O acordo entre o Mercosul e a União Europeia vem sendo tratado como um passo natural — quase inevitável — rumo à modernização da economia brasileira. Mas, em alguns momentos, vale diminuir o ritmo e fazer a pergunta que realmente importa: estamos entrando nesse acordo nas condições certas?

O texto começou a ser negociado há quase 25 anos, em um contexto econômico muito diferente do atual. O Brasil daquela época tinha uma base industrial mais robusta. O País de hoje chega a essa etapa com uma indústria fragilizada, menor participação no PIB, perda de empregos industriais e menor densidade tecnológica.

Do outro lado da mesa estão economias que preservaram suas indústrias com políticas ativas, proteção a setores sensíveis e visão estratégica de longo prazo.

Essa assimetria não é detalhe. Ela define o resultado.

Fala-se muito em abertura de mercado, investimentos e transferência de tecnologia. Mas vale uma pergunta simples, quase óbvia: por que uma grande fabricante europeia de máquinas agrícolas ou equipamentos industriais investiria em uma fábrica no Brasil se pode atender esse mercado exportando da Europa com tarifa zero?

Produzir localmente implica enfrentar carga tributária elevada, complexidade regulatória, custos logísticos e riscos macroeconômicos. Exportar com alíquota zero elimina boa parte desses obstáculos. Para quem já sentou do lado da decisão, a conta é simples — e não fecha a favor da produção local.

Isso fragiliza um dos argumentos mais repetidos em defesa do acordo: o da geração de empregos industriais. Sem exigências claras de conteúdo local, compromissos produtivos ou transferência tecnológica, o estímulo é à importação, não à industrialização.

O mesmo raciocínio vale para setores tradicionais. Como ficará a indústria brasileira do vinho quando produtores europeus, com escala, subsídios históricos e reputação consolidada, puderem acessar o mercado com tarifa zero? E o que acontece com os queijos nacionais diante da concorrência direta de franceses, italianos e espanhóis, referências globais do setor?

Concorrência é saudável. O problema é quando ela ocorre em condições desiguais.

Há ainda um efeito interno pouco discutido. Empresas que já apostaram no Brasil — inclusive multinacionais que instalaram fábricas, geram empregos e pagam impostos elevados — passarão a competir com produtos importados livres de tarifas e do chamado “custo Brasil”.

Cria-se uma distorção evidente: produzir localmente passa a ser mais difícil do que simplesmente vender no mercado brasileiro.

Nesse contexto, chama atenção o silêncio — ou o aplauso — de parte das entidades representativas da indústria. Questionar parece fora de moda. Mas, em economia, consensos rápidos demais costumam indicar que o debate foi superficial.

Nada disso significa rejeitar o comércio internacional ou defender isolamento. Abertura pode ser positiva, desde que venha acompanhada de preparo. Se o acordo for imutável, torna-se inevitável discutir o outro lado da equação: como criar condições reais para que a indústria nacional consiga competir.

Isso passa por financiamento adequado, estímulo à inovação, redução estrutural de custos, políticas de transição e mecanismos de adaptação para setores mais expostos.

Abrir mercado sem fortalecer quem produz internamente não é estratégia de desenvolvimento. É transferência de mercado. Abertura comercial é uma escolha estratégica. Preparar o país para ela deveria ser parte da mesma decisão.

Entusiasmo é importante. Mas, sem preparo, costuma cobrar um preço alto mais adiante.

Paulo Herrmann é CEO da PH Advisory Group, executivo com 40 anos de trajetória na indústria de máquinas agrícolas.