No agronegócio, onde margens apertadas e operações pulverizadas exigem precisão quase cirúrgica, há um tipo de empresa que cresce longe dos holofotes: aquela que organiza os bastidores. É nesse espaço - entre notas fiscais, contratos de frete, auditorias e relatórios de royalties - que a startup Sou AgroSoluções construiu seu negócio.

Criada em 2018, em Goiânia, a empresa de tecnologia voltada exclusivamente ao agro atua com duas plataformas próprias: uma focada em gerenciar o processo logístico de distribuidores, revendas, sementeiras e cooperativas e outra que administra todo processo de reporte de royalties agrícolas para empresas de germoplasma e biotecnologia.

Essa mistura é a aposta da empresa para dobrar de tamanho em 2026. Segundo revelou o CEO e confundador da Sou AgroSoluções, Valquer Novaes, ao AgFeed, a projeção é faturar R$ 5 milhões neste ano, um avanço considerável frente aos R$ 2,2 milhões apurados em 2025.

A empresa nasceu da experiência prática de Novaes e de seu sócio Paulo Soares, que trabalharam por três anos na SeedCorp|HO, atuando nas áreas de logística, vendas e gestão de royalties.

Ali, convivendo com a complexidade da distribuição de sementes e com os primeiros anos de reporte de royalties da soja Intacta (IPRO), perceberam que a dor operacional não era exclusiva de uma empresa.

O que era feito, segundo ele, era quase artesanal. A organização esses processos passava por planilhas, automações internas e ajustes manuais. “Eu ia tentando criar um sistema dentro das ferramentas”, conta.

Eles se uniram a dois colegas da Universidade Federal de Goiás, Phelipe Alves e Vinicius Nunes - mestres em ciência da computação -, e criaram as duas plataformas: o SafraControl, voltado à gestão logística na distribuição de insumos, e o AgroRoyalties, focado no reporte de royalties.

O negócio rendeu frutos, e hoje Novaes pode se orgulhar de uma carteira recheada de gigantes do agronegócio brasileiro: Amaggi, Basf, AgroGalaxy, Agro Amazônia, Uniggel, Sinova (antiga Sinagro) e sementeiras como a própria SeedCorp|HO, a primeira a apostar na startup, e Sementes São Francisco.

Segundo Novaes, a empresa cresceu de forma 100% orgânica desde a fundação. "A carteira mostra a força de uma empresa que desde 2018 atua com pés no chão, e sem nenhum cancelamento dos serviços até hoje. E isso que começamos sem investimento nem dos próprios sócios. Nosso plano era ser demitido para garantir uma segurança financeira. A empresa não mandou embora, mas foi o primeiro cliente", disse.

Sem conhecimento sobre o mundo e dialeto típico do mundo das startups - pitchs, apresentações, roadshow, valuation - apostaram no conhecimento da dor dos clientes para tocar a empresa. Agora, a companhia se prepara para trazer investidores estratégicos.

"Não captamos nenhum recurso até hoje, mas olhamos com muita cautela para parceiros. A meta até o final do ano é ter pelo menos um investidor dentro da empresa", contou Valquer Novaes.

O modelo de negócio da empresa é baseado em assinatura nos dois softwares, e no caso do SafraControl, ainda conta com um custo de instalação e treinamento para que a plataforma esteja funcionando.

Nesse software, Novaes explica que a proposta é organizar toda a esteira operacional da distribuição — da montagem da carga à auditoria de frete. Em um momento em que cada ponto percentual vale no agro e distribuidoras e revendas enfrentam margens mais comprimidas, eficiência virou prioridade.

“Mitigar até 15% de perdas que podem acontecer, seja por compliance, auditoria, governança, contratando frete errado, pagando mais caro”, afirma Novaes.

Na prática, a Sou AgroSoluções consegue integrar com outros ERPs (como de empresas como Totvs e Siagri), desde a montagem da carga até a liberação, passando pela rota e todo o sistema de faturamento e notas.

Na prática, o sistema funciona como uma esteira colaborativa. A logística monta a carga e inicia a rota, o time de faturamento realiza a troca de notas, o financeiro acompanha pagamentos e os gestores aprovam etapas críticas. Cada área participa do processo até que a carga chegue ao cliente final.

“Desde a montagem, quando iniciamos com a rota, tem vários departamentos trabalhando. É como uma esteira de construção de carro”, explica.

O foco exclusivo no agro é outro diferencial apontado pela companhia. “Nos diferenciamos em relação a outras empresas de tecnologia que tentam entender o agro como unidade de negócio. Nós somos exclusivos e continuaremos exclusivamente por muito tempo”, afirma.

Já no AgroRoyalties, a dor é outra - e envolve cifras ainda maiores. Segundo o CEO, a empresa gerenciou mais de R$ 1 bilhão em royalties na safra 2025/2026, somando os clientes. Em alguns casos, um único cliente paga mais de R$ 100 milhões por ciclo.

O processo é complexo. Sementeiras precisam reportar todas as vendas às detentoras de biotecnologia, como Bayer e Corteva, sob risco de multa e correção caso haja inconsistências. Historicamente, boa parte desse fluxo era feito por meio de planilhas e uploads manuais.

“Esse processo é complexo, porque envolve particularidades. Nem toda nota precisa ser reportada da mesma forma, tem bonificação, tem exceções”, explica.

No ano passado, a Bayer convidou a startup a integrar sua plataforma diretamente ao sistema global de reporte de biotecnologia, via API. A startup passou a enviar as informações automaticamente, sem necessidade de upload manual.

“Fomos convidados pela Bayer para integrar nossa solução de gestão de royalties ao sistema deles. Somos a primeira empresa conectada diretamente para report de vendas”, afirmou.

A plataforma em questão é o ITS, que faz parte do Conexão Biotec, canal oficial de atendimento ao cliente para esses produtores de soja que usam tecnologias como a Intacta, da Bayer, e a Enlist e Conkesta, da Corteva.

Segundo ele, há um interesse da própria multinacional em ampliar esse modelo. “A Bayer não quer que ninguém pague royalties a mais. Quer que pague o justo, dentro do prazo”, cita.

Resumo

  • Fundada em 2018, a startup desenvolveu duas plataformas — SafraControl e AgroRoyalties — para organizar logística de insumos e reporte de biotecnologia em um setor ainda marcado por controles manuais
  • Empresa atende gigantes como Amaggi, Basf e AgroGalaxy e afirma ter crescido sem captação externa até hoje
  • Em royalties, já gerencia mais de R$ 1 bilhão por safra e se tornou a primeira empresa integrada via API ao sistema global da Bayer, automatizando o reporte de tecnologias como Intacta