A gigante do etanol de milho Inpasa segue em ritmo acelerado de expansão, com a abertura de novas usinas, mas também de olho nas oportunidades de aumentar a demanda.
A empresa deve atingir esse ano uma capacidade de 6,7 bilhões de litros de etanol, um aumento de 20% em relação ao ano passado, considerando os negócios no Brasil e no Paraguai.
Nos próximos seis meses, com a entrada em operação das novas plantas em Rio Verde (GO) e Rondonópolis, a Inpasa vai ultrapassar 8 bilhões de litros.
A receita da empresa que era de R$ 376 milhões em 2019, chegou a R$ 22,8 bilhões no ano passado, ou seja, cresceu 60 vezes o seu tamanho.
“A gente tem consciência de que o nosso crescimento tem sido substancial, o setor tem crescido em conjunto e pra isso vai ser necessário um crescimento muito forte da demanda”, avaliou Renato Zicardi, diretor de trading da Inpasa, em entrevista exclusiva ao AgFeed, após participar de um painel no Teco Novonesis 2026, realizado no fim de setembro, na capital paulista.
Para lidar com esse desafio, a Inpasa trabalha em duas frentes: mercado interno, com a busca de que mais brasileiros abasteçam com etanol e mercado internacional, articulando acordos para chegar na frente quando houver a demanda de etanol para a navegação, por exemplo.
Zicardi lembra que muitos estados no País têm uma paridade de etanol acima de 70% e que a participação do etanol hidratado em vários lugares ainda está abaixo de 15% ou 10%, por isso “tem bastante demanda potencial”.
“É uma questão agora de reprecificar as geografias. Eu acho que a presença do etanol de grãos no Brasil vai mudar muito a dinâmica de precificação. Então, antes tinha uma certa inércia de prêmio de regiões contra São Paulo. E esses diferenciais de preço vão mudar bastante ao longo do tempo”, afirmou.
Segundo o diretor da Inpasa, esta mudança “já está acontecendo”. Um dos exemplos é a Bahia, que já vem trabalhando com paridade abaixo de 70%, ou seja, com preços bem mais competitivos em relação à gasolina, o que também estaria ocorrendo em outros estados do Norte e Nordeste.
"Até Santa Catarina tem praticado uma paridade abaixo de 70%, que é um negócio incomum. Se você compara o mapa dos últimos 5 anos com o mapa atual de paridade bomba, ele já é bastante diferente e essas regiões devem continuar com essa tendência”.
De olho em Singapura
Atualmente, a Inpasa exporta menos de 10% do etanol que produz, uma situação que tende a mudar nos próximos anos.
“Eu acho que esse percentual deve aumentar com o tempo. Tem o acordo do Mercosul com a União Europeia, que é um negócio que pode fortalecer. Alguns outros países da Ásia estão aderindo um blend de etanol, como o Vietnã”, prevê Zicardi.
Também estão no radar a Indonésia, com mistura obrigatória de 5% de etanol, e países da América Central.
A grande oportunidade, porém, pode estar em Singapura. O país é o maior hub global de bunker do mundo, ou seja, é uma central de reabastecimento marítimo para os navios.
O diretor da Inpasa pondera que será necessário um tempo para maturação desse mercado, para que os navios comecem a converter a frota para dual fuel. “Mas isso ocorrendo, a participação da exportação deve aumentar”.
No último sábado, 17 de outubro, Singapura foi palco do que foi considerada a maior operação de abastecimento de etanol marítimo já registrada no mundo”. Foram transferidas 5 mil toneladas métricas de bioetanol para um porta-contêineres da Maersk Halifax. O abastecimento foi também a primeira operação desse tipo realizada no país, segundo a Autoridade Marítima Portuária de Singapura (MPA).
Zicardi lembra que testes do tipo já foram realizados pela Maersk em Houston, no Texas, em em Roterdam, na Holanda.
No Brasil, o primeiro navio porta-contêineres a operar com etanol produzido aqui partiu do porto de Santos no dia 14 de julho, em iniciativa da Copersucar com CMA CGM Iron, como mostrou o AgFeed.
“A gente tem conversado com diversos players. Diversos players estão fazendo testes. A gente tem participado ativamente das rodadas da IMO, que são as discussões regulatórias”, disse o diretor.
Ele se refere às definições da Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês), que já estabeleceu os padrões de intensidade de carbono para o etanol de milho segunda safra e avalia também uma decisão em relação ao etanol de cana.
O setor aguarda para dezembro que seja destravado em definitivo o marco regulatório da IMO que prevê zero emissões para o setor marítimo até 2050. Estão na pauta também os mecanismos de precificação do carbono.
A demanda global de bunker (combustível para navegação) é estimada em 300 milhões de toneladas.
“Se você converte por potencial energético do etanol em comparação com o Bunker Fuel, é mais ou menos duas vezes a quantidade. Se a gente fosse para 10% de etanol em Bunker Fuel, estaríamos falando de 60 milhões de metros cúbicos por ano. É uma demanda enorme”, explicou Zicardi.
O executivo acredita que, até pouco tempo, o argumento da defesa dos biocombustíveis era mais baseado na sustentabilidade, mas que o avanço da guerra, com a geopolítica influenciando os preços do petróleo e derivados, “hoje se fala em redução de riscos de matriz energética”.
A expectativa é de que até mesmo países europeus passem a adotar ou aumentar o mandato de etanol por conta da questão geopolítica, segundo ele.
Também na Europa ele vê, por enquanto, as melhores oportunidades de remuneração pelo etanol de baixo carbono. “E a Inpasa está bem presente nesse mercado europeu”.
Resumo
- Inpasa cresceu 60 vezes de tamanho nos últimos anos e agora busca novas oportunidades para aumentar a demanda por etanol de milho
- No mercado interno, companhia vê uma "reprecificação das geografias", com etanol mais competitivo em estados do Norte e Nordeste
- Empresa também aposta nas exportações, especialmente com o mercado de combustível marítimo, que acaba de concluir mais um teste no porto de Singapura