Três meses após o anúncio de um ambicioso plano de investimentos, que inclui expansão do biodiesel, esmagamento de soja e etanol de milho, o Grupo Potencial mostra sinais de preocupação com alguns obstáculos que foram surgindo pelo caminho.

A expectativa era de que a guerra no Irã impulsionasse a demanda por biocombustíveis, em função do encarecimento do petróleo e derivados, mas na prática os efeitos negativos pesaram mais, com instabilidade no mercado de commodities e uma taxa de câmbio desfavorável aos produtores de soja do Brasil.

No caso da Potencial, grupo que acelerou o crescimento nos últimos anos, com investimentos maciços, o maior entrave, além das incertezas internacionais, é o atraso na implementação das políticas de mistura obrigatória de biodiesel ao diesel no Brasil.

Em entrevista ao AgFeed, o vice-presidente da empresa Carlos Eduardo Hammerschmidt lembrou que o País tem a lei Combustível do Futuro, “que em agosto de 2024 foi aprovada por unanimidade no Congresso Nacional e no Senado, para dar previsibilidade jurídica para que nossos investimentos acontecessem”.

“Está escrito na lei que no ano de 2026 era para estar B16, no ano de 2027 era para estar B17, 2028, B18, até o B20. Porém, o governo fez três anúncios e fez três cancelamentos de agenda no CNPE, o Conselho Nacional de Política Energética”, reclamou o empresário.

Pela legislação do Combustível do Futuro, o País deveria ter migrado para 16% de biodiesel na mistura em março de 2026, mas até agora, como disse o executivo, as reuniões que deveriam deliberar sobre o tema vêm sendo adiadas.

O plano da Potencial, anunciado no fim de março, previa R$ 6 bilhões em investimentos até 2030. Na conversa com o AgFeed, Hammerschmidt admitiu que talvez esse prazo seja estendido para 2032.

“(O atraso) Está deixando desconfortável essa situação com os investidores no Brasil, porque o cronograma da Lei do Combustível do Futuro não está sendo seguido. Inclusive o governo anunciou na Alemanha o aumento do etanol para E32 e o biodiesel para B16. Mas anunciou e não executou no Brasil. Então cria um desconforto para o cenário brasileiro nesse quesito”, afirmou.

O executivo garantiu, no entanto, que o cronograma deste ano está mantido, com R$ 2 bilhões em investimentos.

A previsão é que a terceira planta de biodiesel do grupo – obras já foram iniciadas – fique pronta em fevereiro ou março de 2027, elevando a capacidade produtiva da empresa para 1,7 bilhão de litros do biocombustível por ano.

Outros dois projetos “grandes”, segundo ele, já foram concluídos - uma planta de glicerina refinada e uma esmagadora de soja, inaugurada em março, para processar 1,15 milhão de toneladas por ano.

“A planta de biodiesel já está no cronograma. O que pode acontecer é a gente não vir a produzir, não industrializar. Então hoje a gente já tem um parque industrial no Brasil ocioso. Hoje o Brasil tem uma capacidade de produção de 16 bilhões de litros de biodiesel e a gente só produz 10 bilhões”, ressaltou.

O plano de expansão prevê ainda que a capacidade da esmagadora salte para 2,3 milhões de toneladas anuais, nos próximos anos.

Enquanto as políticas não ocorrem no ritmo desejado pelo setor, Hammerschmidt diz que a projeção de receita para este ano foi revista.

O faturamento da Potencial chegou a R$ 12 bilhões em 2025 e havia a expectativa de alcançar R$ 14 bi este ano.

Como a chegada do B16 atrasou, a receita com biodiesel será menor. Porém, com as vendas dos produtos da esmagadora de soja – óleo e farelo – o VP da Potencial acredita que será possível pelo menos “empatar” em 2026, na comparação com o ano passado.

Etanol e biometano

Para fevereiro de 2027 também está previsto o início da produção de biometano na Potencial.

“Nesse momento, a intenção do biometano é suprir a necessidade da nossa caldeira. É a primeira caldeira flex do Brasil, que pode funcionar tanto a biomassa como a gás. Então a gente vai pegar todos os nossos resíduos industriais e transformar em gás. A planta vai ficar praticamente resíduo zero”, disse o VP da empresa.

O investimento no projeto de biometano é de R$ 120 milhões. A medida é mais uma ação com foco nas metas de descarbonização da companhia, que no último dia 30 de junho, anunciou a aquisição de mais 31 caminhões B100 flex da Volvo, em cerimônia na sede da empresa, em Lapa (PR), como mostrou o AgFeed.

No evento, as empresas pontuaram que as restrições para venda de biodiesel puro nos postos ainda representam um limitador para quem vende o caminhão e para quem fabrica o biocombustível.

“Eu acho que os poderes têm que se comunicar, porque o biocombustível não é só uma molécula de combustível para transportar o caminhão. Ele é uma questão de segurança energética brasileira e segurança alimentar. Quando você industrializa a soja e industrializa o milho, você gera proteína animal”.

Também está mantido o plano da Potencial de construir uma usina de etanol de milho, com investimento previsto de R$ 2 bilhões. “A gente já tem a licença prévia do etanol. Estamos estudando algumas tecnologias, fechando com os fornecedores. Eu acredito que no ano de 2027 a gente já começa a execução do projeto”, previu ele.

A biorrefinaria da Potencial, quando concluída, terá capacidade de processar 3 mil toneladas de milho por dia e produzir 450 milhões de litros de etanol por ano.

Quando todos estes projetos de expansão estiverem finalizados, a previsão da empresa é ter uma receita próxima de R$ 20 bilhões.

Resumo

  • Grupo Potencial, do Paraná, admite que plano de investimentos de R$ 6 bilhões poderá se estender até 2032
  • Empresa manifesta preocupação com atraso na implementação do B16, que pela lei deveria ter sido adotado em março deste ano
  • Com percentual obrigatório de biodiesel ainda mantido em 15%, Potencial prevê que não chegará na meta de faturar R$ 14 bilhões este ano