O que a proteína cultivada em laboratório muda para o preço da terra, para o produtor rural e para o mercado financeiro do agronegócio brasileiro
A terra agrícola é considerada o ativo mais seguro do agronegócio brasileiro. Finita por definição — não se fabrica mais hectares. Esse argumento sustenta teses de investimento, laudos de avaliação e estratégias de alocação de capital há décadas.
Mas há uma premissa embutida nesse raciocínio que raramente é questionada: a terra vale pelo que ela produz. E se a função da terra mudar? Essa é a pergunta que o mercado ainda não está fazendo com a seriedade que ela merece.
O produtor não produz soja — produz energia e proteína
O produtor rural brasileiro não vende grãos. Em última instância, ele produz duas coisas fundamentais para a civilização: energia — via etanol, biodiesel e biomassa — e proteína — porque o farelo de soja, milho e trigo alimenta bovinos, suínos e aves, que viram carne na mesa.
Há um dado que resume a ineficiência desse segundo caminho: uma vaca precisa de 7 a 8kg de grãos para produzir 1kg de carne — a maior taxa de ineficiência entre todas as espécies criadas para alimentação humana. A cadeia toda existe para fazer essa transformação: plantar o grão, irrigar, alimentar o animal, aguardar, abater, processar, distribuir.
O precedente de como essas cadeias mudam já está acontecendo agora. O etanol de milho, que representava menos de 2% da produção nacional há dez anos, já ultrapassa 25% do etanol produzido no Brasil — mais de 8 bilhões de litros na safra 2024/25, segundo a Unica.
E o coproduto desse processo — o DDG, rico em proteína — está transformando os confinamentos bovinos: estudos mostram que sua inclusão na dieta pode gerar até 12kg a mais de carcaça em 100 dias de confinamento, segundo pesquisador citado pela Gazeta do Povo.
O milho não deixou de ser milho. Mas seu papel na cadeia expandiu radicalmente. A função do grão muda, e a cadeia que depende dele muda junto.
A ciência quer eliminar o intermediário
Em 1872, o historiador britânico Winwood Reade previu que um dia a humanidade fabricaria alimento diretamente de elementos químicos. Em 1925, o geoquímico russo Vladimir Vernadsky escreveu sobre o ser humano como potencial "estelívoro" — alguém que, como as plantas, se alimentaria diretamente da energia do sol. Durante um século, isso ficou no campo da especulação.
Agora, o capital está tornando esse sonho viável.
A Solar Foods criou o Solein — uma proteína produzida sem agricultura, usando eletricidade solar e CO2 retirado do ar. A Savor usa termoquímica para fabricar gorduras molecularmente idênticas à manteiga convencional — sem vacas, sem pasto, sem cadeia de laticínios. Bill Gates provou e aprovou publicamente. A proteína cultivada de células animais segue caminho paralelo: biópsia simples, biorreatores que reproduzem as condições do organismo, carne real — mesma composição, mesmo sabor — sem abate e sem cadeia de ração.
"Uma célula coletada de um animal, cultivada em biorreatores, alimentada com nutrientes e aminoácidos, se prolifera produzindo tecido de carne e gordura", afirma o dr. Luismar Porto, ex-presidente da divisão de carne cultivada da JBS.
Os maiores players da cadeia já apostaram
Enquanto o debate público sobre proteína cultivada se concentra em prateleiras de supermercado, as maiores processadoras de proteína animal do mundo estão construindo infraestrutura. Silenciosamente.
A JBS investiu US$ 100 milhões em proteína cultivada entre 2021 e 2025, adquiriu 51% da espanhola BioTech Foods e inaugurou recentemente, em Florianópolis, o JBS Biotech Innovation Center, maior centro de P&D em biotecnologia alimentar do Brasil, com R$ 310 milhões projetados. A BRF fez parceria com a startup israelense Aleph Farms.
Por que as maiores empresas de abate do mundo investem na tecnologia que pode tornar o abate desnecessário? Hedge estratégico. Se a tecnologia escalar, a JBS quer ser dona dela. É o mesmo movimento que fez a Petrobras investir em renováveis antes de ser obrigada. O investimento não é altruísmo. É sinal de quem conhece a cadeia por dentro.
A terra some 99% — mas a energia explode
Os estudos são consistentes: a proteína cultivada pode reduzir o uso de terra em até 99% comparado ao gado convencional — dado publicado pela Universidade de Oxford no periódico Environmental Science & Technology e confirmado por revisão sistemática publicada na ScienceDirect em 2025. Um galpão substitui milhares de hectares.
Mas o que raramente aparece nos títulos: os biorreatores e os processos de proteína do ar consomem energia intensivamente — 24 horas por dia, com temperatura, pressão e pH controlados com precisão. Trocam dependência de terra e clima por dependência de energia elétrica limpa e barata.
Isso cria um paradoxo que o mercado ainda não mapeou: a tecnologia que pode reduzir a demanda por terra agrícola vai aumentar a demanda por energia renovável — que o campo brasileiro produz via etanol, biodiesel e biomassa. E vai disputar essa energia com outra tecnologia igualmente sedenta: a inteligência artificial. Microsoft, Google e Meta já estão comprando capacidade nuclear para seus data centers. O campo não some. Muda de papel.
O que muda para o produtor — e para o preço da terra
Se a demanda por ração animal cair gradualmente — e cairá na velocidade em que a proteína cultivada atingir custo competitivo — o valor da terra vai se bifurcar. Terra com aptidão energética (soja para biodiesel, milho para etanol, biomassa) tende a se valorizar. Terra cuja função principal é fornecer ração pode ver essa demanda se erodir.
Há também um risco que o mercado agro não está mapeando: trocar dependência do clima e do solo por dependência de patentes e infraestrutura tecnológica concentradas em poucas empresas. O momento de entender esse movimento é agora, quando o campo ainda é o ativo central da equação.
Cultivares de soja com maior teor de óleo, milho para etanol com DDG, oleaginosas para bioquerosene de aviação — o produtor que entender que está no negócio de energia e proteína, não de grãos, vai navegar essa transição com mais clareza.
A terra agrícola vai continuar sendo um ativo real, escasso e estratégico. Mas o argumento que sustenta seu valor precisa evoluir junto com a cadeia que ela serve.
O sonho de Vernadsky começa a sair do papel. Não amanhã. Mas na direção que o capital já está apontando.
O campo que hoje fornece ração para o boi que vira carne pode, amanhã, fornecer energia para o laboratório que vai cultivar essa mesma carne. A terra não deixa de ser finita. Muda o que ela precisa produzir para continuar sendo valiosa.
Ignorar essa transição é mais caro do que se preparar para ela.
Henrique Zart Schardong é diretor Comercial da Plantae Agrocrédito.