A reação do mercado financeiro à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi estrondosa como há muito não se via. Contudo, enquanto a maioria lamentou, algumas gigantes do agro sorriram.
O Ibovespa recuou 13,88%, aos 176.608,23 pontos, segundo dados da B3 atualizados às 17h01 desta segunda-feira. 26 de outubro.
Já as ações da maior produtora mundial de celulose de eucalipto, a Suzano, chegaram a subir mais de 11% durante o dia e fecharam em 10,61%.
Por sua vez, os BDRs da JBS, maior empresa de proteínas animais do mundo, também avançaram, encerrando a sessão com valorização de 9,37%.
Na outra ponta, as ações da Cosan caíram 44,62%, enquanto a Camil Alimentos recuou 26,92% e a 3tentos, 22,21%.
O Ibovespa chegou a cair mais de 17% durante a manhã, o que acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas acentuadas.
A última vez que a B3 havia acionado a trava foi em 18 de março de 2020, durante a turbulência provocada pelo início da pandemia de Covid-19.
A reação à vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) foi acompanhada por forte valorização do dólar, que bateu em R$ 5,60 em determinados momentos do pregão até fechar a R$ 5,40.
A reação dos investidores explica-se pelas perspectivas para a política fiscal, a trajetória da dívida pública e os juros.
No agronegócio, o movimento atingiu de maneira desigual empresas exportadoras, produtoras de commodities e companhias ligadas à distribuição de insumos.
Suzano e JBS na contramão
Por volta do meio da tarde, as ações da Suzano (SUZB3) acumulavam valorização próxima de 11,3%, enquanto o Ibovespa registrava queda de aproximadamente 14,9%.
Com grande parte de suas receitas vinculada às exportações de celulose, a Suzano foi favorecida pela valorização do dólar, que eleva o valor em reais das vendas realizadas no exterior.
O papel estava cotado a R$ 47,63 na atualização das 17h01, após o fechamento, com alta de 10,61%.
Outra companhia do setor de papel e celulose, a Klabin, também apresentou desempenho positivo. Suas ações ordinárias (KLBN3) estavam cotadas a R$ 3,89, com valorização de 5,14%.
Na indústria de proteína animal, os BDRs da JBS (JBSS32) também destoaram do movimento predominante na Bolsa.
A companhia, que transferiu sua listagem principal para os Estados Unidos, possui operações de produção e processamento de proteínas na América do Norte, América do Sul, Europa e Oceania.
A valorização do dólar também influencia a cotação em reais de seus BDRs, que representam ações negociadas no mercado americano. Os recibos estavam cotados a R$ 67,02 às 17h01, com valorização de 9,37%.
Enquanto a JBS avançava, a MBRF, formada pela combinação dos negócios de Marfrig e BRF, registrou perdas acentuadas. Os papéis da companhia chegaram a cair mais de 15% durante o pregão. Na atualização das 17h01, estavam cotados a R$ 16,57, com desvalorização de 11,01%.
Cosan lidera quedas
A Cosan (CSAN3) protagonizou a maior desvalorização entre as empresas do agronegócio acompanhadas. Suas ações fecharam negociadas a R$ 2,88, queda de 44,62%.
A holding possui participações em negócios de energia, logística e distribuição de combustíveis, incluindo operações ligadas à cadeia sucroenergética e ao transporte ferroviário de commodities agrícolas.
A pressão sobre os papéis está relacionada à perspectiva de juros mais elevados por mais tempo, cenário especialmente desfavorável para companhias com alto endividamento.
Outra queda expressiva foi registrada pela Camil Alimentos (CAML3), que perdeu 26,92%, com cotação de R$ 4,86.
A companhia atua no processamento e comercialização de alimentos, incluindo arroz, feijão, açúcar e massas, com operações no Brasil e em outros países da América do Sul.
Pressão nas agrícolas
Entre as empresas ligadas diretamente à produção agrícola, a 3tentos (TTEN3) registrou uma das quedas mais acentuadas.
A companhia gaúcha, que atua na distribuição de insumos, originação de grãos e processamento industrial de soja, chegou a perder mais de 24% durante o pregão. No encerramento do pregão, suas ações estavam cotadas a R$ 11, com desvalorização de 22,21%.
A Boa Safra (SOJA3), especializada na produção e comercialização de sementes de soja, também figurou entre as maiores perdas. Seus papéis chegaram a cair mais de 23% durante o dia e estavam cotados a R$ 6,89 na atualização final, queda de 17,58%.
A Vittia (VITT3), fabricante de fertilizantes especiais e defensivos biológicos, perdeu 18,93%, com cotação de R$ 2,87.
Na indústria de equipamentos para armazenagem de grãos, a Kepler Weber (KEPL3) recuou 17,30%, com suas ações cotadas a R$ 6,50.
A BrasilAgro (AGRO3), que combina produção agrícola com aquisição, desenvolvimento e comercialização de propriedades rurais, chegou a registrar queda superior a 11% durante o pregão. Seus papéis estavam cotados a R$ 17,73, com perda de 7,37%.
Já a SLC Agrícola (SLCE3), uma das maiores produtoras de soja, milho e algodão do País, apresentou uma das menores quedas entre as companhias acompanhadas, de 0,23%, com suas ações negociadas a R$ 17,45.
Sucroenergéticas também recuam
No setor sucroenergético, a Raízen (RAIZ4) fechou a R$ 0,34 às 17h01, com desvalorização de 20,93%. A companhia, controlada por Cosan e Shell, atua na produção de açúcar, etanol e bioenergia, além da distribuição de combustíveis.
A Jalles Machado (JALL3), produtora de açúcar, etanol e energia elétrica a partir da cana-de-açúcar, perdeu 17,82%, com suas ações cotadas a R$ 2,49.
A São Martinho (SMTO3), que também atua na produção de açúcar, etanol e bioenergia, chegou a cair mais de 15% urante o pregão. Seus papéis estavam cotados a R$ 20,01, com recuo de 4,94%.
Resumo
- B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020, durante a pandemia
- Dólar chegou a R$ 5,60 e favoreceu companhias com receitas vinculadas ao mercado internacional
- Sementes e insumos sob pressão: Boa Safra caiu 17,58%, Vittia perdeu 18,93% e Kepler Weber, 17,30%