Há três anos o Brasil “quase” chegou a produzir o volume suficiente de trigo para abastecer a demanda no País, uma realidade que agora vem ficando cada vez mais distante.

Na safra 22/23, com a disparada nos preços causada pelo início da guerra entre Ucrânia e Rússia – dois grandes produtores globais de trigo – houve mais entusiasmo por parte dos produtores brasileiros, mas ao longo do tempo outras culturas vêm se mostrando mais seguras e rentáveis, especialmente no Sul do Brasil.

O painel de encerramento do 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, promovido pela Abitrigo, entidade que representa os moinhos no País, tratou do atual cenário de mercado para o cereal, bastante desfavorável às empresas brasileiras.

A área plantada com trigo em 2026 foi a menor dos últimos 8 anos. Está estimada em 1,93 milhão de hectares pela Companha Nacional de Abastecimento. A última vez que o cultivo ficou abaixo de 2 milhões de hectares foi em 2018, segundo a série histórica da Conab.

O problema é que foram registrados problemas climáticos em praticamente todas as regiões produtoras. O excesso de chuvas compromete a produtividade e principalmente a qualidade do trigo nos maiores produtores, que são Rio Grande do Sul e Paraná.

O especialista em mercado de trigo, Elcio Bento, um dos painelistas do evento nesta sexta-feira, 23 de outubro, estima que a produção brasileira fique em 5,12 milhões de toneladas.

“Provavelmente a metade disso vai ser trigo feed, que é trigo para ração animal”, explicou ele, em entrevista ao AgFeed.

Considerando os dados de oferta e demanda no setor, o analista calcula que a real necessidade dos moinhos é uma importação de mais de 10 milhões de toneladas de trigo, mas admite que a dificuldade financeira e os gargalos logísticos, talvez não viabilizem toda essa importação.

Na abertura do evento a Abitrigo estimou as importações em 9 milhões de toneladas, o que já representa o maior volume em 30 anos.

Para que o cereal entre no Brasil – são 3 milhões de toneladas a mais em relação ao ano passado -  é necessário ter espaço nos portos que hoje já estão bastante saturados para atender soja, milho e algodão.

Concorrência com milho e canola

Os analistas consideram difícil reverter esse quadro de falta de estímulo ao produtor brasileiro para plantar trigo no inverno em função da concorrência com outras culturas.

“Tem questão da canola já que os óleos, com a questão do petróleo e biodiesel internamente, eles estão muito valorizados. A cevada é uma realidade que rouba a área de trigo no Paraná. E especialmente o milho safrinha. Como está vindo mais uma unidade para processar milho para a etanol no Paraná, a demanda vai continuar forte, provavelmente puxando a área de milho”, avaliou Elcio Bento.

A disputa com a canola tem sido acirrada no Rio Grande do Sul, onde a 3tentos, por exemplo vem incentivando a cultura. Um analista responsável por apresentar o cenário gaúcho no Congresso da Abitrigo, Indio Brasil dos Santos, ressaltou que já há plantas fazendo esmagamento de canola no estado.

Ao ofertar operações de barter com seguro, já estariam praticando preços acima da soja. “Se consolida a canola no Rio Grande do Sul, mirando 1 milhão de hectares”, afirmou.

Sem perspectivas de aumento na área plantada para 2027, Elcio Bento vê desafios financeiros para os moinhos que estão longe dos portos.

“Quais são os moinhos que vão perder competitividade este ano? Quem está localizado próximo às regiões de produção. Moinhos do oeste paranaense, por exemplo, eles contam muito com trigo paraguaio, com região que é atualmente produtora. Este ano terão escassez de oferta dentro do Paraná e o Paraguai também será menor. Esses moinhos mais distantes aos portos vão ter dificuldades financeiras este ano”, avaliou.

Para o produtor rural, o cenário até tem garantido preços melhores, mas com produtividade mais baixa, a margem também fica reduzida.

“Talvez esse repasse de anos muito difíceis dos produtores chegue na indústria este ano, porque tem essa dificuldade de abastecimento, precisam buscar alternativas”, pontuou o analista, que atualmente atua como gerente de compras na Camil Alimentos.

A saída para que os preços voltem a ser mais atrativos do que outras culturas no inverno depende também do mercado internacional, que não dá sinais de mudança. Pelo contrário, caso haja algum avanço para encerrar o conflito entre Rússia e Ucrânia, os preços poderia até cair, com o retorno da oferta desses países que vem sendo limitada pelos bombardeios nos graneleiros e dificuldades logísticas.

Quem vem se beneficiando deste cenário é a Argentina, “que está vindo com uma safra muito boa”, segundo Bento, e se a qualidade também for favorável pode contribuir para achatar os preços.

Por isso, ele recomenda que os produtores aproveitem as cotações atuais para fechar negócios. No Rio Grande do Sul a Solo Corretora estima que apenas 3% da safra que começou a ser colhida já tenha sido comercializada.

Resumo

  • Com menor área plantada de trigo dos últimos 8 anos, moinhos brasileiros precisam importar mais de 10 milhões de toneladas
  • Estímulos para plantar milho na segunda safra, vendendo para a indústria de etanol, deve causar aperto financeiro entre os moinhos do Paraná
  • Concorrência com a canola no Rio Grande do Sul também vem reduzindo o interesse dos gaúchos, que estão colhendo menos, em meio a problemas climáticos