Quando o universo digital passava longe das propriedades rurais, um grupo de estudantes de engenharia agronômica no Paraná apostou que uma “solução de TI” poderia fazer a diferença no setor.

“Nós tivemos o privilégio de ter um contato com a informática antes da maioria do pessoal. E procurávamos algumas coisas aplicadas, softwares aplicados ao agro, mas não encontrávamos”, lembra Manfred Leoni Schmid, hoje empresário do setor de tecnologia, mas que em 1989 era apenas mais um desses estudantes curiosos.

Em entrevista ao AgFeed, ele disse que assim surgiu a ideia de montar a Agrotis, uma empresa que passaria a desenvolver softwares customizados para o agro. Dos seis sócios originais, sobraram tr}es, mas apenas Manfred segue na operação da empresa.

“A nossa primeira ideia foi um sistema de receituário agronômico, um compêndio eletrônico para facilitar a vida do engenheiro agrônomo para recomendar o melhor defensivo agrícola e emitir receita”, contou Schmid, que além de sócio fundador, segue como CEO da Agrotis.

O primeiro cliente – que segue na carteira até hoje - foi a Cooperativa de Pedrinhas Paulista, do interior de São Paulo, mas rapidamente, eles passaram a atender diversas revendas de insumos agrícolas.

Manfred Schmid se orgulha em dizer que a empresa foi pioneira em softwares especializados no agronegócio. Além do receituário, outras ferramentas agronômicas foram sendo lançadas, até chegar aos sistemas de gestão.

“O termo ERP nem existia na época que a gente lançou o primeiro sistema para emitir nota, controlar estoque e calcular impostos. A maioria dos primeiros clientes chegou, por causa disso, na revenda de insumos”.

Atualmente, a Agrotis atua em três grandes frentes. O carro-chefe é um ERP próprio. Além disso, fez uma parceria com a SAP e “tropicalizou” uma solução da empresa alemã, adaptando o sistema global às particularidades do agro brasileiro.

A terceira parte do portfólio é a plataforma agrícola, que contempla produção rural (safras, talhões, produtividade), receituário agronômico, produção e beneficiamento de sementes, armazenagem de grãos, algodoeiras, agroindústrias como fertilizantes e rações.

A empresa faz ainda uma integração entre os dados agronômicos e a gestão financeira, fiscal e contábil

“O agro tem muitas características que um ERP mundial como o SAP não contempla. Então a gente tem que tropicalizar. Por exemplo, na Alemanha não tem comissão. Porque é cultural, então a gente tem que colocar comissões. Mas comissões do mercado em geral, do comércio, é uma coisa. Comissões do agro é muito diferente, porque depende da sazonalidade”, explicou.

A forte presença de operações de barter nas empresas do agronegócio brasileiro também seria um item que não está contemplado em softwares globais, segundo ele.

Entre as clientes atuais da empresa estão marcas como SLC Agrícola, C.Vale e Lar Cooperativa Agroindustrial.

Plano de crescimento

A Agrotis vinha crescendo em média 30% ao ano, até 2021, mas no ano passado o ritmo ficou abaixo desse patamar. Segundo o CEO, a receita em 2025 totalizou R$ 70,6 milhões, o que representou um crescimento de 19,6% sobre o ano anterior.

“Esses três últimos anos foram os mais baixos de crescimento, porque são justamente os anos de crise agrícola. De 2023 para 2024, que é o ponto mais baixo da crise, crescemos 13,65% e daí a gente voltou para a casa do vinte agora. A gente espera ir retomando, não sei se 30%, mas 25% pelo menos”, afirmou Schmid.

Para seguir competindo com um número cada vez maior de empresas de tecnologia, o executivo diz que a especialização total no agro e o conhecimento profundo do setor, são os principais diferenciais.

Ele afirma que especialmente em ciclos mais difíceis para o produtor rural, como agora, a tendência é apostar em soluções mais seguras, maduras e confiáveis.

Internacionalização rumo aos R$ 100 milhões

Na próxima quinta-feira, 26 de fevereiro, a Agrotis vai reunir os 300 funcionários para celebrar os 35 anos da empresa. Uma das novidades será o anúncio do que o CEO chama de “internacionalização” da companhia, que começa com a abertura de uma unidade no Paraguai.

“A gente está sendo levado pelo nosso mercado para lá, porque muitas empresas clientes nossas estão abrindo filial ou coligadas lá. E querem sistema”, explicou.

A empresa já trabalha na adaptação dos softwares ao país vizinho, mas Schmid diz que está sendo bem mais simples do que a “tropicalização” feita para o Brasil.

A presença no Paraguai deve ajudar a Agrotis a atingir as metas de seu plano estratégico, que prevê um crescimento próximo de 25% em 2026, quando a empresa espera contar principalmente com ganho de market share e “maturidade dos produtos”.

O plano prevê um faturamento de R$ 100 milhões em 2027. “A gente pretende crescer nos próximos cinco anos na média de quase 24%. Isso com o pé no chão, cálculo de engenheiro, não de financista. Pode ser que a gente acelere isso, descubra formas de acelerar, mas dentro de uma normalidade”, disse o CEO.

Ele garante que a empresa vem avançando em governança e visão de longo prazo, já possuindo conselho de administração, assembleia de acionistas e auditorias independentes. O acesso ao mercado de capitais, inclusive um futuro IPO, não estão descartados, mas ainda seria “um sonho, sem viabilidade de curto prazo”.

A empresa também acaba de se mudar para uma nova sede, em Curitiba, e pretende fortalecer a cultura interna, reduzindo o home office a partir deste movimento.

Reforma tributária e risco de crédito

Alguns temas atuais devem ser oportunidades de ganho de novos clientes, na visão de Schmid. Um deles é a Reforma Tributária, que começa a entrar em vigor, gradualmente, o que vai obrigar, por exemplo, a cada vez mais os produtores rurais deixarem de operar na pessoa física e adotarem o modelo de pessoa jurídica.

“Hoje, apenas cerca de 20% dos produtores rurais utilizam sistemas informatizados adequados, enquanto 80% ainda operam de forma informal ou simplificada”, ressaltou.

Ele acredita que haverá uma demanda por soluções mais simples, intuitivas e apoiadas por IA (inteligência artificial). Nesse contexto, a Agrotis estuda o desenvolvimento de um ERP concebido especificamente para esse novo perfil de produtor, menos habituado à burocracia tradicional.

A empresa também tem acompanhado o desafio do setor de insumos em conceder crédito e mitigar riscos, em meio ao aumento das recuperações judiciais no agro.

Schmid cita o exemplo de clientes do Rio Grande do Sul, que venderam insumos a produtores que tiveram duas safras frustradas. “Negar crédito pode inviabilizar a recuperação desse produtor”, pontuou. Por isso, defende que sistemas mais sofisticados, principalmente baseados em IA, podem ajudar a avaliar garantias, mitigar riscos e estruturar melhor as operações de troca e financiamento.

Para a Agrotis, segundo ele, o aumento das RJs tem tido efeito neutro. “Quando uma empresa sai do mercado, outras assumem seus ativos e operações e muitas já são nossos clientes. O fluxo de compra de insumos e entrega de grãos continua, sustentando a demanda por sistemas de gestão”.

Além das soluções em gestão, a empresa vem trabalhando em outras frentes, como a contagem automática de sementes por imagem, “uma dor do setor”, segundo ele, para avaliar qualidade e vigor.

Resumo

  • Agrotis inicia operação no Paraguai acompanhando clientes e mira faturamento de R$ 100 milhões até 2027
  • Com sede em Curitiba, empresa aposta em ERP agrícola, integração de dados e soluções com IA para gestão e crédito rural
  • Plano de crescimento prevê avanço médio de 24% ao ano, apoiado em governança, market share e maturidade dos produtos