Há razões técnicas e econômicas por trás do mito de que a pecuária sempre demandará novas áreas para aumentar a produção. Mas antes é preciso discutir uma particularidade do Brasil.

O que diferencia a bovinocultura de corte brasileira das demais é a possibilidade de produzir bezerros de forma competitiva e com produtividades mais elevadas. Essa é uma particularidade dos sistemas de produção a pasto no ambiente tropical, cuja dinâmica é totalmente diferente do clima temperado.

Como os brasileiros são os únicos a dominar essas tecnologias, acaba sendo difícil que acadêmicos e pesquisadores de outros países compreendam o potencial de produção da pecuária brasileira.

Essa dificuldade é ainda maior entre os estudiosos de outras áreas que trabalham com projeções de produção em seus modelos matemáticos, como é o caso de biólogos, estatísticos, geógrafos, climatologistas etc. Se negam a aceitar uma realidade que, hoje, só acontece no Brasil. Aceitar o novo já difícil, imagine aceitar o novo quando ele é raro e ocorre em um país que não é destaque em produção científica?

É justamente a falta de compreensão dessas diferenças que alimenta o mito segundo o qual o aumento na produção de carne provocaria desmatamento. Ironicamente, acadêmicos influentes do Brasil acabam importando esse “desconhecimento” que circula lá fora, ao invés de procurar conhecer a realidade do país. Bastaria consultar seus pares especializados em ciências agrárias e compreenderiam melhor as especificidades do sistema de produção brasileiro.

Apesar da inquestionável qualidade da proteína, a produção de carne bovina é uma das atividades mais ineficientes em termos de quilogramas produzidos por área. Embora seja possível agregar elevados níveis de produtividade da recria até a engorda, a produção de bezerros será limitada sempre a um animal por vaca a cada ano, no máximo.

Sendo assim, nos países de clima temperado ou com forte restrição de água, o aumento da produção de bezerros depende do fornecimento de alimentos aos animais através de cocho, o que gera um problema financeiro.

Os custos para manter uma vaca, em torno de 400 a 600 quilogramas de peso vivo, acabam não compensando financeiramente, visto que o bezerro, depois de 9,5 meses de gestação e outros 6 a 8 meses de amamentação, acabará pesando menos da metade do que a própria vaca que o gerou.

Para compensar essa operação, o valor do bezerro teria que aumentar, tornando a carne bovina muito mais cara, caso a produção fosse ampliada em sistemas temperados ou semidesérticos.

Nesses casos, a alternativa para a produção é o uso de extensas áreas, com diversos hectares para cada vaca que produzirá bezerros para serem direcionados a um modelo intensivo de produção, depois da desmama. É o caso das pecuárias mais eficientes do ponto de vista zootécnico, como a australiana e a norte-americana.

Sendo assim, para aumentar a produção sem grandes acréscimos nos preços, esse modelo demanda, necessariamente, o avanço sobre novas áreas. Uma opção a isso seria a elevação de preços para a carne bovina ou então o fornecimento de subsídios, como é feito na Europa.

Fica fácil entender por que as projeções desenhadas até 20 anos atrás apontavam preços proibitivos e consumo per capita restrito para a carne bovina, além de avanços sobre extensas áreas de fronteira. Faz sentido do ponto de vista da produção em clima temperado.

Por muito tempo, a pecuária brasileira parecia caminhar nessa mesma linha do que ocorre no clima temperado, com a ocupação de terras mais baratas em áreas de fronteiras. O artigo escrito em 2012, sob o título “Pecuária, uma revolução está em campo”, discorre como foi o avanço sobre novas áreas de fronteira. Foi a expansão que levou a pecuária para essas regiões - e não o contrário.

Tanto é assim que, durante décadas, a produção de bezerros foi muito maior do que a terminação de bovinos para a produção de carne, o que pode ser constatado pelas relações históricas entre preços de bois e bezerros. Até o início dos anos 1990, o bezerro era tratado como subproduto de uma operação imobiliária: abrir e ocupar novas áreas.

Com a consolidação do plano Real, que finalmente venceu o processo hiperinflacionário da economia brasileira, toda a economia passou a mudar o foco das operações. Se antes compensava expandir horizontalmente estocando produtos – no caso, animais – os melhores resultados passaram a ser obtidos com o aumento da produtividade a partir dos ativos imobilizados. O maior desses ativos, na produção rural, é a terra.

Todas as atividades se adaptaram a esse novo modelo, inclusive a pecuária. Porém, a pecuária tinha ainda uma “conta a pagar”.

Justamente por ter sido a principal atividade usada na abertura das áreas de fronteiras, havia um estoque desproporcional de animais, machos e fêmeas, de diversas idades, espalhados por todas as regiões do País.

Como se trata de uma atividade de ciclo longo, levou mais tempo para que os estoques fossem ajustados até que a produção se equilibrasse de acordo com a demanda. Outra força nesse processo, também lenta, foi a velocidade com que a agricultura se adaptava financeiramente para expandir sobre áreas ainda ocupadas por pastagens.

Cerca de 10 anos depois do estabelecimento do plano Real, as notícias de que a agricultura avançava sobre áreas de pecuária começaram a dominar as manchetes dos veículos especializados.

Para o produtor, esse período de ajuste nos estoques representou uma fase de desestímulo tecnológico. A produção organizada, tanto do ponto de vista técnico quanto gerencial, passou a competir com a sobreoferta resultante da redução dos estoques, enquanto os sistemas de baixa tecnologia se adaptavam gradualmente a modelos mais modernos.”

A consequência prática dessa competição foi a dificuldade de garantir resultados financeiros, problema que foi muito mais severo na produção de bezerros. Na figura 1, temos o histórico de resultados na atividade de cria – produção de bezerros – analisados sob três níveis de produtividade. Os valores estão corrigidos pelo IGP-DI (Indice Geral de Preços – Disponibilidade Interna), da Fundação Getúlio Vargas.

Figura 1: Evolução dos resultados na atividade de cria em três níveis diferentes de produtividade

Antes que o mercado se ajustasse, a atividade de cria em altas tecnologias era proibitiva. Simulações de resultados que seriam obtidos mostram longos anos de prejuízos nos modelos mais produtivos. Importante ressaltar que níveis tecnológicos mais altos, conforme exposto no gráfico, são raros na atividade de cria, exclusivamente. Para fazer a análise a partir de casos reais, a Athenagro usa informações originadas nas fazendas de ciclo completo.

Voltando à figura 1, a partir do início dos anos 2010, os resultados positivos com aporte tecnológico começaram a melhorar na atividade de cria, distanciando-se cada vez mais dos resultados com baixo aporte tecnológico. Ocorreram alguns momentos desfavoráveis no período, mas nada que tenha sido duradouro como observado durante os anos de 2002 a 2013.

É preciso ainda considerar a particularidade do que ocorreu entre 2023 e 2024, quando a oferta de bezerros foi catapultada a partir do estímulo criado com o rápido aumento da demanda chinesa a partir de 2019.

Com estoques ajustados e a disponibilidade de técnicas de produção no ambiente tropical, a atividade de cria passou a ser mais lucrativa em sistemas mais produtivos.

E ainda há muito espaço para agregar, visto que a produtividade média do setor está por volta de 4,3@/ha/ano, considerando a produção de bezerros e descarte de fêmeas e machos usados na reprodução.

A figura 2 ilustra o lucro médio com a atividade no período de 2017 a 2026. Dessa vez, os dados estão em valores nominais, sem correção da inflação.

Figura 2: Evolução dos resultados na atividade de cria considerando a evolução da produtividade média

Fazendas que operam com desempenho comercial, de acordo com o critério adotado pela Athenagro, devem obter resultados de R$1.000/ha em 2026, com produtividades próximas a 7,8@/ha/ano. O que acontecerá com a área de cria, ou com a produção, se os produtores brasileiros se esforçarem para aumentar apenas R$250/ha nos resultados anuais?

E, ainda assim, mesmo considerando a produção mais tecnificada, ainda haveria muito espaço para agregar produtividade e, consequentemente, ampliar os resultados nas fazendas à medida que se caminha para níveis tecnológicos mais elevados.

E esse contexto cria um ambiente totalmente favorável à produção brasileira.

Nos atuais preços do mercado, quanto mais bezerros uma fazenda produzir a partir da mesma área, mais rentável ela será. Por outro lado, nos grandes potenciais concorrentes do Brasil, a produção só pode aumentar se os preços subirem significativamente a ponto de valer a pena produzir bezerros a partir de vacas confinadas.

Mais interessante ainda: essa diferença comportamental ocorre com o Brasil ofertando animais com os preços mais baixos do mundo, quando se consideram países com capacidade de resposta. As oportunidades de mercado e de produção com alta tecnologia são imensas e alicerçadas em uma realidade muito diferente da encontrada até 15 anos atrás.

O mercado estimula que o produtor cresça verticalmente, aumentando o rendimento por área. E o efeito passou a ser o inverso do que ocorria nos anos de desestímulo. Atualmente, é a oferta de animais produzidos em sistemas mais tecnificados que dificulta a viabilidade econômica das atividades conduzidas com baixa tecnologia.

Com o rendimento financeiro baixo, fazendas com pouco aporte de tecnologia tendem a não competir com a atratividade de outras atividades, como é o caso dos grãos, reflorestamento, cana-de-açúcar, café, cacau etc.

Apenas para não deixar passar em branco, é fato que áreas desmatadas ilegalmente continuam sendo ocupadas por pastagens. Mas essa operação de avanço sobre novas áreas não é motivada pela demanda por bezerros e sim pelo interesse em ocupar e se capitalizar com terras que não deveriam ser usadas.

A pecuária não depende de desmatamento para crescer, por mais insistentes que sejam as mensagens propagadas pelos que defendem ideias antigas, formuladas a partir de uma realidade que não se aplica ao atual conhecimento sobre produção tropical.

A realidade não se intimida com os gritos dos barulhentos.

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.