De olho na possibilidade de melhora do cenário macroeconômico brasileiro, especialmente com a perspectiva de redução dos juros, investidores estrangeiros estão demonstrando maior interesse por ações de empresas brasileiras dos setores de proteína animal e agronegócio.
Mas, antes de ampliar suas posições nessas companhias, eles querem respostas para algumas questões que podem definir o desempenho dos dois setores ao longo de 2027 – e também nos próximos anos.
Qual será a intensidade do El Niño e seus impactos sobre a produção agrícola? Até onde pode chegar a expansão da indústria de etanol de milho? E quando os frigoríficos começarão a colher os frutos de uma recuperação do ciclo da carne bovina nos Estados Unidos?
Esses foram alguns dos questionamentos que dominaram as conversas de um roadshow realizado pelo Itaú BBA na Europa, no qual representantes do banco de investimentos se reuniram com investidores para apresentar e discutir as perspectivas do agronegócio e também do setor de alimentos e bebidas.
Em relatório divulgado após os encontros, assinado pelo time de research de agro do banco de investimentos, ficou evidente que há um cenário de contrastes.
De um lado, cresce o interesse pelas empresas brasileiras, diante da possibilidade de queda dos juros de longo prazo e de uma melhora das condições macroeconômicas.
De outro, os investidores ainda demonstram cautela em relação a fatores que podem afetar a rentabilidade dessas companhias, como os efeitos do El Niño sobre a produção agrícola e a trajetória dos preços das commodities.
“De maneira geral, ainda observamos uma exposição reduzida dos investidores aos dois setores, embora a demanda esteja aumentando diante da possibilidade de uma inflexão no ciclo da pecuária bovina dos Estados Unidos”, disse o Itaú BBA.
A perspectiva de recuperação do ciclo da carne bovina nos Estados Unidos foi um tema que concentrou boa parte das conversas com os investidores europeus.
"Os investidores estão cada vez mais interessados em se posicionar antes da esperada melhora do ciclo da carne bovina nos Estados Unidos", relatou o banco de investimentos.
“Houve discussões relevantes sobre a trajetória das margens da indústria americana de carne bovina, a sustentabilidade da recuperação esperada e até que ponto a retenção de bovinos em andamento poderia adiar o ponto de inflexão do ciclo”, emendou o Itaú BBA.
A principal preocupação, entretanto, é que o mercado de carne de frango passe por uma deterioração antes que a recuperação da carne bovina americana se concretize plenamente.
Esse desencontro entre os ciclos das duas proteínas poderia comprometer o desempenho dos frigoríficos justamente no momento em que os investidores esperam uma melhora de seus resultados.
"Esse cenário poderia pressionar os resultados das companhias durante o período de transição, especialmente se os possíveis efeitos negativos do El Niño sobre a produtividade agrícola brasileira começarem a se manifestar", apontou o Itaú BBA.
Outro fator que entrou nas discussões foi o processo de retenção de bovinos nos Estados Unidos para recomposição do rebanho, que pode prolongar a restrição na oferta de animais para abate e adiar a recuperação das margens dos frigoríficos.
Nesse contexto, duas companhias brasileiras concentraram as atenções: JBS e MBRF.
Segundo o Itaú BBA, a MBRF foi frequentemente considerada pelos investidores uma "alternativa atraente" à JBS, principalmente por seu perfil de alavancagem financeira e pela maior exposição à recuperação do mercado americano de carne bovina.
A companhia também foi vista pelos investidores como uma possível alternativa para capturar o movimento de possível queda dos juros no Brasil e índice beta relativamente menor – métrica financeira que mede a volatilidade ou o risco sistemático de um ativo em relação ao restante do mercado –, considerando seu nível de alavancagem um pouco acima da média histórica e sua exposição à recuperação das margens da indústria de carne bovina dos Estados Unidos.
Já a JBS despertou interesse de investidores que pretendem iniciar ou aprofundar o acompanhamento da companhia, com questionamentos sobre alocação de capital, transição da gestão – Wesley Batista Filho assumirá o cargo de CEO global da companhia no lugar de Gilberto Tomazoni a partir de janeiro do ano que vem – e o patamar de margens que poderá ser alcançado em um cenário de normalização do ciclo.
Apesar do interesse pelas duas empresas, a JBS continua sendo a preferência do Itaú BBA entre as companhias de alimentos e bebidas acompanhadas pelo banco.
El Niño e etanol de milho
Se no segmento de proteínas as atenções estão voltadas principalmente para o ciclo da pecuária americana, no agronegócio as discussões com os investidores europeus foram dominadas por dois assuntos: os possíveis impactos do El Niño sobre a produção agrícola e a expansão da indústria brasileira de etanol de milho.
No caso do fenômeno climático, a preocupação vai além de eventuais perdas de produtividade nas lavouras. Os investidores também procuram entender como uma redução na oferta de produtos agrícolas poderia pressionar os preços das commodities e, consequentemente, a inflação dos alimentos em 2027.
O Itaú BBA relatou que, por enquanto, os investidores permanecem "cautelosos" em relação aos possíveis impactos do El Niño sobre os mercados de grãos, açúcar, etanol e proteínas.
"Os investidores buscaram avaliar a magnitude do atual fenômeno climático em comparação com o episódio de 2015/2016 e entender se a intensidade do noticiário reflete um risco efetivamente maior de interrupções na oferta agrícola", destacou o banco.
Além de tentar dimensionar os riscos climáticos, os investidores também questionaram até que ponto os avanços tecnológicos na agricultura e os ganhos de produtividade registrados nos últimos anos poderiam ajudar a reduzir eventuais prejuízos nas lavouras.
Outro ponto discutido foi o intervalo entre os impactos climáticos sobre a produção e seus reflexos nos preços dos alimentos, especialmente diante da possibilidade de as empresas do setor enfrentarem dificuldades para repassar aumentos de custos aos consumidores.
As preocupações, portanto, não ficaram restritas às companhias diretamente envolvidas na produção agrícola.
"O tema despertou interesse de investidores de diferentes setores, com implicações que vão além dos produtores agrícolas, alcançando a logística, a dinâmica dos mercados de diesel e biodiesel e os bancos expostos ao ciclo de crédito do agronegócio", afirmou o Itaú BBA.
Se o El Niño aparece como um fator de risco para o desempenho das empresas, a expansão do etanol de milho no Brasil representa uma transformação estrutural que também vem despertando a atenção dos investidores internacionais.
O avanço da indústria do biocombustível foi outro tema recorrente nas reuniões, principalmente pelo potencial de crescimento do setor e pela competitividade de custos em relação ao etanol produzido a partir da cana-de-açúcar.
Os investidores procuraram entender como a expansão das usinas poderá alterar a dinâmica de oferta e demanda do milho no Brasil e quais serão os efeitos desse movimento sobre os mercados de açúcar e etanol no longo prazo.
"As discussões incluíram os efeitos sobre a disponibilidade de milho, as exportações de DDG (grãos secos de destilaria, coproduto da produção de etanol de milho) e as perspectivas de longo prazo para os produtores de açúcar e etanol", relatou o Itaú BBA.
A velocidade de implementação da Lei do Combustível do Futuro e seus possíveis reflexos sobre a demanda por biocombustíveis no Brasil também entraram no radar dos investidores.
Em meio às discussões sobre o setor, uma companhia brasileira do agro conseguiu despertar interesse especial durante o roadshow: a 3tentos.
Segundo o Itaú BBA, a companhia gaúcha teve uma recepção positiva entre os investidores europeus. “Com alguns investidores demonstrando interesse em analisar a companhia mais detalhadamente e, potencialmente, estabelecer contato com sua administração.”
Esse interesse, porém, ainda esbarra nas incertezas sobre a recuperação da rentabilidade da indústria de processamento de soja.
O Itaú BBA avaliou que a volatilidade recente da 3tentos tem limitado um otimismo maior em relação à companhia, pelo menos até que surjam sinais mais claros de recuperação das margens de esmagamento da soja.
Mesmo diante desse cenário, a 3tentos continua sendo a ação preferida do Itaú BBA entre as empresas do agronegócio acompanhadas pela instituição, sinalizou o banco no relatório.
Possibilidades à frente
De maneira geral, o Itaú BBA concluiu que “alguns investidores” demonstraram disposição crescente para olhar além da volatilidade dos resultados de curto prazo e se posicionar diante de uma possível melhora do ciclo econômico doméstico.
Entre os principais catalisadores discutidos estiveram novas quedas dos juros de longo prazo, evidências mais claras de que as margens da indústria americana de carne bovina atingiram seu ponto mais baixo, a estabilização dos fundamentos do mercado de carne de frango e uma maior visibilidade sobre os efeitos do El Niño na produção agrícola.
“Nesse cenário, a seleção de ações continua sendo fundamental, uma vez que companhias com balanços mais sólidos, geração de caixa mais resiliente e catalisadores operacionais identificáveis provavelmente estarão mais bem posicionadas para apresentar desempenho superior durante a transição”, sinalizou o banco.
No entanto, como os investidores continuam cautelosos sobre possíveis impactos do El Niño sobre os mercados de grãos, açúcar e etanol e proteínas, o Itaú BBA acredita “que será necessária uma maior clareza sobre esses efeitos antes que os investidores adotem uma visão mais otimista no curto prazo, o que justifica, por enquanto, a exposição limitada ao setor.”
Resumo
- Investidores estrangeiros demonstram interesse crescente pelo agro brasileiro, mas ainda mantêm exposição reduzida ao setor, diz Itaú BBA após roashow na Europa
- El Niño e expansão do etanol de milho dominaram discussões sobre o agro: 3tentos foi destaque
- Recuperação da carne bovina nos EUA desperta interesse por JBS e MBRF, mas incertezas sobre o ciclo ainda geram cautela