Há cinco anos no Brasil, a companhia argentina de biotecnologia Nova começa a desenhar uma nova etapa de sua expansão no País.

Depois de estruturar sua operação comercial, a multinacional planeja a instalação de sua primeira fábrica no Brasil nos próximos anos e ambiciona aumentar em mais de dez vezes seu faturamento ao longo da próxima década, chegando a R$ 600 milhões.

Os planos, porém, avançam em um ritmo mais cauteloso do que o inicialmente previsto em função das dificuldades financeiras dos produtores rurais.

Em entrevista ao AgFeed, Elian Porta, CEO da Nova no Brasil, conta que o faturamento da operação brasileira cresceu aproximadamente 27% neste ano, e deve encerrar em R$ 40 milhões.

O resultado representa um avanço em relação ao ano anterior, mas ainda está distante dos aproximadamente R$ 70 milhões que a multinacional esperava faturar no País em 2026, antes de rever seus planos.

"Decidimos dar uma diminuída no nosso crescimento. Não diminuímos a quantidade de funcionários, pelo contrário, até aumentamos, mas estamos muito pé no chão com relação à parte financeira", afirma Porta.

A expectativa da Nova é que sua expansão volte a ganhar velocidade a partir da safra 2027/2028, quando a companhia espera encontrar um ambiente mais favorável para os negócios.

Até lá, a estratégia será consolidar a presença comercial, ampliar a distribuição e preparar os investimentos industriais que poderão sustentar uma nova fase de crescimento.

Fundada na Argentina há 40 anos, onde registra faturamento anual de aproximadamente US$ 110 milhões, o equivalente a cerca de R$ 600 milhões, a Nova chegou ao Brasil em 2021, ao perceber o País como um mercado estratégico para suas estratégias de expansão internacional.

Porta estima que o mercado brasileiro do agro seja cinco vezes maior que o argentino, uma diferença que, em sua avaliação, abre espaço para que a subsidiária alcance, no futuro, um faturamento semelhante ou até superior ao da matriz.

"Se o mercado do agro melhorar, a Nova tem um bom cenário para poder crescer e pelo menos igualar ou até superar [a operação na Argentina]", diz o CEO da companhia no Brasil.

Com um portfólio de 56 produtos, entre defensivos agrícolas, adjuvantes, inoculantes, bioinsumos e fertilizantes especiais, a Nova já definiu as duas frentes que devem sustentar sua expansão no Brasil nos próximos anos: o mercado de inoculantes para tratamento industrial de sementes (TSI) e o de fertilizantes especiais.

Na primeira delas, a ambição da companhia argentina é alcançar a liderança do mercado brasileiro nos próximos dois anos. Para isso, a Nova conta com uma estrutura comercial dedicada exclusivamente ao atendimento de clientes do segmento de tratamento de sementes.

Segundo Porta, embora grandes multinacionais também disputem esse mercado, há espaço para empresas especializadas, capazes de oferecer um atendimento mais próximo aos clientes. Entre as concorrentes, o executivo aponta a Syngenta como a principal rival da Nova no País.

“Hoje há um gargalo de falta de pós e pré-venda. As multinacionais são excelentes concorrentes, mas elas não têm foco somente nesse mercado. E a Nova tem um foco absurdo no tratamento de sementes. Temos um time destinado a atender exclusivamente esse mercado”, explica o CEO.

A estratégia da companhia no segmento de biológicos, porém, não se limita ao tratamento industrial de sementes. A Nova também possui em seu portfólio bioestimulantes, adjuvantes e soluções de biocontrole, como nematicidas, embora essa última categoria não esteja entre as prioridades da operação brasileira.

De acordo com Porta, a empresa pretende direcionar seus esforços principalmente ao desenvolvimento de produtos biológicos ligados à nutrição e à fisiologia vegetal, áreas nas quais enxerga oportunidades de crescimento diante dos desafios de produtividade enfrentados pelos agricultores brasileiros.

“Nós não estamos interessados em crescer em biocontrole, mas temos muito interesse em lançar biológicos vinculados à nutrição e fisiologia das plantas, porque entendemos que esse é o maior gargalo produtivo do País”, diz o executivo.

Essa avaliação sobre a importância da nutrição vegetal também ajuda a explicar a segunda frente de expansão da Nova no Brasil: os fertilizantes especiais, segmento no qual a companhia identifica uma das maiores oportunidades para ampliar seu faturamento.

A empresa passou a trabalhar com produtos destinados à aplicação no solo, incluindo formulações à base de fósforo e outros nutrientes, cujo valor de comercialização por hectare é significativamente superior ao de inoculantes e adjuvantes.

Para Porta, o potencial de crescimento desse negócio está relacionado tanto à baixa penetração dos fertilizantes especiais no mercado brasileiro quanto às diferenças tecnológicas que, segundo ele, colocam a Nova em uma posição distinta da concorrência.

“Embora o mercado de fertilizantes especiais tenha crescido, a participação não deve ser nem 2% do mercado de adubo comum”, diz o executivo.

É nesse mercado ainda pouco explorado que a companhia pretende ganhar espaço com uma tecnologia própria de fabricação de fertilizantes minerais especiais, que permite incorporar macro e micronutrientes em uma mesma formulação, oferecendo uma solução mais completa para a nutrição das plantas.

Porta cita a Mosaic como uma das principais concorrentes nesse segmento, mas ressalta que as duas empresas utilizam processos produtivos diferentes.

Enquanto determinados produtos da concorrente utilizam o revestimento de grânulos, técnica conhecida como coating, a Nova afirma incorporar os nutrientes diretamente durante o processo de fabricação, característica que o CEO aponta como um dos principais diferenciais de seu portfólio.

“Estamos falando de componentes nutricionais completos. Dentro do mesmo grânulo, temos NPK e todos os micronutrientes de que o agricultor precisa”, afirma.

Hoje os fertilizantes especiais representam cerca de 25% do faturamento da companhia, diz Porta. Mas a ideia é que passem a responder por mais de 40% das vendas.

"A nível de share, temos mais espaço em inoculantes que em adubos. Só que, a nível de faturamento, o adubo puxa muito", explica.

Segundo Porta, enquanto o investimento em inoculantes pode variar entre R$ 15 e R$ 20 por hectare, o desembolso com determinados fertilizantes especiais pode chegar a aproximadamente R$ 1,2 mil por hectare.

Nova fábrica

A expansão comercial da Nova no Brasil também deverá ser acompanhada por uma mudança na estrutura industrial da companhia no País.

Hoje, a operação brasileira ainda depende da importação de produtos fabricados na Argentina, onde possui uma planta na província de Santa Fé.

Nos próximos cinco anos, contudo, a Nova pretende iniciar a construção de uma unidade no Brasil voltada à produção de adjuvantes e fertilizantes especiais.

Contudo, o volume de investimento necessário para a implantação da planta e sua localização ainda não foram definidos, segundo Elian Porta. “O que já está decidido é que queremos botar a fábrica de pé.”

A empresa, porém, não pretende seguir o mesmo caminho no segmento de produtos biológicos, pelo menos nesse primeiro momento, diz Porta.

Em vez de construir uma fábrica dedicada a esses insumos, a Nova está buscando parceiros industriais brasileiros para produzir localmente tecnologias desenvolvidas pela matriz argentina.

A decisão está relacionada à avaliação de que o Brasil já possui capacidade instalada suficiente para atender a uma demanda maior por produtos biológicos. "A capacidade de produção biológica no Brasil é absurdamente alta comparada ainda com o consumo", afirma Porta.

A proposta é transferir fórmulas e processos industriais para empresas brasileiras, permitindo que os produtos sejam fabricados localmente e comercializados tanto pela Nova quanto pelos parceiros.

Segundo o executivo, as negociações já avançaram e algumas iniciativas estão em andamento, especialmente envolvendo tecnologias de fermentação de microrganismos, área na qual a multinacional possui experiência acumulada na Argentina.

Esse modelo permitirá à companhia ampliar sua oferta de produtos nacionais sem a necessidade de realizar grandes investimentos próprios em capacidade industrial.

A estratégia também se apoia na estrutura de pesquisa e desenvolvimento que a empresa começou a construir no País.

Em 2024, a Nova inaugurou um centro de inovação biotecnológica em Londrina (PR) com investimento anunciado de R$ 2 milhões. A unidade foi concebida para desenvolver novos produtos e aprimorar processos relacionados à biológicos, adjuvantes e fertilizantes.

Londrina também abriga a sede administrativa da Nova no Brasil, que vem ampliando sua presença nas principais regiões produtoras de grãos do País.

O foco comercial está concentrado nas culturas de soja e milho das regiões Centro-Oeste e Norte, embora a multinacional também tenha como clientes produtores de algodão e à fruticultura, com presença na região do Vale do Rio São Francisco, no Nordeste.

Por outro lado, culturas como a cana-de-açúcar não estão entre as prioridades de expansão da companhia neste momento.

Mesmo em regiões agrícolas consolidadas, como Paraná e São Paulo, a Nova ainda procura ampliar sua rede de distribuidores e cooperativas parceiras, seguindo o exemplo da Argentina, onde a Nova mantém relacionamento com mais de 500 distribuidores, conta Porta.

Para sustentar essa expansão, a empresa possui um centro de distribuição em Londrina e uma estrutura logística inclui ainda unidades nos estados de Maranhão, Goiás, São Paulo e Ceará,

“A Nova tem um supply muito eficiente. Importamos tudo, abastecemos todos os nossos CDs e em um tempo recorde, numa semana ou no máximo 15 dias, estamos entregando produtos para qualquer pedido que chegue. Sempre falo aqui internamente que eu gostaria de ser um ‘Mercado livre do agro’”, afirma Nova, em referência a um dos maiores marketplaces do mercado.

A estratégia de longo prazo também inclui ampliar o portfólio para além dos produtos biológicos e nutricionais.

Na Argentina, a Nova comercializa também defensivos químicos, incluindo herbicidas, fungicidas e inseticidas.

No Brasil, a companhia iniciou este ano o processo de registro de uma mistura de fungicida e inseticida destinada ao tratamento de sementes.

A entrada nesse segmento, entretanto, deverá ocorrer apenas no médio prazo, já que os processos regulatórios podem levar de três a cinco anos, segundo Porta.

A intenção é reproduzir gradualmente no Brasil o modelo de negócios adotado na matriz, que busca oferecer aos distribuidores e produtores um portfólio amplo de insumos agrícolas.

Por enquanto, porém, a prioridade será consolidar as linhas de maior potencial comercial e preparar a estrutura necessária para sustentar uma expansão mais acelerada quando o cenário financeiro do agronegócio permitir.

“Você dizer que vai faturar R$ 600 milhões é até agressivo hoje no mercado. O desejo da Nova é ser grande. Mas nós temos uma plataforma, temos portfólio, temos um sistema, sempre com os pés no chão”, conclui Porta.

Resumo

  • Nova projeta faturar R$ 40 milhões no Brasil em 2026 e mira alcançar R$ 600 milhões nos próximos dez anos
  • Multinacional argentina quer liderar o mercado de inoculantes para tratamento industrial de sementes e ampliar vendas de fertilizantes especiais
  • Companhia planeja construir sua primeira fábrica no Brasil em até cinco anos