O mercado internacional de cacau parece estar vivendo um momento raro, aquele instante em que uma commodity deixa de ser apenas uma cadeia agrícola e passa a revelar transformações muito maiores no funcionamento da economia global.

O choque recente dos preços foi tratado inicialmente como uma anomalia climática. Uma combinação extraordinária de quebras produtivas na África Ocidental, eventos extremos e especulação financeira. Mas essa leitura pode estar errada. Ou, pelo menos, incompleta.

O que aconteceu entre 2023 e 2025 pode não ter sido um “cisne negro”, no sentido descrito por Nassim Nicholas Taleb como um evento raro e imprevisível. O cacau parece se aproximar muito mais de outro conceito, cada vez mais debatido entre analistas de risco: o “cisne vermelho”.

Ou seja, uma crise anunciada, visível, cientificamente antecipada e mesmo assim ignorada pelo modelo dominante de negócios.

É plausível que seja exatamente isso que esteja acontecendo nas novas fronteiras globais do cacau.

A recente projeção da StoneX de um superávit menor para 2026/2027, impulsionado pelo aumento do risco climático, deveria ser lida muito além da simples lógica de oferta e demanda. Ela ajuda a revelar algo mais importante: o sistema global de produção de cacau continua estruturalmente vulnerável, mesmo após o aparente alívio dos preços recentes.

O mercado saiu do estado agudo de pânico. Mas os fatores que produziram a crise permanecem praticamente intactos. Costa do Marfim e Gana seguem enfrentando envelhecimento das lavouras, degradação de solos, avanço de doenças, baixa capacidade de investimento, desafios sociais e crescente instabilidade climática.

Pequenas alterações de temperatura, umidade e regime hídrico já provocam impactos desproporcionais sobre produtividade, qualidade e impactos negativos nas populações envolvidas no cultivo. E há um possível super El Niño no horizonte de 2026/2027.

O problema é que o cacau possui uma característica particularmente explosiva: sua capacidade de resposta produtiva é lenta. Diferentemente da soja ou do milho, um novo cacaueiro leva anos até atingir plena produção. Isso significa que choques climáticos tendem a produzir ciclos prolongados de volatilidade.

Possivelmente por isso o cacau tenha começado a atrair um novo perfil de capital especulativo. O mercado deixou de negociar apenas amêndoas. Passou a negociar percepção de risco climático.

Mas existe uma questão ainda mais desconfortável por trás desse processo.

O mundo parece começar lentamente a perceber que parte importante da agricultura tropical moderna foi construída sobre uma premissa que começa a deixar de existir: a abundância estrutural de clima estável.

E é exatamente aqui que o debate sobre o modelo produtivo do cacau se torna estratégico.

Grande parte da expansão recente da cadeia global continua baseada no paradigma da monocultura intensiva a pleno sol com baixa diversidade de variedades. Um modelo desenhado para maximizar produtividade de curto prazo, padronização e escala.

O problema é que esse mesmo modelo pode estar ampliando justamente as vulnerabilidades que agora começam a desorganizar o mercado mundial.

O cacau é, biologicamente, uma espécie florestal. Sua origem evolutiva está associada a ambientes sombreados, biodiversos e climaticamente estáveis. Ao expandir sistemas simplificados em regiões tropicais cada vez mais expostas a calor extremo, secas prolongadas e instabilidade hídrica, parte da cadeia pode estar acelerando sua própria fragilidade estrutural.

E aqui surge uma pergunta particularmente relevante para o Brasil: o País estaria correndo o risco de “africanizar” sua própria trajetória cacaueira?

A expressão pode soar provocativa, mas ela ajuda a revelar um dilema central.

A crise estrutural observada hoje em partes da África Ocidental não nasceu apenas das mudanças climáticas. Ela também resulta de décadas de simplificação biológica, degradação progressiva de solos, vulnerabilidade fitossanitária, baixa resiliência ecológica dos sistemas produtivos e péssimos indicadores sociais.

O mais inquietante é que sinais semelhantes começam a aparecer justamente na principal nova fronteira brasileira do cacau.

Em um estudo ainda não publicado, mas ao qual tive acesso, os dados mostram que, no Pará, mais de 60% da expansão da área cacaueira entre 2022 e 2024 ocorreu em sistemas de cultivo a pleno sol.

O dado é estratégico, porque revela que a expansão recente não vem sendo conduzida majoritariamente pela trajetória tecnológica considerada mais resiliente do ponto de vista climático, ecologicamente sustentável e territorial.

O paradoxo é evidente. Justamente quando o mercado global começa a perceber os limites econômicos e climáticos dos sistemas tropicais simplificados, parte da expansão brasileira parece caminhar na direção oposta da diversificação biológica, da construção de paisagens mais resilientes e da mitigação dos riscos sociais.

Mas existe uma questão ainda mais desconfortável por trás desse processo. Onde estiveram e onde continuam as grandes empresas globais compradoras de cacau?

Porque o atual modelo produtivo mundial não surgiu por acaso. Durante décadas, ele foi economicamente funcional para tradings, processadoras e indústrias globais e, por que não, para os consumidores de um chocolate barato.

A lógica era relativamente simples:

• volume crescente;
• matéria-prima barata;
• padronização;
• e expansão rápida de oferta.

O problema é que os custos reais desse sistema permaneceram invisíveis durante muito tempo.

A degradação dos solos, a vulnerabilidade climática, a perda de biodiversidade e a fragilidade socioeconômica dos produtores foram tratados como externalidades periféricas e não como riscos centrais do negócio. As contas dessas fragilidades ficaram com a sociedade, não com as empresas.

Agora começam a retornar para o próprio centro financeiro da cadeia.

O aspecto mais impressionante é que o próprio sistema financeiro internacional já começou a reconhecer isso.

Recentemente, análises de risco climático elaboradas pela S&P Global Ratings passaram a tratar biodiversidade, degradação de solos, vulnerabilidade hídrica e resiliência agrícola como fatores materiais de risco econômico e financeiro.

Isso representa uma mudança silenciosa, mas profunda.

Clima, biodiversidade e resiliência agrícola deixam de ocupar apenas o espaço da reputação corporativa ou da agenda ambiental. Passam a influenciar:

• crédito;
• seguros;
• valuation;
• custo de capital;
• estabilidade operacional;
• e risco de longo prazo das cadeias globais.

Isso também tem tudo a ver com a dimensão social. Ao que tudo indica, estamos entrando numa fase em que sistemas agroflorestais deixam de ser vistos apenas como alternativa sustentável e passam a funcionar como infraestrutura biológica de proteção socioeconômica da cadeia do cacau.

Isso porque sistemas agroflorestais tendem a oferecer:

• maior estabilidade microclimática;
• melhor retenção hídrica;
• redução de temperatura do solo;
• maior resiliência a extremos climáticos;
• menor vulnerabilidade fitossanitária;
• diversificação de renda;
• e potencial crescente de captura de valor via carbono, biodiversidade e rastreabilidade.

E isso torna ainda mais desconfortável a pergunta que o setor precisa começar a responder: as grandes compradoras foram apenas observadoras desse modelo… ou também suas principais incentivadoras?

Porque, mesmo após a ascensão do ESG, boa parte da lógica econômica dominante permaneceu praticamente intacta.

Continuou-se premiando escala, baixo custo e produtividade de curto prazo, muitas vezes sem alterar profundamente o desenho agronômico que sustenta a cadeia.

O paradoxo se torna inevitável. As mesmas empresas que hoje alertam sobre risco climático também ajudaram, durante décadas, a consolidar um modelo biologicamente vulnerável ao próprio clima.

O mais inquietante é que os riscos já são amplamente conhecidos. O mercado financeiro já os identifica. A ciência climática já os documenta. As empresas já possuem tecnologias de rastreabilidade e monitoramento. Os instrumentos financeiros verdes já começam a surgir.

E, ainda assim, a velocidade da transformação continua muito inferior à velocidade da deterioração climática.

Esse pode ser o verdadeiro “cisne vermelho” do cacau.

Não uma crise inesperada, mas uma crise plenamente visível que continua avançando porque os incentivos econômicos ainda permanecem excessivamente orientados por escala, volume e retorno de curto prazo.

Ao continuar expandindo sistemas simplificados em regiões climaticamente vulneráveis, parte da cadeia global pode estar criando um perigoso lock-in climático: ativos produtivos desenhados para um regime ambiental que pode não existir mais nas próximas décadas.

E o mercado ainda não parece ter compreendido completamente as implicações disso.

Porque o cacau começa a revelar algo muito maior do que uma simples crise agrícola. Ele começa a se tornar a primeira grande commodity tropical a mostrar, de forma explícita, que estabilidade climática, biodiversidade, resiliência ecológica e social deixaram de ser variáveis externas ao sistema econômico.

Elas passam a determinar o próprio valor futuro dos ativos agrícolas globais.

O Brasil pode ter diante de si uma oportunidade histórica rara. Diferentemente da África Ocidental, onde grande parte da cadeia já está consolidada sob modelos produtivos antigos e biologicamente vulneráveis, as novas fronteiras brasileiras do cacau ainda possuem escala relativamente pequena e, justamente por isso, maior capacidade de escolha tecnológica. O País ainda pode decidir qual modelo deseja construir antes que o lock-in produtivo se torne irreversível.

Isso abre espaço para que o Brasil lidere uma nova geração de sistemas cacaueiros tropicais, mais resilientes climaticamente, integrados a paisagens agroflorestais, altamente rastreáveis e apoiados nos mais avançados padrões de certificação socioambiental e produtiva do mundo.

Se conseguir alinhar produtividade, biodiversidade, carbono, rastreabilidade e inclusão social, o cacau brasileiro poderá deixar de ser apenas mais um competidor global de volume e se transformar numa referência internacional de qualidade, resiliência e valor agregado em uma das cadeias agrícolas mais pressionadas pela nova economia climática.

É exatamente aí que pode estar a maior diferença entre repetir o passado ou construir a próxima fronteira global do cacau.

Marcello Brito é diretor acadêmico na FDC-Agroambiental.