Depois de um longo período de maré contra, a Raízen Energia encontra, finalmente, condições mais favoráveis para seus negócios.

A recuperação dos preços do açúcar e do etanol, margens melhores na distribuição de combustíveis, perspectiva de juros menores e venda de novos ativos podem ajudar o grupo a atravessar sua recuperação extrajudicial (RE).

Além disso, no final da tarde da segunda-feira, 19 de outubro, a empresa comunicou por meio de fato relevante o deferimento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre um pedido para listagem de suas ações na B3.

O órgão aprovou a conversão do registro da companhia de emissor de valores mobiliários da categoria B para a categoria A, que permite negociar ações no mercado de capitais.

Segundo o fato relevante, a mudança integra a reestruturação societária do grupo Raízen e constitui uma das medidas previstas na implementação do plano de recuperação extrajudicial.

No entanto, a autorização não implica, por si só, a abertura de capital ou a emissão de novas ações.

A Raízen Energia e sua controladora, Raízen S.A., integram o grupo de empresas que obteve, em julho, a homologação do maior plano de RE da história do País, envolvendo aproximadamente R$ 65 bilhões em dívidas financeiras.

“A companhia está numa posição melhor do que estava alguns meses atrás”, afirma Gabriel Barra, analista do Citi, em entrevista ao AgFeed.

Segundo ele, a distribuição de combustíveis tem apresentado resultados superiores às premissas utilizadas pela própria Raízen no início da reestruturação.

A empresa trabalhava com margens próximas de R$ 180 por metro cúbico, mas registrou cerca de R$ 480 a R$ 490 por metro cúbico no primeiro trimestre do ano-safra, de acordo com os números citados pelo analista.

“Eles estão gerando mais caixa e um resultado melhor do que se imaginava”, diz Barra.

O cenário também mudou para açúcar e etanol, negócios que vinham pressionados pelos preços das commodities.

O açúcar superou os 20 centavos de dólar por libra-peso (20,57 centavos de dólar na cotação para março de 2027), enquanto o etanol reagiu à valorização do petróleo e de seus derivados.

A guerra no Irã contribuiu para pressionar os preços internacionais da energia, enquanto o aumento da mistura de etanol na gasolina favoreceu a demanda doméstica pelo biocombustível.

A perspectiva de juros menores acrescenta outro fator positivo. Para uma companhia com endividamento elevado, uma redução de um a dois pontos percentuais no custo da dívida poderia representar uma economia relevante nas despesas financeiras.

“Se você pega o tamanho da dívida da Raízen, isso tem um impacto muito relevante na geração de caixa, que era a nossa grande preocupação há um ano”, afirma.

O Citi mantém a avaliação da companhia sob revisão. Barra lembra que a preocupação anterior envolvia a combinação de endividamento elevado, margens menores e investimentos que consumiam parte significativa do caixa.

Desde então, a Raízen vendeu ativos e reorganizou seu portfólio de usinas para reduzir a pressão financeira. “Acho que os movimentos que aconteceram de lá para cá foram positivos”, avalia o analista.

Reflexo na B3

A melhora das perspectivas também se refletiu nas ações da Raízen S.A. (RAIZ4), negociadas na B3. Os papéis passaram de R$ 0,23 em 31 de agosto para R$ 0,38 em 19 de outubro, uma valorização de 65,2%.

A recuperação acompanha o cenário mais favorável para açúcar, etanol e distribuição de combustíveis, embora o grupo ainda enfrente elevado endividamento.

“Quando você olha para os fundamentos do setor, eles melhoraram”, afirma Barra.

O analista ressalva, porém, que esses fatores podem mudar rapidamente e que o desfecho da reestruturação financeira depende também das negociações com os credores.

“Sem dúvida pode [mudar]. A gente está falando de commodities. Commodity muda todo dia”, ressalva Barra.

A Raízen Energia ainda não possui ações próprias negociadas na bolsa, ao contrário de sua controladora, apesar do deferimento da CVM ao pedido de listagem à B3 comunicado ontem ao mercado.

Em agosto, a subsidiária havia solicitado a conversão de seu registro da categoria B para a categoria A, que permite a negociação de ações.

Em outubro, também aprovou a apresentação de um pedido de listagem à B3. Os papéis, porém, ainda não estão disponíveis para negociação.

Debenturistas sem quórum

A melhora operacional ocorre enquanto a Raízen Energia avança na execução do plano de RE, homologado pela Justiça em 30 de julho. Uma das dívidas da empresa é com a emissão de aproximadamente R$ 1,2 bilhão em debêntures, realizada em 2022.

Em assembleia realizada em 14 de outubro, os titulares destes debêntures - a sétima emissão da companhia - não alcançaram o quórum necessário para autorizar medidas relacionadas à implementação do plano.

Segundo a ata divulgada à CVM, participaram investidores que representavam apenas 3,98% destes títulos em circulação, que já somam R$ 1,5 bilhão.

A proposta de autorização ao agente fiduciário para adotar medidas extrajudiciais recebeu votos favoráveis dos presentes, mas dependia da aprovação de titulares de pelo menos 50% mais uma debênture em circulação para produzir efeitos.

A falta de quórum, porém, não deve impedir a reestruturação dos títulos. Segundo parecer do escritório Felsberg, contratado para assessorar os debenturistas, o plano de RE já homologado pela Justiça autoriza o agente fiduciário a realizar a substituição das debêntures, independentemente de novas assembleias.

Pelas condições comunicadas aos investidores, os titulares de créditos de até R$ 13,5 mil poderão receber até 75% do valor devido em dinheiro, respeitado o teto de R$ 9.750 por credor e o limite global da modalidade.

Para créditos maiores, a reestruturação prevê a conversão de 45% do saldo em ações da Raízen S.A., 37,4% em novos títulos de dívida da Raízen Combustíveis e 17,6% em dívida da Raízen Energia.

Os investidores também receberam a possibilidade de escolher individualmente sua modalidade de pagamento, mediante comunicação ao agente fiduciário até 21 de outubro.

Resumo

  • Ações da Raízen acumularam valorização de 65,2% entre 31 de agosto e 19 de outubro
  • Margens na distribuição de combustíveis chegaram a R$ 490 por metro cúbico, ante previsão de R$ 180
  • Assembleia de debenturistas reuniu apenas 3,98% dos títulos, mas falta de quórum não prejudica reestruturação