempre tenta trabalhar com uma safra um pouco maior, o que naturalmente pressiona as cotações, mas tem muita coisa que a gente não tem controle”, diz.

O principal fator de preocupação neste momento para Caixeta é o clima, destaca ele. Isso porque chuvas e ventos frequentes durante a colheita têm provocado queda de frutos e podem comprometer a qualidade do café.

Segundo um levantamento da própria Coopama, aproximadamente 40% dos frutos já haviam caído no chão durante a colheita em algumas áreas atendidas pela cooperativa.

"Estamos tendo uma colheita com muita umidade. Esse café que caiu acaba perdendo qualidade e isso pode reduzir o volume de cafés especiais”, antevê.

Na avaliação do presidente, justamente por esse motivo, os cafés de maior qualidade tendem a continuar recebendo prêmios importantes no mercado internacional.

"Quem conseguir colher um café de alta qualidade provavelmente continuará encontrando preços firmes", diz.

Em termos de faturamento, o café também pode apresentar limitações em virtude do recuo nos preços da commodity. "No ano passado, nós pagamos uma média junto ao cooperado de R$ 2.308 a saca de 60 kg. Neste ano, a média está mais baixa", diz.

A Coopama também esteve entre as cooperativas afetadas pelo aumento temporário das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros no segundo semestre de 2025.

Apesar de a cooperativa exportar café para 17 países, com presença na Europa e na Ásia, boa parte das remessas da Coopama é composta por cafés especiais destinados ao mercado norte-americano.

Com o tarifaço, os embarques para os Estados Unidos precisaram ser adiados por até três meses. “A gente acabou tendo que retardar a entrega do café de dois a três meses, passando de agosto para novembro e dezembro do ano passado”, conta Caixeta.

O presidente da Coopama destaca também que o impacto foi maior justamente porque a cooperativa não comercializa apenas café commodity. Cerca de 30% das exportações são de produtos de alto valor agregado, como cafés fermentados.

"O nosso café de qualidade é muito específico, não é comoditizado. Não tem como ser substituído A gente exporta muito para pequenas torrefações, é um público que exige um café de alta qualidade. Muitos clientes preferiram esperar a normalização da situação para receber exatamente aquele café", explica Caixeta.

Durante o período de vigência das tarifas, parte das cargas destinadas aos Estados Unidos precisou permanecer armazenada, enquanto outros embarques foram redirecionados por meio de parceiros comerciais no Canadá, antes de seguirem ao mercado americano. "Precisamos, em alguns casos, fazer uma triangulação", afirma.

Com os cafés permanecendo estocados por mais tempo em um ambiente de juros elevados, aumentou o custo financeiro das operações.

No segmento de grãos, a cooperativa avalia que a safra 2025/2026 apresentou resultados acima das expectativas. No ano passado, o volume de recebimento de soja foi levemente inferior ao de 2024 (1,1 milhão de sacas contra 1,2 milhão de sacas), assim como o de milho, que recuou de 1,2 milhão de sacas em 2024 para 880,9 mil sacas no ano passado.

Já para este ano a perspectiva é mais favorável, segundo Caixeta. A produtividade da soja surpreendeu positivamente e a expectativa da cooperativa é de uma segunda safra robusta de milho e sorgo.

Caixeta destaca que o Sul de Minas, inclusive, vem registrando produtividades superiores às observadas em importantes polos agrícolas do Cerrado.

"Temos cooperados colhendo mais de 80 sacas de soja por hectare, enquanto lá no Cerrado, eles conseguem 55, 60 sacas", estima o presidente da Coopama.

Além da soja, outra cultura que tem ganhado destaque entre os cooperados é o sorgo. "A demanda chinesa está gigante pelo sorgo. Historicamente nunca tinha visto sorgo valer tanto quanto ou mais do que milho", destaca Caixeta.

Além disso, o presidente destaca também o plantio de trigo, que vem ganhando espaço na região, embora o excesso de chuvas neste ano gere preocupação quanto à qualidade dos grãos.

Os resultados da Coopama chamam atenção porque a cooperativa atua em apenas oito municípios do Sul de Minas, é formada majoritariamente por agricultores familiares e, ainda assim, alcança desempenho expressivo. Hoje, reúne cerca de 4 mil famílias cooperadas.

Para Caixeta, esse crescimento é consequência direta da profissionalização da gestão e do fortalecimento da governança ao longo dos últimos anos.

“Fazemos duas pesquisas por ano, de satisfação e também de governança. Quase 80% dos cooperados estão aprovando a nossa governança”, diz.

O reconhecimento veio também de fora. No fim do ano passado, a Coopama conquistou o Troféu Ouro no Prêmio SomosCoop Excelência em Gestão, promovido pelo Sistema OCB, que destaca, em nível nacional, as cooperativas com as melhores práticas de gestão ao redor do País.

Veterinário formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Caixeta integra a Coopama desde 2008, período em que ocupou diferentes funções até chegar à presidência.

Antes disso, trabalhou na multinacional francesa Danone, experiência que, segundo ele, ajuda a compreender as diferenças entre o modelo cooperativista e o empresarial tradicional.

“Como já trabalhei em multinacional, sei que o foco é resultado da empresa. Aqui não. Por aqui temos que ter um equilíbrio entre o resultado da empresa, mas, principalmente, o resultado do cooperador. Até porque aqui o dono da empresa é o cooperado”, diz.

Resumo

  • Coopama projeta faturamento de R$ 1,3 bilhão em 2026 com avanço de grãos e café e investimentos de R$ 40 milhões em armazenagem
  • Cooperativa amplia atuação além do café, aposta em soja, milho e sorgo e usa diversificação para reduzir os riscos das oscilações do agro
  • No ano passado, negócios da cooperativa foram afetados pelo tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros