A vitivinicultura da Serra Gaúcha teve um primeiro semestre digno de muitos brindes.
A forte recuperação da produção de uvas na safra, aliada ao crescimento da demanda por espumantes e bebidas sem álcool, recolocou as vinícolas em trajetória de expansão, mesmo em um ambiente de juros elevados e a continuidade da concorrência dos vinhos importados.
É nesse contexto que a Cooperativa Vinícola Garibaldi projeta um crescimento de aproximadamente 10% em seu faturamento neste ano, girando entre R$ 340 milhões e R$ 350 milhões. Em 2025, as entradas da Garibaldi somaram R$ 322 milhões.
O avanço é sustentado por uma safra bastante positiva, pela expansão das vendas de espumantes, principal negócio da cooperativa, lançamento de novos produtos e pela aceleração da linha zero álcool.
Em entrevista ao AgFeed, o diretor executivo da Cooperativa Vinícola Garibaldi, Alexandre Angonezi, afirmou que o desempenho da safra de 2026 surpreendeu ao combinar dois fatores que normalmente não caminham juntos: grande volume e elevada qualidade das uvas.
O volume recebido superou os 30 milhões de quilos, acima dos cerca de 28 milhões registrados na safra anterior e muito superior aos aproximadamente 18 milhões obtidos após os eventos climáticos no Rio Grande do Sul que afetaram os vinhedos entre 2023 e 2024.
"Normalmente existe uma relação inversa entre esses dois fatores, mas neste ano tivemos uma safra grande e, ao mesmo tempo, a qualidade acompanhou. A safra 2026 foi excepcional, realmente muito boa em quantidade e qualidade", afirma.
Com mais uvas, a cooperativa mantém a estratégia de ampliar o portfólio para atender diferentes perfis de consumidores.
O principal lançamento do ano é o vinho branco Vinhas Vivas, desenvolvido para atender à demanda por produtos mais leves, com teor alcoólico reduzido, pouco acima de 9%, e voltados ao consumo cotidiano.
A Garibaldi também apresentou neste ano dois novos rótulos da linha Harmonia, com vinho de tinto de corte e um Chardonnay classificados como super premium.
Mais lançamentos estão previstos para os próximos meses: a cooperativa prepara o lançamento de embalagens de 375 mL para espumantes Brut e Moscatel.
"A ideia é que eles atendam o consumo individual, indo de diferentes segmentos, desde o varejo até a conveniência", antecipa Angonezi.
Do ponto de vista comercial, as vendas vão bem. Os espumantes, que hoje respondem por 40% do faturamento da cooperativa, cresceram acima dos 10% ao longo do primeiro semestre. "E, no segundo semestre, quando acontece nosso maior volume de vendas, deve seguir mais ou menos nesse patamar", diz.
O suco de uva integral, outro item relevante para as receitas da Garibaldi, responsável por 30% do faturamento, voltou a ganhar espaço após ter um desempenho abaixo nos últimos anos.
"O suco de uva tinha perdido espaço em função da quebra de safra, mas nesse ano já está voltando a patamares maiores de volume", diz Angonezi.
Acompanhando as mudanças de hábitos dos consumidores na busca por produtos mais leves, a Garibaldi lançou, nos últimos anos, diferentes itens para compor sua linha zero álcool, que hoje conta com seis produtos.
O volume de comercialização têm animado a cooperativa. “Só neste ano nós já crescemos mais de 50% em relação ao mesmo período do ano passado”, comemora Angonezi. “Esse resultado consolida nossa visão de que temos de atender a diferentes públicos e diferentes canais de comercialização.”
Apesar das previsões de retorno do fenômeno climático El Niño ao longo do segundo semestre deste ano, o diretor executivo da Garibaldi avalia que é cedo para projetar qualquer impacto na produção.
Neste momento, as videiras ainda estão em dormência e iniciam o ciclo vegetativo depois de setembro.
"Ainda é muito cedo para pensar em qualquer cenário. De qualquer forma, a gente sabe que os parreirais estão bem cuidados, o vigor da planta no final da safra anterior foi bom, então, não tem nada que nos diga que vai ser uma safra menor ou uma safra ruim", analisa Angonezi.
Por ora, segundo ele, a orientação da cooperativa tem sido intensificar o trabalho de assistência técnica junto aos produtores, reforçando práticas de manejo que reduzam os efeitos do excesso de umidade, como poda adequada, mais insolação nos períodos de sol e maior ventilação dos parreirais.
"Nós não associamos automaticamente El Niño à quebra de safra. O que a gente sabe é que o efeito de El Niño é um ano mais chuvoso. E essa tem sido a preocupação de intensificar as orientações aos produtores para que tomem o devido cuidado", explica.
Mantidas as condições atuais, a expectativa da Garibaldi é de uma safra próxima de 30 milhões de quilos em 2027.
Se por um lado o desempenho operacional é positivo, o cenário econômico tem levado a cooperativa a reduzir o ritmo dos investimentos.
Depois de aplicar cerca de R$ 15 milhões em 2025 na ampliação da estrutura industrial e de armazenagem, a Garibaldi pretende investir menos de R$ 5 milhões neste ano.
A decisão, segundo Angonezi, reflete o elevado custo do crédito. "Especialmente em função da situação econômica do país e das taxas de juros bastante elevadas, a gente está restringindo os investimentos”, diz.
“Vamos investir apenas o absolutamente necessário para garantir a continuidade do crescimento e a melhoria qualidade dos nossos produtos.”
Resumo
- Cooperativa de vitivinicultores projeta alta de 10% no faturamento em 2026, para até R$ 350 milhões
- Vinícola aposta em novos rótulos e embalagens menores para ampliar consumo de espumantes
- Garbialdi mantém cautela com investimentos em meio aos juros elevados