Com o preço da carne bovina em alta, assim como diversos outros produtos que elevam a inflação, a expectativa de produção de carne para o ano ganhou destaque.

Em 2024, o setor quebrou diversos recordes: abate, produção, exportações, disponibilidade interna e índice de formalidade no mercado. Trata-se de um ano que marcou o início de uma nova etapa da pecuária brasileira.

Ainda assim, a dúvida que fica para 2025 é em relação ao total produzido no ano. Nesse caso, não há consenso entre as análises, visto que a movimentação do número de animais no rebanho será determinante na quantidade ofertada para o abate.

De um lado está o comportamento típico de inflexão de ciclo pecuário, quando o rebanho se reduz e inicia um período de recomposição, com retenção de fêmeas e consequente redução na quantidade de animais abatidos.

Números preliminares da Athenagro consideram uma redução de 2,5 milhões de cabeças no rebanho, o que possibilita projetar leve queda, entre 2% e 3%, até a estabilidade na produção para 2025, lembrando que o peso médio da carcaça abatida tende a ser maior, quando comparado ao ano anterior.

Do outro lado está o atual cenário da pecuária, que estimula o produtor a acelerar o ciclo de produção, visto que os resultados projetados nos atuais preços são atrativos, tanto para a produção de bezerros como para terminação, já considerando a compra de animais mais valorizados.

O fiel da balança, portanto, deve ser o comportamento do perfil de abate para o ano, o que depende da realidade dos produtores brasileiros. Qual é a quantidade de machos que podem terminar ainda esse ano e qual a disposição para manter uma proporção elevada de fêmeas no abate?

Aqui cabe uma pausa para reflexão. Se nascem 50% fêmeas e 50% machos, por que não podem ser abatidos nas mesmas proporções, considerando um rebanho estável?

A resposta a esse questionamento está na taxa de mortalidade.

Como existem mais fêmeas do que machos no rebanho adulto, a incidência da mortalidade tende a recair sobre um maior número de fêmeas. Sendo assim, há a necessidade de reservar uma quantidade maior delas para compensar o total que precisará ser substituído.

Portanto, para entender quantas fêmeas podem ser abatidas sem comprometer o rebanho, é preciso conhecer a estrutura separada por categorias: machos e fêmeas com até 12 meses, de 12 a 24 meses, de 24 a 36 meses e acima de 36 meses.

E as variáveis que influenciam essas proporções são os indicadores zootécnicos, como taxa de prenhez, taxa de natalidade, taxa de desmame, ganho médio de peso, tempo até o abate e até a primeira cria, a própria mortalidade por idade etc.

Quanto piores forem os índices zootécnicos, maior será a quantidade de fêmeas no rebanho, o que aumenta a necessidade de reservar bezerras e novilhas para substituição. Portanto, menos fêmeas disponíveis para o abate sem comprometer a estabilidade do rebanho.

Nos últimos anos, especialmente após o significativo aumento das exportações de carne bovina à China - país que exige carne de animais bem terminados e abaixo dos 30 meses - houve uma otimização da estrutura do rebanho. Com isso, a quantidade de animais “envelhecidos” presentes nas fazendas é bem menor do que há quase 20 anos.

Em um exercício de simulação, a Athenagro calculou que o abate de fêmeas, na atual realidade, poderia chegar até a 47% do total, sem comprometer o rebanho. Ou seja, em tese, a quantidade de animais permaneceria estável.

No Brasil, a totalidade de fêmeas abatidas tem sido tratada como se fosse um efeito colateral, inesperado. É preciso entender que tanto o descarte, como a terminação de fêmeas, não só faz parte da pecuária como é desejável.

Em alguns anos a proporção de fêmeas no abate será maior e, em outros, menor.

Esse comportamento – ora aumentando, ora diminuindo a proporção de fêmeas no abate – é decorrente do ciclo de preços na pecuária. Por mais que a frequência e a intensidade se alterem ao longo dos anos, esse comportamento cíclico sempre irá existir.

E, embora a inflexão do ciclo esteja a pleno vapor com o início do período de maior retenção, o que se questiona não é se o comportamento irá acontecer, mas sim qual será a proporção de fêmeas que serão mantidas no rebanho.

Entre 2023 e 2024, o comportamento do ciclo foi típico de fases de baixa, com o aumento da proporção de fêmeas no abate. Em 2024, essa proporção deve ter ficado por volta de 44%, o nível mais alto ou próximo do mais alto da história. Ainda faltam os dados completos do último trimestre, o que gera essa incerteza em relação ao número final.

Importante reforçar que, há 20 anos, o abate de fêmeas acima de 40% do total comprometia o rebanho. Hoje não.

E mesmo a pecuária sendo capaz de disponibilizar uma maior quantidade de fêmeas, essa dinâmica de retenção ou abate para os próximos meses dependerá da estratégia que o pecuarista adotará para aumentar a produção. Também é preciso considerar o efeito do clima e das condições das pastagens na taxa de prenhez nas fazendas.

Ainda que a taxa de prenhez tenha recuado durante a estação de monta, qual é a proporção de fêmeas adultas vazias que o produtor estará disposto a manter no rebanho? Mesmo depois de um ano com grandes proporções de fêmeas no abate, esse número não é pequeno.

Pelo acompanhamento de composição do rebanho brasileiro, realizado pela Athenagro, o total de fêmeas acima de 24 meses, que não geraram bezerros desmamados em 2024, foi cerca de 33 milhões de cabeças.

Ainda a ser confirmado, o ano deve ter fechado com o abate de 17,2 milhões de fêmeas no mercado formal, fiscalizado pelos sistemas federal, estadual e municipal, além de outras 4,6 milhões de fêmeas abatidas para consumo nas propriedades e para atender o comércio sonegado.

E desse total de fêmeas, aquelas com menos de 24 meses representaram 32% do abate.

Resumindo, do total de fêmeas adultas que não geraram bezerro desmamado em 2024, sobraram aproximadamente 18 milhões de cabeças no rebanho. E, descontando as abatidas jovens, outras 17,6 milhões de cabeças - que eram bezerras em 2024 - serão adicionadas a esse total aptas a parir ou serem abatidas em 2025.

São cerca de 86 milhões de fêmeas que entram em 2025 nessas condições.

Lembrando que essa análise considera o rebanho calculado em 194 milhões de cabeças, segundo metodologia sugerida pela Athenagro. Se considerar o rebanho de 238,6 milhões de cabeças, de acordo com os dados da Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE, a quantidade de fêmeas disponível será ainda maior.

A questão a ser respondida é: como o produtor irá tratar as fêmeas vazias em suas propriedades?

Tecnicamente, a recomendação é abater esses animais, descartá-los. Por isso a proporção de fêmeas no abate é mais relacionada a como o produtor conduz o seu sistema de produção, do que algum fator relacionado à biologia.

Esse é o primeiro início de ano após a inflexão do ciclo pecuário, que saiu da fase de baixa para fase de alta.

E é também o primeiro que ocorre após todas as mudanças catalisadas a partir de 2019, quando a importância do mercado chinês ditou novo ritmo de implementação tecnológica na pecuária.

A oferta de animais para abate em 2025 dependerá do nível de amadurecimento dos produtores em relação aos novos padrões de produção. Na expectativa de produzir mais, quantos continuarão mantendo fêmeas adultas vazias em excesso, que apenas geram custos sem gerar receitas?

E quantos se alinharão à tendência da pecuária moderna, administrando melhor os recursos e imprimindo um ritmo mais intenso no giro do estoque?

Nem é preciso dizer qual decisão leva a um modelo de pecuária mais produtiva, competitiva e financeiramente saudável.

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária