No atual contexto geopolítico de guerra tendemos a relativizar que mundo continua a se movimentar por lógicas estruturadas. No entanto, a imprescindível atenção aos impactos de curto prazo não deve ofuscar as questões que pautam o futuro global.

Durante décadas, a relação entre o Brasil e a China foi moldada por uma lógica simples: oferta e demanda. De um está, um país com abundância de terra, água e capacidade produtiva; de outro, uma economia em rápida expansão, com apetite crescente por alimentos e commodities.

Essa equação funcionou — e continua funcionando. Mas está mudando. E, desta vez, a mudança não é apenas econômica. É também política.

A eleição brasileira deste ano entra nesse contexto como uma variável relevante — não porque altere a demanda chinesa, mas porque pode redefinir como o Brasil se posiciona dentro de um sistema econômico global cada vez mais organizado em blocos, dependendo que espectro político ideológico vença a disputa.

A China que emerge hoje não é mais apenas a fábrica do mundo sustentada por mão de obra abundante. Migrando de um modelo de “dividendo demográfico” para um “dividendo de talentos”, explicado pela relação de pessoas próximas da aposentadoria atualmente com 7–8 anos de estudo para jovens entrando no mercado que ao chegar a faixa dos 60 anos terão aproximadamente 14 anos de estudo, esse esforço projeta como resultado esperado uma força de trabalho mais digitalizada, produtiva e efetiva que continua crescendo, mesmo com menos trabalhadores.

Dessa forma o país passa a reorganizar não só sua economia interna, mas também suas relações externas.

O acesso ao mercado chinês deixa de ser uma consequência natural da competitividade e passa a ser, cada vez mais, uma construção estratégica baseada em previsibilidade, integração e segurança de suprimentos.

É nesse ponto que a comparação entre o Brasil e os países da ASEAN ganha relevância.

Dentro e fora do sistema

Os países do Sudeste Asiático operam hoje dentro de uma lógica que o Brasil ainda não integrou plenamente. A participação no RCEP, a proximidade geográfica e a crescente integração industrial fazem com que essas economias estejam inseridas na arquitetura produtiva asiática, que hoje reúne 70% da juventude mundial, 63% da população e quase 60% da classe média economicamente ativa — cujo centro gravitacional é a China.

Isso não significa que a ASEAN produza mais ou melhor que o Brasil em todos os setores. Em alimentos, por exemplo, o Brasil é incomparável em escala. Mas a disputa pelo mercado chinês deixou de ser apenas sobre o que se produz. Ela passou a envolver como e de onde se produz.

A ASEAN está “dentro do sistema”. O Brasil, por ora, continua “fora — ainda que indispensável”.

A política como diferencial competitivo

É aqui que a eleição brasileira ganha peso real. A escolha de governo em 2026 pode influenciar diretamente o grau de previsibilidade institucional, a qualidade da relação bilateral com a China, o avanço (ou não) de acordos comerciais e a capacidade de reduzir o chamado “custo Brasil”.

Em um mundo organizado por cadeias produtivas e blocos econômicos, com reforço da pressão exercida pela atual visão “Trumpiana” dos USA, política externa e política econômica deixam de ser temas separados. Passam a ser fatores de competitividade.

Um Brasil mais pragmático e integrado tende a se aproximar da lógica asiática, reduzindo sua distância institucional em relação à ASEAN. Já um Brasil mais errático ou fechado reforça sua posição atual: relevante, mas periférico.

O Brasil ocupa hoje uma posição privilegiada. É um dos principais fornecedores de soja, milho e proteínas para a China, desempenhando papel central na segurança alimentar do país asiático.

Mas há um equívoco recorrente: confundir indispensabilidade com vantagem permanente.

A China não busca apenas fornecedores confiáveis. Busca também reduzir vulnerabilidades, diversificar origens e fortalecer parceiros mais integrados ao seu entorno econômico.

É nesse ponto que a ASEAN avança. Países como Vietnã e Indonésia não competem diretamente com o Brasil em escala agrícola, mas oferecem proximidade, integração e previsibilidade dentro de um bloco alinhado à China.

Além disso, esses abrem com os USA novas relações comerciais agrícolas a partir do TIFA – Trade and Investments Framework Agreement, como fez a Indonésia recentemente, o que pode nos fragilizar, pois os americanos poderão triangular com esses produtos que competem diretamente com o Brasil no mercado chinês, substituindo parte de nossas exportações ao ASEAN.

O risco invisível

O maior risco para o Brasil não é perder mercado de forma abrupta. É mais sutil — e, por isso, mais perigoso.
Trata-se da perda gradual de relevância relativa.

Mesmo mantendo volumes elevados de exportação, o País pode ver seu poder de barganha diminuir à medida que a China consolida cadeias regionais e fortalece acordos como o RCEP. Nesse cenário, o Brasil corre o risco de permanecer como fornecedor essencial, porém cada vez mais substituível na margem.

E, em mercados globais, é na margem que os preços — e o poder — são definidos.

Uma oportunidade que exige decisão política

Apesar dos riscos, o cenário também abre oportunidades. A transição chinesa reforça a demanda por alimentos de qualidade, energia limpa e cadeias seguras — áreas em que o Brasil possui vantagens claras.

Mas capturar essa oportunidade exige mais do que eficiência produtiva. Exige decisão política. Não basta produzir mais. É preciso aprofundar relações bilaterais, reduzir incertezas regulatórias, avançar em acordos comerciais e subir na cadeia de valor.

Exportar grãos continuará sendo relevante. Mas o futuro passa também por proteína processada, biocombustíveis e produtos com maior conteúdo tecnológico.

A encruzilhada brasileira

O Brasil se encontra em uma posição singular. Não lidera a inovação global como os Estados Unidos, nem integra a arquitetura produtiva asiática como a ASEAN.

Também, ao contrário da China, não vivenciamos a troca de um processo de “dividendo demográfico” para um “dividendo de talentos”, pois nosso sistema educacional continua produzindo profissionais de baixíssimo nível para todas as faixas da economia provocando uma eterna estagnação de produtividade.

Mas é, ao mesmo tempo, uma potência natural em alimentos e energia.

Essa combinação pode ser uma vantagem — ou uma armadilha.

A eleição deste ano não muda o fato de que o Brasil é essencial para a China. Mas pode definir se o país continuará sendo apenas um grande fornecedor ou se conseguirá se tornar um parceiro estratégico mais completo.

A relação entre Brasil e China entra em uma nova fase. Menos baseada em volume, mais em estratégia. Menos em vantagem comparativa estática, mais em posicionamento político e econômico.

A ASEAN já entendeu esse movimento e se posicionou dentro do sistema. O Brasil ainda decide como e se fará o mesmo.

A porteira continua aberta. Mas, no século XXI, é a política que define quem chega ao porto — e em que condições participa do jogo.

Marcello Brito é diretor acadêmico na FDC-Agroambiental.