No dia 31 de dezembro de 2025, a China anunciou a adoção de medidas de salvaguarda às suas importações globais de carne bovina, abrindo as cortinas para um ano desafiador para a pecuária brasileira. Mas, ao contrário do que se imagina, os maiores desafios não virão do fato em si, embora seja de grande relevância.
Como temos frequentemente abordado neste espaço, a pecuária brasileira está acelerando um processo histórico de aumento na produtividade e capacidade de resposta do campo. E o momento é especialmente favorável, já que a demanda por carne tende a crescer em um ritmo superior à capacidade conjunta de produção dos países.
Ao que tudo indica, em 2026 a produção global de carne bovina - incluindo bubalina nos principais países produtores – deve aumentar apenas 15 mil toneladas de carcaça em relação ao ano anterior.
Essa estimativa de produção leva em consideração a leitura da Athenagro em relação à produção brasileira. Diferente das estimativas apresentadas por outras consultorias, entidades e instituições que geram estatísticas sobre a produção, a Athenagro trabalha com a possibilidade de leve aumento ou estabilidade na produção de 2026. É um cenário conservador.
Há outras leituras indicando queda na produção brasileira, com projeções que variam de 2,5% a 9,5% sobre a produção de 2025. Se recuar 4,5%, conforme a estimativa mais comum que tem sido divulgada, o Brasil fará com que a produção global de carne bovina recue 604 mil toneladas durante o ano.
Essa queda na produção, caso se confirme, irá se defrontar com a expectativa de que as importações globais de carne aumentem 380 mil toneladas ao longo do ano.
E é nessa conjuntura que a China anunciou a implementação das medidas de salvaguarda para a importação de carne bovina.
Ao Brasil foi estabelecida uma cota de inicial de 1,1 milhão de toneladas métricas, quantidade que continuará sendo importada pelas atuais taxas vigentes, em 12%. À quantidade que ultrapassar a cota serão aplicadas taxas adicionais de 55%, levando a taxação a 67% - o que tem sido considerado proibitivo.
Se o Brasil exportar para a China, em 2026, a mesma quantidade de 2025, além do total de 1,1 milhão de toneladas métricas (taxadas com a tarifa corrente de 12%), serão embarcadas outras 549 mil toneladas métricas - taxadas a 67% (extracota).
A nova tarifa, portanto, incidiria em 33,3% (1/3) do total de carne bovina exportada para a China. Nessas condições, calculando a quantidade exportada pelas diferentes tarifas, a taxação média da carne bovina brasileira que entra na China subiria de 12% em 2025 para 30,3% em 2026. Trata-se de um aumento de 152% nas tarifas de importação de carne bovina do Brasil pelos chineses.
Diante da confirmação do anúncio, cujas medidas já eram esperadas, diversas análises e opiniões foram divulgadas, algumas inclusive indicando eventual redução na produção de carne bovina provocada pela queda nos embarques para a China. Essa análise considera a queda proporcional ao total que superaria a cota reservada para o Brasil.
É preciso cautela!!
A queda na produção, caso ocorra conforme abordado anteriormente, será causada pela redução na disponibilidade de animais para abate e não pela decisão da indústria em segurar a produção. Ainda assim – sempre reforçando - essa não é a leitura da Athenagro nesse momento.
Pelos dados preliminares das estatísticas para 2026, espera-se que a China reduza a importação em 65 mil toneladas de equivalente carcaça, quando comparada ao ano anterior.
Os dados preliminares de produção apontam queda de 230 mil toneladas na produção de carne bovina chinesa, que atingiria 7,56 milhões de toneladas de carcaça. Os chineses são o terceiro maior produtor global, atrás do Brasil - que passou a ser o maior produtor em 2025 - e dos Estados Unidos.
Sendo assim, o único cenário em que a implementação das medidas de salvaguarda afeta de forma significativa, e negativa, a pecuária brasileira no curto prazo é a drástica redução no consumo per capita de carne bovina na China.
A tendência mais provável é que o desfecho seja parecido com o que ocorreu após o tarifaço direcionado ao Brasil pelos norte-americanos, anunciado no dia 9 de julho de 2025.
Além do fato do Brasil ter passado a atender o mercado de países que direcionaram parte de sua produção aos norte-americanos, as exportações de carne bovina para os EUA continuaram ocorrendo, ainda que em menores volumes.
De agosto a novembro, no auge do período do tarifaço, as exportações mensais de carne bovina aos EUA foram de 11,3 mil toneladas métricas, 41% abaixo da média mensal de 2024 e 3% acima da média mensal de 2023. No primeiro semestre de 2025, o Brasil exportou, em média, 30 mil toneladas para o mercado norte-americano.
Sendo assim, é de se esperar que os países que receberam cotas acima do que exportam atualmente para a China fiquem mais competitivos do que o Brasil, depois que a marca de 1,1 milhão de toneladas métricas brasileiras for ultrapassada. Nesse caso, conquistariam fatias do mercado hoje atendidas pela carne brasileira.
Por outro lado, os mesmos países tendem a importar do Brasil para atender o próprio mercado, possibilitando que direcionem maior parte de sua produção para a China, ao mesmo tempo que devem deixar espaços abertos em outros compradores, cujos mercados podem ser acessados ou ampliados pelo Brasil.
O maior impacto, portanto, tende a ser na precificação média da carne que irá passar da cota estabelecida pelos chineses. Seja enviada à própria China, com taxação maior, ou enviada a outros mercados, os preços de exportação para o excedente da cota tendem a ser mais baixos.
Porém, há um comportamento que pode ocorrer para a carne exportada dentro da cota.
Cientes do déficit interno na disponibilidade de carne na China, os importadores podem correr para garantir a compra antecipada dentro do total de 1,1 milhão, disponibilizado ao Brasil, o país mais competitivo do mundo em preço e disponibilidade. Com isso, a precificação da carne bovina exportada dentro da cota seria superior à registrada nos últimos meses, ao passo que a carne extracota sofreria o efeito inverso.
Interessante que o cenário deixa apenas um grande perdedor: o consumidor chinês. E é o que sempre acontece quando governos interferem no mercado com o objetivo de proteger uma indústria pouco competitiva.
Outro ponto de atenção aos exportadores brasileiros é a possível mudança de comportamento dos embarques durante 2026.
Historicamente, as exportações de carne bovina para a China são maiores no segundo semestre. Na média de 2013 a 2025, os chineses importaram 39,2% a mais no segundo semestre em comparação com o primeiro. Em apenas 3 anos, nesse período, as importações do primeiro semestre superaram as do segundo. Esse comportamento pouco comum pode se repetir em 2026, com provável impacto na curva de sazonalidade do boi gordo e dos demais preços pecuários.
E ainda com relação à produção brasileira, mesmo que se confirme a queda, a expectativa é que o Brasil seja o mais ágil, entre os fornecedores, para responder em 2027. Com isso, o país consolidará ainda mais a sua hegemonia no mercado internacional.
Em 2026, o Brasil poderá responder por 39% da oferta líquida global de carne bovina no mercado internacional. O cálculo é feito descontando as importações dos países exportadores. O caso dos Estados Unidos é o mais didático para explicar o comportamento. Em 2024, as importações de carne bovina pelos norte-americanos superaram as exportações em 739 mil toneladas de equivalentes carcaça.
Em 2026, a tendência é que o saldo líquido negativo seja de 1,34 milhão de toneladas de equivalente carcaças, 80% a mais do que o registrado dois anos antes. E tudo isso ocorre em um país que é o quarto maior exportador global de carne bovina.
O cenário, portanto, é extremamente favorável a bovinocultura brasileira, mesmo com a aplicação das salvaguardas da China.
Sendo assim, de onde viria o mencionado desafio para o ano?
Embora favorável, não será um ano de decisões fáceis. Todo o desfecho que se desenha para os próximos meses acontecerá diante de muitas incertezas, desde a quantidade produzida até o perfil dos mercados que serão atendidos. No fechamento de 2026, as análises e planilhas terão mostrado um ano positivo para a pecuária de corte. Pelo menos é o que indicam as leituras do momento.
Mas até chegar lá, os próximos meses serão impiedosos com os empresários que decidirem errado, seja nas fazendas, nas indústrias de insumos, revendas, serviços ou nos frigoríficos. As incertezas para o ano serão muitas e desafiadoras.
E pior. Parte dessas incertezas está sendo apresentada como se fosse certa, consequência do elevado número de influencers e influenciados em operação: uma verdadeira máquina de moer sonhos e projetos.
O ano será bom para os números da pecuária. Mas será bom apenas para parte dos empresários. E o resultado - que sempre se repete quando a gestão passa a ser mais desafiadora - será o mesmo: concentração acelerada.
Prepare-se! O sol, de fato, nasce para todos. O difícil é garantir um lugar à sombra.
Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária