Na expectativa de dobrar de tamanho em 2026, a agtech Sensix iniciou o ano com um novo sócio-investidor. A startup trouxe a holding RAC Participações, que controla o grupo GGF, da família Ferrarin, que é um dos maiores produtores de grãos de Mato Grosso, com mais de 100 mil hectares no estado.
Fundada em 2017, a Sensix se posiciona como uma plataforma de “agricultura de decisão”. A empresa combina dados de análise de solo, pluviometria, máquinas, sensoriamento remoto, drones e satélites para gerar recomendações operacionais e estratégicas ao produtor rural.
Entre os clientes estão grupos como SLC Agrícola (que também já investiu na empresa), Amaggi, Pedra Agroindustrial e Bioenergética Aroeira. Ao longo de sua trajetória, a startup já monitorou cerca de 3 milhões de hectares e tem mais de 10 mil fazendas cadastradas em sua base.
Em entrevista ao AgFeed, o CEO e cofundador da Sensix, Carlos Ribeiro, o cheque de R$ 1,5 milhão recebido da holding do grupo GGF marca um novo capítulo da relação entre a empresa e a Sensix: desde 2021 o grupo já era cliente e utilizava os principais módulos da plataforma da startup.
A GGF hoje é tocada pela segunda geração da família Ferrarin - os irmãos Rogério, André e Cristiano - e, segundo o CEO da startup, é um grupo com muito apetite para o uso de tecnologias no campo.
"Nosso desafio inicial com eles era fazer toda a gestão de fertilidade de solo e depois avançamos com outros serviços, como sensoriamento remoto e calibração dos dados. Mais recentemente adotaram um lançamento que fizemos, a plataforma Sensix Dash", disse Ribeiro.
Esse novo software é uma plataforma de integração de outros serviços, uma das grandes apostas da startup para 2026. O programa une dados captados em diversas plataformas de empresas distintas - Totvs, Solinftec, Climate FieldView (da Bayer) e John Deere - e os integra num mesmo dashboard.
"A GGF foi a primeira empresa a adotar essa tecnologia e, no final de 2025, mencionamos para os diretores que queríamos captar recursos e que gostamos de trazer produtores rurais para o quadro de sócios. Foi aí que a holding entrou no negócio", acrescentou Ribeiro.
“A Sensix já demonstrou, na prática, dentro da GGF, sua capacidade de escalar inteligência, conectando dados, tecnologia e pessoas em ambientes operacionais complexos”, afirmou Rogério Ferrarin, CEO da GGF, em uma nota enviada ao AgFeed. “Acreditamos muito em investir naquilo que utilizamos, confiamos e comprovamos gerar valor real no campo".
O novo investidor entra num momento em que o mercado de tecnologias no agro volta a aquecer, de acordo com a percepção de Carlos Ribeiro. Observando produtores mais otimistas e voltando a investir, a projeção é dobrar o faturamento frente a 2025 neste ano.
O CEO não entra em detalhes dos valores, mas cita que os dois últimos anos foram marcados por um crescimento baixo, mais perto da estabilidade, devido a uma retração nesse mercado.
Até 2023, o crescimento da empresa vinha em ritmo acelerado. Naquele ano, a Sensix faturou R$ 2,6 milhões, alta de 60% em relação ao ano anterior, impulsionada principalmente por clientes de grãos e fibras. A expectativa era dobrar de tamanho, mas o cenário mudou.
“2024 e 2025 foram dois anos muito difíceis em crescimento. Crescemos, mas muito abaixo do que estávamos acostumados até 2023”, disse o CEO da Sensix. Segundo ele, a combinação de queda nos preços das commodities, eventos climáticos adversos e restrição de investimentos no agro fez com que a empresa priorizasse a “sanitização da base”.
“O que focamos foi entender, dentro da base, quais clientes tinham mais aderência ao modelo. Alguns saíram, outros entraram e outros expandiram muito, como GGF e SLC”, afirmou.
É nessa expectativa de retomada que a Sensix acelerou, no segundo semestre de 2025, uma mudança estratégica. A empresa deixou de apostar apenas na venda de software como serviço (SaaS) e passou a estruturar um ecossistema que combina tecnologia, metodologia e acompanhamento humano.
“Um produtor de 500 hectares compra software, não sabe usar, passa um ano e cancela o serviço. A tecnologia sozinha não faz milagre. Precisa de pessoas e processos rodando junto”, disse Ribeiro.
Para além de novos produtos como o Sensix Dash, a empresa deu seus primeiros passos em um modelo de assessoria em agricultura de decisão, no qual profissionais treinados pela Sensix acompanham presencialmente as fazendas, configuram sistemas, treinam equipes e ajudam a transformar dados em rotina operacional.
Esse novo modelo é também a base da estratégia de crescimento para os próximos anos. Inspirada no formato de assessores autônomos do mercado financeiro, popularizado pela XP, a Sensix criou uma rede de assessores credenciados, que atuam regionalmente e dividem a receita com a empresa.
“Saímos do 'SaaS puro' e hoje nos posicionamos como um ecossistema de soluções e serviços. O assessor é formado por nós, treinado na metodologia, usa nossa marca e trabalha de forma exclusiva na camada de dados", afirmou o executivo.
Atualmente, a Sensix conta com seis assessores em regiões estratégicas, um no Rio Grande do Sul, atendendo principalmente produtores de arroz, outro em Rio Verde, cobrindo todo o sudoeste de Goiás, um em Rondonópolis (MT), outro em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, e outros dois no sudeste: um no Triângulo Mineiro e o último no interior de São Paulo.
A meta é chegar a cerca de 30 assessores até o final de 2026, o que, segundo o CEO, permitiria escalar a operação sem a necessidade de inflar a estrutura interna.
“O atendimento presencial é fundamental. Escalar a Sensix sem escalar pessoal é justamente por meio dessa rede de credenciados”, disse o CEO.
Esse profissional pode ser consultor agronômico independente, mas se for oferecer alguma plataforma digital para o cliente, deve representar de forma exclusiva a Sensix.
Ribeiro explica que a startup vira "sócia" na carteira que ele atende, num modelo em que o faturamento com o cliente é dividido por igual entre a Sensix e o assessor.
Outra avenida de crescimento, esta ainda de forma mais embrionária, se dá nos Estados Unidos. Desde 2024 a companhia tem dado seus primeiros passos lá fora e, nesse momento, possui alguns early adopters - produtores testando a tecnologia.
"Ainda não bolamos a estratégia comercial lá, mas estamos vendo como adaptar a tecnologia. Em 2026 vamos testar e validar ainda mais, mas com menos energia nessa estratégia de internacionalização. O mercado americano está mais retraído até que o brasileiro, então é um momento bom para 'afiar o machado'", comentou.
A entrada da GGF como sócia acontece justamente nesse ponto de inflexão. Segundo Ribeiro, a empresa tem priorizado, nos últimos cinco anos, a entrada de produtores como investidores, numa lógica de capital paciente e validação prática da solução.
“A GGF entra bem no meio desse olho do furacão. Eles foram clientes, adotaram consistentemente a plataforma, foram os primeiros a usar o Dash e, no fim do ano, viraram sócios”, afirmou. “Gostamos muito dessa pegada de produtores como sócios, porque além do smart money, eles colocam capital e validam o produto no campo".
A agtech havia captado cerca de R$ 9 milhões em aportes desde o capital inicial em 2017. Naquele ano, a Sensix captou R$ 600 mil com a Algar. Em 2020, entre uma rodada e um follow-on, captou mais R$ 2,65 milhões com a Domo e a Silver.
Em 2023 a SLC entrou na jogada, e liderou uma rodada de R$ 4,9 milhões, que também contou com a Domo e outros investidores que aportaram capital pela plataforma de crowdfunding Captable. No caso da SLC, Ribeiro conta que a empresa primeiro se tornou investidora e depois cliente.
Resumo
- A Sensix trouxe a RAC Participações, holding do grupo GGF, como nova sócia após um aporte de R$ 1,5 milhão, reforçando a estratégia de ter produtores no capital
- A agtech aposta em novo software e modelo de assessores credenciados para escalar operação. Ideia é chegar a 30 profissionais em regiões estratégicas do agro no ano
- Após dois anos de crescimento fraco, a empresa projeta dobrar o faturamento em 2026, apoiada em clientes como GGF e SLC e em uma base que já soma 3 milhões de hectares monitorados