Um dos primeiros projetos em escala industrial do mundo para produção de fertilizantes nitrogenados a partir de hidrogênio verde deu mais um passo em sua jornada para tirar, literalmente, fertilizantes da água.

A Atlas Fertilizantes anunciou o início da etapa final do projeto de engenharia de sua futura fábrica em Uberaba (MG), orçada em US$ 1,1 bilhão e com previsão de entrar em operação comercial em 2031.

Gustavo Horbach, com ampla experiência no setor de fertilizantes, será o Head Global de Engenharia e Projetos.

A capacidade anual prevista é de 530 mil toneladas de nitrato de amônio. Segundo a empresa, a iniciativa será pioneira mundial nessa escala de produção.

No Paraguai, a ATOME desenvolve outro projeto de US$ 665 milhões para produzir 260 mil toneladas anuais do mesmo tipo de insumo, cerca de metade da capacidade anunciada pela empresa brasileira.

O empreendimento combina uma tecnologia química centenária com o uso de energia renovável para produzir um dos nutrientes mais importantes da agricultura brasileira.

"Vamos produzir 530 mil toneladas de nitrato de amônio", afirmou Lieven Cooreman, CEO da Atlas Fertilizantes, em entrevista ao AgFeed durante o AgTech Meeting 2026, realizado em Piracicaba (SP).

O diferencial está na origem do hidrogênio utilizado na fabricação do fertilizante. Atualmente, a indústria produz amônia predominantemente a partir de hidrogênio obtido de combustíveis fósseis, especialmente gás natural.

No projeto da Atlas, a eletricidade gerada por fontes solar e eólica será utilizada na eletrólise da água, processo que separa suas moléculas em hidrogênio e oxigênio.

O hidrogênio verde será combinado ao nitrogênio extraído do ar para produzir amônia, por meio do processo Haber-Bosch. Parte dessa amônia será convertida em ácido nítrico, que reage com outra parcela da amônia para formar nitrato de amônio.

O resultado é um fertilizante quimicamente equivalente ao convencional, mas produzido sem depender do gás natural como matéria-prima para obtenção do hidrogênio.

"O que é totalmente inovador é fazer esse mesmo nitrato a partir de hidrogênio verde, com base em energia renovável aplicada à água", explicou Cooreman.

A unidade poderá produzir 225 mil toneladas anuais de amônia e 42 mil toneladas de hidrogênio verde. Segundo a empresa, o projeto poderá evitar a emissão de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas de CO₂ equivalente por ano.

A fábrica terá demanda prevista de 300 megawatts de energia renovável, com fornecimento contratado à Casa dos Ventos, e prevê captar 800 metros cúbicos de água por hora do Rio Grande, localizado a cerca de dois quilômetros do terreno.

O volume equivale a 19,2 milhões de litros por dia, caso a captação ocorra continuamente na capacidade prevista.

Segundo Cooreman, a retirada representará menos de 1% da vazão do rio. A empresa informou que já obteve autorização para o uso da água.

Contratos vinculantes

A etapa final de engenharia permitirá refinar o orçamento de investimento e definir as especificações técnicas necessárias à estruturação financeira do empreendimento.

A companhia já possui contratos vinculantes de compra futura, conhecidos como offtakes, equivalentes a 22% da produção prevista, e negocia outros 32%.

A meta é alcançar entre 60% e 70% da capacidade comprometida em contratos de longo prazo antes de buscar o financiamento definitivo.

"Temos clientes dispostos a assinar contratos de dez anos, no mínimo", afirmou Cooreman.

Os compradores serão principalmente misturadoras de fertilizantes, responsáveis por combinar nitrogênio, fósforo e potássio nas formulações NPK utilizadas pelos agricultores.

A Atlas negocia financiamento com o BNDES e outras instituições de desenvolvimento, além de bancos multilaterais e comerciais. Os recursos ainda não foram contratados.

Outra etapa será a solicitação de acesso à rede elétrica, prevista para janeiro de 2027. A decisão final de investimento está projetada para o fim daquele ano, condicionada à conclusão dessas etapas e à obtenção dos recursos.

A construção deverá levar aproximadamente 36 meses. Segundo a Atlas, o empreendimento poderá gerar cerca de 2 mil empregos durante as obras e 540 postos de trabalho na operação, incluindo terceirizados.

Dependência externa

O projeto avança em meio ao esforço brasileiro para reduzir a dependência de fertilizantes importados, especialmente os nitrogenados.

Segundo Cooreman, mais de 95% dos fertilizantes nitrogenados consumidos no País vêm do exterior. A produção nacional enfrenta a concorrência de fornecedores internacionais que utilizam gás natural a preços competitivos, muitas vezes subsidiados.

"Nosso produto precisa chegar ao agricultor a um preço competitivo, igual ao importado", afirmou.

O Plano Nacional de Fertilizantes e os mecanismos de incentivo à indústria de fertilizantes e ao hidrogênio de baixo carbono são considerados fundamentais para viabilizar o investimento.

Entre os instrumentos citados pelo executivo estão contratos por diferença, destinados a oferecer maior previsibilidade de receitas, e incentivos previstos no marco regulatório do hidrogênio de baixo carbono.

O Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq) e o Regime Especial de Incentivos para a Produção de Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (Rehidro) integram o conjunto de políticas de estímulo à descarbonização industrial. O Profert, instituído em setembro de 2026, também prevê incentivos à produção nacional de fertilizantes.

"Os bancos querem ver estabilidade. Esses mecanismos ajudam a estabilizar a receita", explicou.

Para Cooreman, o apoio público é especialmente importante para projetos pioneiros, que precisam superar o elevado investimento inicial e competir com uma indústria internacional consolidada.

O executivo afirma que a empresa mantém interlocução com representantes de diferentes correntes políticas e não espera uma mudança significativa no apoio institucional ao empreendimento após as eleições.

"Não vejo, independentemente do futuro governo, uma falta de apoio", afirmou Cooreman, ao mencionar conversas com assessores tanto da atual administração federal quanto de possíveis integrantes de um próximo governo.

Resumo

  • Empresa já tem contratos para 22% da produção e negocia outros 32% com compradores
  • Fábrica prevê captar 19,2 milhões de litros de água por dia do Rio Grande
  • Atlas negocia financiamento com o BNDES e prevê decisão final de investimento em 2027