“É tetra! É tetra! É tetra!”. Foi assim que o empresário Elusmar Maggi Scheffer, um dos sócios do Grupo Bom Futuro, um dos maiores operadores de terras agrícolas do Brasil, com 880 mil hectares nesta safra de grãos, comemorou a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um áudio que teria compartilhado com amigos logo após a divulgação do resultado das urnas, na noite de domingo, dia 25 de outubro.

Em outro áudio, Elusmar cumprimentou um interlocutor por ter conquistado votos para o "nosso candidato" e não economizou elogios ao petista.

"Nosso candidato, o presidente Lula, é uma pessoa muito inteligente. É o maior sábio do Brasil e do mundo, um presidente que enxerga do outro lado do mundo e da montanha", disse o empresário.

Elusmar é um dos acionistas do Grupo Bom Futuro, ao lado dos irmãos Eraí Maggi Scheffer – um dos rostos mais conhecidos da família – e Fernando Maggi Scheffer.

Os três são sobrinhos de André Maggi, fundador da Amaggi, e chegaram a Mato Grosso em 1982 para ajudar o tio a administrar uma fazenda arrendada em Rondonópolis (MT), chamada Bom Futuro, que contava com apenas 2,5 mil hectares destinados à agricultura e outros mil hectares à pecuária.

A propriedade, que deu origem ao grupo, foi adquirida pelos irmãos em 1994, quando passaram a conduzir os negócios de forma independente da Amaggi.

A Bom Futuro divide atualmente com a gaúcha SLC Agrícola o posto de maior operadora de terras agrícolas do Brasil, que entrou na safra 2025/2026 com uma área total de 837 mil hectares.

Elusmar é discreto e raramente concede entrevistas. Torcedor fanático do Internacional, ganhou notoriedade em 2021, quando emprestou R$ 1 milhão ao clube gaúcho para permitir a escalação de um jogador que, por questões contratuais, não poderia entrar em campo sem o pagamento de uma multa.

Apesar do perfil reservado, não é a primeira vez que Elusmar chama a atenção por seus posicionamentos políticos.

Nas eleições municipais de 2024, Elusmar pediu votos para Lúdio Cabral (PT), então candidato à prefeitura de Cuiabá (MT), durante um evento do Grupo Bom Futuro.

Apoiado pelo presidente Lula e pelo então ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, Cabral chegou ao segundo turno da disputa.

"É 13 na cabeça", disse Elusmar na ocasião. Após a manifestação, contudo, o empresário foi proibido pela Justiça Eleitoral de Mato Grosso de pedir votos em confraternizações do gênero.

A manifestação do empresário, no entanto, não foi suficiente para garantir a vitória do candidato petista à prefeitura de Cuiabá, derrotado por Abílio Brunini (PL), apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Dois anos antes, em julho de 2022, outro áudio atribuído a Elusmar também havia ganhado repercussão, desta vez por críticas ao então presidente Jair Bolsonaro. O empresário teria criticado Bolsonaro ao reagir negativamente à uma nota de repúdio do Sindicato Rural de Sinop, que criticou publicamente o apoio do então senador Carlos Fávaro e do ex-ministro da Agricultura Neri Geller à candidatos do PT no pleito de 2022.

"Rapaz, que fria esse presidente, né? Se o presidente fosse bom tinha dado uma verba que nem o PT deu para fazer armazéns: treze anos para pagar, com três anos de carência", teria dito Elusmar.

"Esse presidente é muito ruim de serviço. O armazém que está do lado aí é dinheiro que o PT deu para fazer, jurinho de 2,5%, com 3 anos de carência e 13 anos para pagar. Agora esse motoqueiro, esse presidente motoqueiro não passa de um simples motoqueiro. Dando mau exemplo para a nação ainda", emendou.

Eraí é mais ativo

Se Elusmar costuma manifestar suas preferências políticas de maneira mais esporádica, o irmão Eraí Maggi Scheffer tem assumido um papel mais ativo nas discussões envolvendo o governo federal e o agronegócio.

Mesmo assim, com mudanças de lado. Nas eleições de 2018, Eraí apoiou Jair Bolsonaro, que tentava chegar ao Palácio do Planalto pela primeira vez naquele pleito. Às vésperas do primeiro turno, no fim de setembro, o empresário visitou o candidato, que estava hospitalizado no Hospital Albert Einstein em São Paulo após o atentado que sofrera semanas antes em Juíz de Fora (MG), e posou para uma foto ao lado de Bolsonaro, prostrado na cama.

Com o passar dos anos, porém, Eraí se distanciou de Bolsonaro. Em agosto de 2025, por exemplo, ao comentar os efeitos do tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos exportados pelo agronegócio brasileiro, Eraí saiu em defesa do presidente Lula.

“Acabou de botar o Lula lá. Acabou de botar… Deixa tocar esses dois anos aí que faltam”, disse. “Nós temos metade do governo pela frente ainda. O Tarcísio tem metade do governo lá em São Paulo. O Lula está na metade do mandato. Nós temos que trabalhar, fazer o mato grosso. Não ficar [falando de] política, política, porra. Que porra de política? Agora não é hora”, emendou.

“Discutir política agora é só um ensaio. Que deixe andar, que vá bem o Brasil. Que vá bem o Tarcísio, que vai bem o Lula. O que eu estou torcendo é para gerar as coisas… eu quero gerar emprego, eu quero gerar indústria. Nós estamos no começo do governo, vocês já querem falar do outro? A gente comeu, tem que fazer digestão para depois comer de novo.”

Eraí ponderou, no entanto, que teria buscado intensificar o diálogo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para tentar contornar o tarifaço, embora tenha reconhecido que Lula também se esforçou para negociar com o americano.

“Eu teria forçado um pouquinho mais conversar com o Trump, se eu fosse o presidente. Mas eu imagino que ele tentou, viu?”

A aproximação ganhou um novo capítulo em dezembro do ano passado, durante uma reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o chamado "Conselhão", que reúne mais de 250 empresários e representantes da sociedade civil.

Eraí ressaltou a força do agronegócio e pediu empenho do governo federal para mais investimentos em infraestrutura, especialmente em autorizar a construção da Ferrogrão. uma ferrovia de 933 quilômetros que pretende ligar Sinop ao Porto de Miritituba, no Pará, rasgando a Amazônia para escoar os grãos do Centro-Oeste aos terminais portuários do Arco Norte. O projeto está há anos no papel.

Lula fez questão de elogiar publicamente o empresário mato-grossense e aproveitou o discurso para mandar um recado a setores do agronegócio que fazem oposição ao governo.

“Imagina vocês se o pessoal do agronegócio que não gosta de nós, tivesse ouvindo o Eraí falar. Ele que possivelmente é maior do que todos que falam mal de nós, porque está dizendo apenas a verdade. Não tem uma única mentira. Está dizendo que esse governo no primeiro, no segundo, no terceiro mandato, jamais tratou diferentes as pessoas, que gostavam ou não gostavam de nós”, disse o presidente.

“E eu acho que quando a gente vê o Erai falar, e a gente vê que a bancada do agronegócio não ouviu ele nem antes, nem hoje e nunca vai ouvir, não teria derrubado os vetos que nós fizemos na política ambiental desse País”, emendou Lula.

Embora tenha evitado manifestações públicas de apoio a candidatos durante a campanha eleitoral deste ano, Eraí esteve com Lula no último dia 31 de agosto, em um jantar com empresários e banqueiros no Palácio da Alvorada, em Brasília (DF).

O encontro, uma tentativa de aproximar o petista do empresariado, reuniu outros 15 empresários de alto escalão, entre eles Joesley Batista, da JBS, Luís Cutrale Júnior, da Cutrale, Rubens Ometto, da Cosan, André Esteves, do BTG Pactual, Rubens Menin, da MRV, Roberto Setúbal, do Itaú Unibanco, e André Gerdau Johannpeter, da Gerdau, entre outros.

De acordo com o jornal Diário de Cuiabá, Eraí teria relatado, no encontro, as dificuldades de acesso a crédito por parte dos produtores em função dos financiamentos com custos altos, além do endividamento dos agricultores.

Outro dos irmãos Scheffer, Elizeu Scheffer, que é o fundador do Grupo Scheffer, é mais próximo de Jair Bolsonaro. Já apareceu em foto ao lado do ex-presidente e, nas eleições de 2022, sua esposa, Carolina Scheffer, teria contribuído com R$ 1,05 milhão à campanha de Bolsonaro, segundo informações do jornal O Globo.

Blairo votou em Flavio Bolsonaro

Mas, se os irmãos Elusmar e Eraí têm demonstrado proximidade com Lula, o mesmo não se pode dizer de outro integrante da família Maggi.

Primo dos dois empresários e um dos nomes mais conhecidos do agronegócio brasileiro, o ex-governador de Mato Grosso e ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi, fundador e membro da conselho da Amaggi, tomou um caminho político diferente nesta eleição.

Em agosto, surpreendeu ao declarar voto em Flávio Bolsonaro, em um vídeo publicado em tom descontraído nas redes sociais.

A manifestação aconteceu poucas semanas depois de Blairo ter aparecido ao lado de outro candidato à Presidência, Renan Santos (Missão).

No fim de julho, o empresário publicou fotografias ao lado de Santos em seu perfil no Instagram e o classificou como uma "boa opção" e uma "alternativa em meio à polarização", convidando seus seguidores a conhecerem o candidato.

Além das manifestações na disputa presidencial, Blairo também se envolveu na campanha para a Câmara dos Deputados, declarando apoio ostensivo ao ex-ministro da Agricultura Neri Geller, que tentou uma cadeira por Mato Grosso, mas não conseguiu se eleger.

A mudança de posicionamento do ex-ministro chama a atenção por seu histórico de aproximação com o próprio Lula.

Em 2022, Blairo apoiou a candidatura do petista à Presidência da República, repetindo uma aliança política que já havia mantido durante os dois primeiros mandatos de Lula no Palácio do Planalto, quando Blairo era governador de Mato Grosso.

Essa relação, porém, não impediu que o empresário apoiasse o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016 e votasse a favor do afastamento de Dilma quando o processo chegou ao Senado.

Após a chegada de Michel Temer à Presidência, Blairo assumiu o Ministério da Agricultura, cargo que ocupou até o fim do governo do emedebista. Blairo votou em Jair Bolsonaro nas eleições de 2018.

A guinada recente em direção à família Bolsonaro provocou críticas de outra figura influente do agronegócio mato-grossense: o empresário Carlos Ernesto Augustin, conhecido como Teti, dono da Sementes Petrovina, que foi assessor do ex-ministro Carlos Fávaro durante boa parte do terceiro mandato de Lula.

“O que mudou foi a possibilidade do outro lado ganhar, foi isso que mudou. Eu, sinceramente, levei uma surpresa. Na verdade, o Blairo Maggi nunca se posicionou a favor do Lula, porém, nunca se posicionou a favor do Bolsonaro, e é o que ele fez agora”, disse Teti.

O empresário também levantou a hipótese de que a aproximação de Blairo com Flávio Bolsonaro estaria relacionada a uma eventual indicação de Mauro Mendes, ex-governador de Mato Grosso e senador eleito pelo Estado neste ano, para um cargo na Esplanada dos Ministérios.

“O que eu ouço falar é que ele quer indicar o Mauro Mendes para ser ministro de Minas e Energia ou ministro da Agricultura, caso o Flávio Bolsonaro vença”, afirmou.

Questionado pelo AgFeed, o Grupo Bom Futuro informou, via assessoria de imprensa, que não iria se posicionar sobre o tema. “Essa é uma manifestação do acionista”, afirmou a Bom Futuro, ressaltando ainda que não confirmava se o áudio era de fato de Elusmar Maggi Scheffer.

Resumo

  • Sócio do Bom Futuro, Elusmar Maggi Scheffer comemora reeleição de Lula e chama presidente de “maior sábio do Brasil e do mundo”
  • Irmão de Elusmar, Eraí Maggi Scheffer demonstra proximidade com Lula
  • Na contramão dos primos, Blairo Maggi declarou voto em Flávio Bolsonaro