Uma das principais causa mortis presentes em atestados de óbitos de startups do agronegócio é sua distância das lavouras. O universo agtech está repleto de histórias de empresas que falharam porque construíram soluções longe das fazendas e com pouca (ou quase nenhuma) informação sobre como funcionam as operações agrícolas.

Foi para fechar essa distância, colocando as startups dentro de uma fazenda comercial em operação, que há pouco mais de dois anos um ex-executivo do Google fundou na Califórnia, não muito longe do Vale do Silício, a incubadora Reservoir Farms.

Em pouco tempo, o modelo virou referência no ecossistema americano, a ponto de a própria empresa o apelidar de "vila olímpica do agtech" – um lugar onde as melhores equipes convivem, competem e são testadas em condições reais.

A Reservoir logo caiu nas graças de investidores e até de gigantes do agro. A fabricante de máquinas John Deere, por exemplo, formalizou em agosto um compromisso de US$ 10 milhões, ao longo de três anos, com a iniciativa.

O anúncio foi feito na primeira edição da Ruggedize, conferência organizada pela própria Reservoir, nos dias 26 e 27 daquele mês. O dinheiro financia as despesas de operação agrícola e, sobretudo, subsidia a entrada das startups nos campos de teste, reduzindo a barreira de quem precisa provar uma máquina em condição real.

É o segundo grande cheque que o modelo atrai. Antes dele, a Western Growers, associação de produtores da Califórnia e do Arizona, havia elevado seu compromisso de US$ 250 mil para US$ 1,5 milhão em três anos.

Com isso, a Reservoir Farms passou a dar lucro — algo incomum entre incubadoras de agtech, que costumam depender de filantropia ou de editais públicos.

A Reservoir nasceu em 2024 da observação de Danny Bernstein, que passou 20 anos no Vale do Silício em empresas como Meebo, Google e Microsoft. Ele viu startups construindo sensores sem nenhum engenheiro com experiência de campo, e empresas desenvolvendo implementos para trator sem ninguém na equipe que soubesse operar um trator.

"Há essa desconexão entre as novas empresas de agtech e as fazendas de verdade. E acabamos vendo muitas dessas ineficiências", disse Bernstein em entrevista recente ao site Agri-Pulse.

"Existem mais de 7.000 incubadoras de startups no mundo, mas nenhuma delas combina uma fazenda em operação com um espaço de P&D de deep tech."

A primeira áera a receber um hub da Reservoir foi cedida por uma família produtora na Califórnia. A Tanimura & Antle ofereceu 40 acres em arrendamento de longo prazo, a poucos minutos do centro da cidade de Salinas.

As obras começaram em agosto de 2025 e a unidade foi inaugurada em 17 de março de 2026, com 24 acres de campos comerciais de teste plantados e mais de 300 convidados.

Na cerimônia de abertura, Bernstein resume a proposta dizendo que a Reservoir é "uma plataforma de lançamento para startups em pré-seed e uma plataforma de pouso para scale-ups".

A iniciativa conta também com um braço de investimentos, o Reservoir VC, apresentado em outubro de 2025, com o objetivo de aproximar o deep tech do Vale do Silício do agtech californiano.

O foco do fundo são empresas das áreas de automação, robótica e agricultura de precisão e, como Bernstein descreve, com "valuations alinhadas à realidade de saída do agtech de hoje". O cheque médio é de US$ 500 mil.

"Que tipo de empresa se encaixa numa estrutura de P&D para uma John Deere, uma Kubota, uma CNH? Não são empresas de US$ 500 milhões. São resultados de US$ 30 milhões, US$ 50 milhões", avalia Bernstein.

"Se estamos entregando valor aos nossos investidores, queremos investir a valuations de US$ 5 milhões. Aí podemos fazer 6x, 10x a partir desses resultados."

Para comandar a estrutura, foi nomeado Matthew Hoffman, produtor de sexta geração que passou a década anterior na produtora de frutos americana Driscoll's como responsável global de P&D, agtech e transformação digital.

Além de Salinas, a Reservoir já se expandiu para outras áreas. Em dezembro passado foi anunciada a abertura de uma unidade em Sonoma, tabem na Califórnia, em parceria com a Sonoma County Winegrowers. Com 14 acres de vinhedos, foi classificado como o primeiro hub de robótica e automação em fazenda dedicado à viticultura.

Já em Yuma, no Arizona, um piloto foi desenvolvido com o Yuma Center for Excellence in Desert Agriculture e o Yuma Agricultural Center, da Universidade do Arizona, e está operacional desde 1º de outubro.

Em Merced, no Central Valley, as obras começaram em junho, com inauguração prevista para este outono. E para 2027 está programada a unidade de Yakima Valley, no estado de Washington, focada em frutas de caroço e mirtilo, com a Washington Tree Fruit Research Commission, a North American Blueberry Council e o Tri-City Development Council.

O padrão se repete em cada praça. A unidade nasce ancorada em uma associação de produtores ou instituição de pesquisa local. Os parceiros fundacionais incluem ainda empresas como Nutrien, Netafim, Taylor Farms, Driscoll's.

O modelo de negócios da incubadora é inovador. Ao invés de se propor a orientar as startups, a Reservoir aluga infraestrutura para as agtechs. Cada unidade é uma fazenda comercial em operação, com área plantada para teste, oficina de prototipagem equipada, maquinário agrícola compartilhado e acesso direto aos produtores que de fato compram tecnologia.

A tabela de preços é pública e vai de uma faixa associada gratuita, para quem só precisa acessar a fazenda com máquinas seguradas, a US$ 3.000 mensais pela entrada no programa de residência e US$ 6.000 mensais pelo pacote completo, que inclui uso das instalações como escritório em tempo integral, armazenamento de equipamento de grande porte e acesso à oficina de precisão.

Segundo informou o site AgNavigator, em agosto havia 22 startups instaladas, pagando entre US$ 3.000 e US$ 6.000 para alugar área em uma ou mais unidades.

Com essa combinação de mensalidade e patrocínio corporativo, a operação chegou ao azul. "Este ano estamos lucrativos. Vamos fazer US$ 5 milhões ou mais de receita recorrente anual em 2026 e pode ser mais, com algumas oportunidades importantes no pipeline", Bernstein, em entrevista recente ao AgFunderNews.

Foi justamente o acordo com a Deere que empurrou o resultado para o positivo. A relação com a montadora começou em agosto de 2025, quando a fabricante se tornou fornecedora exclusiva de equipamentos da Reservoir, com direito de marca em Salinas e nas unidades futuras.

O contrato de 2026 veio com metas. Segundo Sean Sundberg, gerente de integração de negócios da John Deere, a empresa estabeleceu objetivos para liberar aportes adicionais e a Reservoir superou todos.

"Temos metas alinhadas e depois é realmente mão livre, quando dizemos: 'Danny, vá fazer o trabalho que você precisa fazer'", contou ao AgNavigator.

"A John Deere está comprometida em ajudar produtores de culturas de alto valor a fazer mais com menos, e isso exige inovação forte construída no campo, não apenas no laboratório", afirmou Jason Brantley, vice-presidente de sistemas de produção da empresa.

Para Bernstein, o acordo de longo prazo com a Deere "dá às startups maior acesso à infraestrutura, às condições de campo e às relações estratégicas de que precisam para provar o valor da IA robusta para a agricultura comercial, mais rápido."

O modelo brasileiro

Badalada nos EUA, a Reservoir começou a chamar a atenção também em outros países e já inspira empreendedores por aqui. Conforme mostrou o AgFeed em junho passada, a iniciativa é a inspiração declarada do executivo Rafael Viana para tentar levantar R$ 150 milhões junto a investidores para m projeto semelhante no Mato Grosso do Sul.

Sócio e CEO do Philo Invest, uma boutique carioca de investimentos e gestão de fortunas que atua como escritório associado ao BTG Pactual, ele é o fundador e CEO da VivaTerra Ventures, gestora recém-criada com inspiração na Reservoir VC.

Se não tem modelo semelhante, o agro brasileiro não carece, no entanto, de ambientes de validação em campo. O caso mais próximo da Reservoir é o do AgNest Farm Lab, em Jaguariúna, no interior paulista. São 66 hectares de área operacional, dos quais 25 foram convertidos em laboratório vivo, com duas safras por ano e uma equipe de campo própria.

A iniciativa nasceu em 2019 em discussões sobre conectividade rural, ganhou estrutura institucional em 2022 com a formação do conselho gestor e iniciou o primeiro ciclo completo em maio de 2024. Os fundadores são a Embrapa e o Banco do Brasil, com FAESP/SENAR, Bosch e Sebrae for Startups no ecossistema e gestão operacional da Impactability. Em março de 2026, o Senar passou a integrar o conselho.

A metodologia de validação tem nome próprio, o PASI, um plano de alocação por solução, executado por um squad que reúne a startup, o gestor operacional e especialistas externos.

A ambição internacional também já apareceu. Em julho de 2026, o AgNest anunciou parceria com a Cultivar, plataforma global de conexão de ecossistemas, apoiada pelo The Yield Lab Institute e pela BioSTL, para que agtechs estrangeiras testem e tropicalizem suas tecnologias em condição real de manejo brasileiro.

Já a PUC-PR anunciou em outubro um hub agrotech de R$ 4 milhões, integrado a uma fazenda experimental de 200 hectares no Paraná, com inauguração prevista para março de 2027 e entrega completa até 2028.

A Unicamp inaugurou em setembro um campo experimental de 7,7 hectares no Parque Científico e Tecnológico, aberto a empresas, startups e instituições públicas.

Em Mato Grosso, o AgriHub, ligado ao Sistema Famato, leva startups para validar tecnologias diretamente em propriedades rurais desde maio, na sexta fase do programa AgriHub Conecta, com uma regra que diz muito sobre o modelo: a startup precisa oferecer gratuidade integral na execução dos testes.

A diferença estrutural está na conta. No Brasil, o acesso a campo tende a ser gratuito ou subsidiado, sustentado por instituição pública, universidade, associação setorial ou programa de aceleração. Nos Estados Unidos, a Reservoir provou que existe disposição a pagar e que a operação fecha no azul com a soma dessa receita com o patrocínio das indústrias.

Resumo

  • Reservoir Farms reúne startups em fazendas comerciais para testar tecnologias agrícolas em condições reais
  • John Deere comprometeu US$ 10 milhões em três anos com a iniciativa, que combina patrocínios corporativos e mensalidades para gerar receita
  • Modelo americano inspira projetos no Brasil, como o VivaTerra Ventures, que busca conectar startups, investidores e produtores rurais