Enquanto o clima esquentava com os ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel ao Irã, um balde de água fria caía sobre os pecuaristas brasileiros.

A cotação do boi gordo, que havia avançado cerca de R$33/@ entre o primeiro dia do ano e os últimos dias de fevereiro, recuou R$8/@ em sete dias, considerando a média dos indicadores Datagro e Cepea/ESALQ. Na média de todos os meses, os contratos futuros recuaram cerca de 3,6% no mesmo período.

Essa queda nas cotações ocorreu justamente quando ganhavam força expectativas de preços bem mais altos para o decorrer do ano, especialmente após a superação da “marca” dos R$350/@, o que aconteceu na última semana de fevereiro. Qual seria o limite a partir daí?

A expectativa de alta firme nas cotações é sustentada pela leitura de que haverá queda acentuada na produção de carne em 2026, consequência do elevado abate de fêmeas registrado em 2024 e em 2025. Caso o comportamento da fase de alta siga padrões de ciclos pecuários anteriores, a esperada queda na produção pode se confirmar.

Embora não seja a leitura da Athenagro - que acredita em estabilidade com possibilidade até de aumento na produção - a maior parte das análises apontam nessa direção.

A posição destoante da Athenagro se deve à percepção quanto à evolução da produtividade no campo. Acreditamos, por aqui, que o desempenho da pecuária será suficiente para evitar queda tão significativa no abate, ao mesmo tempo que deve oferecer carcaças mais pesadas em 2026, compensando a provável retração na quantidade de animais abatidos.

Em ambas as análises, todos os profissionais e empresas encontram as mesmas dificuldades: trabalhar com estatísticas insuficientes e publicadas com muito atraso.

Independentemente do comportamento da oferta, é preciso compreender que a formação dos preços depende da demanda, cuja dinâmica também está se alterando drasticamente nos últimos anos.

Entre 2001 e 2018 as exportações representaram, em média, 20% do total de carne bovina produzida no país, oscilando entre mínimas de 14% e máximas de 24%. De 2019 a 2025, essa média passou para 30%, saindo de quase 26% em 2019 para os atuais 37% em 2024 e em 2025.

O total exportado é comparado com a produção total, que soma o mercado formal - fiscalizados pelos sistemas federal, estaduais e municipais - com o informal, que reúne o mercado sonegado e o total abatido para consumo nas próprias fazendas.

Essa mudança significativa impacta na formação de preços no mercado interno. E essa não é apenas a única diferença no perfil da demanda.

No mercado interno, a relação entre frigoríficos e varejo também mudou nos últimos anos. A maior parte da carne, que antes era desossada nos pontos de vendas, passou a ser desossada nos frigoríficos e enviada de duas formas para os varejistas: embalada em porções menores, pronta para o consumidor levar, ou em embalagens maiores que serão manipuladas nos açougues individuais ou dentro dos supermercados.

O mercado caracterizado por carcaças chegando aos pontos de venda é cada vez menor quando se consideram os grandes centros consumidores. Sendo assim, talvez essa já não seja a melhor comparação para identificar se a operação do mercado interno está favorável ou desfavorável ao frigorífico. Veja a situação.

O indicador que compara o preço da carcaça bovina com o preço do boi, ambos em São Paulo, está 1,5% positivo, quando a média histórica é negativa em 3,7%. Se analisar o período de 20 anos, os últimos meses representam o segundo melhor período da série, o que sugere espaço para melhorar a precificação do boi gordo nas vendas internas.

No entanto, há outro indicador muito parecido que compara os preços dos cortes desossados, recebidos pelos frigoríficos, com os preços do boi gordo. Para tanto, o preço de cada corte é ponderado de acordo com sua participação na carcaça.

Nessa análise, considerando também o mercado de São Paulo, o indicador atual está negativo em 3,5%, quando a média histórica em 20 anos é de 6,5% positivo. Ao contrário do que ocorre com as carcaças, esse indicador está no terceiro pior momento em 20 anos.

A dinâmica de venda de carcaças mudou. Não se trata apenas de um comércio realizado entre frigoríficos e pontos de venda. Hoje envolve também o comércio entre os próprios frigoríficos, que negociam entre si com o objetivo de atender demandas específicas para determinados mercados.

Para mensurar corretamente esse comportamento, haveria necessidade de pesquisar qual o montante de carne que chega ao varejo em carcaça e qual é o que chega em cortes desossados. Estimativas da Athenagro indicam que entre 75% e 80% já sejam comercializados em cortes desossados ou em peças, como é o caso da costela, que será enviada com osso aos pontos de vendas.

A partir de ambas as informações, criamos um outro indicador, comparando os cortes desossados com a carcaça.

Em 20 anos, a média entre os preços dos cortes desossados foi 10,7% superior aos preços das carcaças, ambos em São Paulo. No início de março, esse indicador chegou ao menor valor já registrado, com a composição do preço dos cortes desossados 4,93% menor do que o preço da carcaça. Esse índice vem se mantendo negativo desde outubro de 2025.

É possível que o indicador, que compara carcaça com preço do boi, indique exatamente o contrário do que indicava em anos anteriores. Quando o indicador estiver elevado, pode ser sinal de aperto nos frigoríficos que precisam negociar entre si para se defender de situações ainda piores do mercado, e não o contrário.

Essa comercialização entre indústrias também será estimulada pelas proporções de carne enviadas ao mercado internacional. As proporções dos cortes exportados não são equivalentes às dos cortes originados pelo abate.

É evidente que essa tese precisa ser confirmada, mas trabalhamos na Athenagro com essa possibilidade.

Sendo assim, colocando todas essas variáveis discutidas na mesa, tanto de oferta como de perfil de demanda, as expectativas de preços projetados para o ano serão mais conservadoras, o que não implica em frustração de mercado ou em resultados pífios nas fazendas. Muito pelo contrário.

Em todos os relatórios com projeções enviados aos clientes, o cenário é de condições favoráveis para os resultados na pecuária, pelo menos, até 2028. Importante lembrar que projeções mudam de acordo com o cenário e, hoje, passamos por um momento de muitas incertezas.

De acordo com a nossa leitura, a queda nos preços do mercado físico e dos contratos futuros nesse início de março trouxe o valor médio do boi em 2026 para próximo do que havíamos projetado para o ano, ao final de 2025: mercado ainda em alta, mas conservador quando comparado às expectativas elevadas de preços.

Nesse momento, ainda carregado de incertezas, podemos dizer que não houve frustração de mercado, mas sim das expectativas criadas em torno de preços muito elevados. Essas expectativas, no entanto, possibilitaram boas oportunidades de garantir preços melhores para o ano a partir do mercado futuro negociado na B3.

Se essas oportunidades irão voltar ou não depende do desfecho dos acontecimentos relacionados às exportações.
Em 2025, as exportações de carne bovina somadas para todos os países do oriente médio*, Egito, Afeganistão e Turquia representaram 10% do total. Estimativas da Abiec indicam que o impacto logístico do conflito possa afetar até entre 30% e 40% das exportações.

E todo esse impacto se soma à dificuldade de redirecionar a carne que irá passar da cota estabelecida pela salvaguarda chinesa, outro desafio a ser superado em 2026.

Hoje, portanto, há dois fatores limitantes às precificações mais generosas para o boi gordo: a redução dos resultados com as exportações e os indicadores de mercado interno na comercialização dos cortes. Infelizmente são acontecimentos reais, cujos impactos interferem diretamente no mercado.

Como temos reforçado por aqui, a leitura de mercado precisa ser feita com base em números e fatos e não em torcida ou opinião. É preciso decidir com base no bom senso e muito estudo atualizado e revisado com frequência.

* Diferentes publicações divergem entre os países que compõem o Oriente Médio. Em nossas análises, consideramos: Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Chipre, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irã, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Palestina, Síria e parte asiática do Egito.

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária