O fim da escala de trabalho 6x1 poderá consumir até 26% do lucro líquido de empresas do agronegócio com capital aberto, segundo estudo do BTG Pactual.

Intitulado The Price of a Shorter Week (O preço de uma semana de trabalho mais curta), o relatório conclui que, embora os custos adicionais representem uma parcela menor da receita, seus efeitos sobre os lucros tendem a ser expressivos.

Entre as 13 empresas analisadas, Jalles Machado, M. Dias Branco e MBRF estão entre as mais expostas à mudança. O estudo também estima impactos sobre os resultados de outras grandes companhias como JBS, São Martinho, Minerva, Camil, SLC Agrícola, 3tentos e BrasilAgro.

A reforma foi aprovada pelo Congresso Nacional e promulgada na sexta-feira, 16 de outubro, por meio da Emenda Constitucional 141/2026. A nova regra estabelece dois dias de descanso semanal remunerado, sem redução salarial, e diminui gradualmente a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais até o final de 2027.

O banco utiliza suas estimativas financeiras para 2027, incluindo receita, Ebitda e lucro líquido, para calcular o peso dos custos adicionais da reforma em cada empresa.

A Jalles Machado, produtora de açúcar e etanol, apresenta o maior impacto proporcional do lucro líquido entre as companhias analisadas. O aumento de despesas equivale a 25,8% do resultado projetado pelo BTG para 2027.

Na São Martinho, também do setor sucroenergético, a proporção chega a 15,9%. Já na Adecoagro, o impacto estimado corresponde a 12,2% do lucro líquido.

Entre as empresas de alimentos, a M. Dias Branco aparece com exposição de 15,3%, enquanto a Camil registra 11,7%.

No setor de proteínas, a Minerva teria um impacto equivalente a 15,4% do lucro líquido, apesar de apresentar um aumento de custos relativamente menor em relação ao seu Ebitda. Segundo o BTG, a diferença está associada ao peso do endividamento sobre os resultados da companhia.

Na JBS, a proporção seria de 9,4%. A diversificação internacional dos negócios contribui para diluir o efeito das despesas adicionais com trabalhadores brasileiros.

Os percentuais não representam previsões diretas de queda dos lucros, mas a relação entre os custos estimados da reforma, considerados os efeitos tributários, e os resultados projetados para 2027.

Salto de custos

Em valores absolutos, a JBS enfrentaria o maior aumento anual de despesas entre as empresas analisadas, de R$ 1,03 bilhão. O montante corresponde a 3,2% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) estimado pelo banco.

Na MBRF, o custo adicional chegaria a R$ 824 milhões, equivalente a 6,8% do Ebitda. A companhia apresenta a maior exposição operacional entre os frigoríficos.

A M. Dias Branco teria despesas adicionais de R$ 163 milhões, mas o impacto corresponderia a 12,8% do Ebitda, o maior percentual entre todas as companhias avaliadas.

No setor sucroenergético, o BTG estima aumentos anuais de R$ 193 milhões para a São Martinho, R$ 104 milhões para a Adecoagro e R$ 48 milhões para a Jalles Machado.

A Minerva teria despesas adicionais de R$ 104 milhões, enquanto a Camil enfrentaria um aumento de R$ 53 milhões.

Os cálculos consideram que a redução da jornada de 44 para 40 horas elevaria em aproximadamente 10% o custo da hora trabalhada, caso as empresas precisassem repor integralmente as horas perdidas.

As estimativas representam impactos anuais após a implementação integral da reforma, comparados às projeções financeiras de 2027. Portanto, não correspondem necessariamente às despesas que serão registradas naquele ano.

O banco também apresenta um cenário intermediário, no qual apenas metade dos custos adicionais se materializa, mais próximo dos efeitos esperados na primeira etapa de redução da jornada.

Particularidades setoriais

O BTG considera as usinas de açúcar e etanol particularmente vulneráveis à reforma. A folha de pagamento exposta à mudança representa de 12% a 15% da receita dessas companhias, a maior proporção entre os segmentos analisados.

Além da intensidade de mão de obra, as usinas precisam manter operações contínuas durante a safra. A reorganização dos turnos poderá exigir contratações adicionais, com pouca possibilidade de repassar os custos aos preços do açúcar e do etanol.

Nos frigoríficos, a MBRF apresenta maior exposição porque o processamento de aves e suínos exige proporcionalmente mais trabalhadores do que o de carne bovina.

O BTG também alerta que dificuldades para contratar pessoal suficiente podem comprometer a capacidade de produção das empresas de proteínas.

As produtoras de grãos aparecem em situação mais favorável. O banco estima custos adicionais de R$ 71 milhões para a SLC Agrícola, R$ 28 milhões para a 3tentos e aproximadamente R$ 8 milhões para Boa Safra e BrasilAgro.

Nessas companhias, o impacto sobre o Ebitda varia de 1,6% a 2,9%, reflexo da menor necessidade de trabalhadores em relação à receita e da menor dependência de operações industriais contínuas.

A Ambev é considerada a empresa mais preparada para absorver a mudança. Embora o aumento anual de despesas possa chegar a R$ 311 milhões, o impacto corresponderia a apenas 1% do Ebitda e 1,2% do lucro líquido.

Segundo o BTG, um reajuste de 0,5% nos preços líquidos seria suficiente para compensar integralmente os custos adicionais. Para M. Dias Branco e Camil, os reajustes necessários seriam de 1,5% e 0,6%, respectivamente, mas a concorrência pode dificultar esses repasses.

Resumo

  • JBS pode enfrentar aumento anual de R$ 1 bilhão em despesas com pessoal, segundo o BTG
  • M. Dias Branco teria o maior impacto sobre o Ebitda, de 12,8%, entre as 13 companhias analisadas
  • Produtoras de grãos, como SLC e BrasilAgro, apresentam menor exposição à mudança