Após acumular dívidas de mais de R$ 1 bilhão e tentativas frustradas de reestruturação, que envolveram, inclusive, pedidos de recuperação judicial rejeitados pela Justiça do Rio Grande do Sul, a Cotribá, cooperativa agrícola mais antiga do Brasil, fundada em 1911, vai dar início a um processo de liquidação extrajudicial pela primeira vez em sua história.
A decisão foi aprovada por unanimidade na terça-feira, dia 20 de outubro, em assembleia geral, com a participação de 375 associados. A Cotribá tem 11.393 cooperados.
Na assembleia, os associados também aprovaram a dissolução voluntária da cooperativa e elegeram Sergio Strentzke, atual presidente da Cotribá, como liquidante, que é a pessoa responsável por liderar o processo.
"Não tínhamos outra possibilidade de dar sequência à nossa cooperativa sem essa solução", disse Strentzke, em entrevista coletiva à imprensa local nesta quarta-feira, dia 21 de outubro. "A situação é complexa, é difícil, mas ela se tornou mais viável agora com a decisão soberana da Assembleia.”
A liquidação extrajudicial permite à cooperativa continuar em atividade e também negociar um plano de pagamento de suas dívidas diretamente com os credores, sem a necessidade de homologação judicial, como ocorre nos processos de recuperação judicial. Nesse modelo, porém, a adesão dos credores às condições propostas é voluntária.
A legislação das cooperativas permite ainda a pausa de ações por um ano contra as cooperativas e, excepcionalmente, pode ser prorrogada por mais um ano.
Por ora ,ainda não há um plano de negociação com os credores e uma avaliação patrimonial consolidada, informações que serão apresentadas à frente aos cooperados. “Inclusive hoje a gente está sem uma auditoria externa contratada ainda, precisamos fazer isso com urgência”, disse Strentzke.
O tom da coletiva foi de desabafo. Strentzke trouxe ao público informações que ainda não eram públicas sobre as antigas gestões da Cotribá. O agora liquidante mencionou que, em 2020, a consultoria Markstrat recomendou, durante prestação do serviço junto à cooperativa, que houvesse uma mudança na gestão da entidade – medida que não chegou a acontecer. "Essa sugestão de mudança de gestão foi literalmente rasgada pela antiga gestão", disse Strentzke.
A Cotribá era comandada há mais de duas décadas pelo mesmo grupo na ocasião, sob a liderança de Celso Krug, que estava na presidência da cooperativa desde 1993. Krug renunciou ao cargo em outubro de 2024, alegando motivos de saúde, em meio à eclosão da crise financeira na cooperativa.
"A antiga gestão é culpada. Ela deveria ter mudado o caminho, ela foi orientada não só pela consultoria, mas também pelo jurídico, que não podia tomar os caminhos que tomou ultimamente", emendou o liquidante.
Sergio Strentzke salientou que a cooperativa seguirá investigando possíveis irregularidades das antigas gestões da companhia. "A gente não vai abandonar esse projeto, a gente vai intensificar isso, a gente vai procurar o máximo possível de provas cabais e encaminhar aos órgãos responsáveis", disse.
Ele também garantiu que a gestão, daqui em diante, vai priorizar o diálogo com funcionários e associados. "O liquidante é uma pessoa simples, um agricultor simples, o conselho fiscal são três agricultores, três pessoas simples, mas eficientes no que fazem e com dedicação, com camisa e com coração de Cotribá", salientou.
"Não vai mais ter aquilo que tinha antes aqui dentro, que eram pessoas que achavam que tinham o rei na barriga, porque tinham cargos, funções, eram mais que outras, e até mesmo desrespeitavam pessoas que talvez tinham posições profissionais menores num organograma, desculpa a palavra, idiota. Isso não existe mais”, emendou Strentzke.
O foco da gestão, daqui em diante, será mudar o modelo de gestão, retomar parcerias comerciais e voltar a operar a fábrica de ração - que teve sua primeira fase inaugurada em 2024 e possui uma capacidade de produção de 72 toneladas por hora, totalizando 200 mil toneladas anuais de rações para bovinos.
Em paralelo, o comando da Cotribá vai trabalhar para estancar o prejuízo que a cooperativa apresentou ao longo deste ano e renegociar dívidas – em maio passado, estavam orçadas em R$ 1,4 bilhão, segundo antigos gestores da cooperativa.
De acordo com o representante jurídico da cooperativa, Ederson Raber, que também participou da entrevista coletiva, o faturamento da Cotribá este ano até o momento somou apenas R$ 313 milhões. O prejuízo acumulado no período foi de R$ 164 milhões. "O principal objetivo, até o final do ano, é diminuir o prejuízo", disse Raber.
A ideia é, também, preservar os ativos da cooperativa. A Cotribá possui 67 pontos de negócios espalhados por 30 municípios no Rio Grande do Sul. O patrimônio está avaliado em cerca de R$ 800 milhões, segundo Ederson Raber, mas 90% desse patrimônio está comprometido em garantias de alienação fiduciária, hipoteca ou penhoras judiciais. "Existe um comprometimento muito grande das garantias que foram concedidas às instituições bancárias, fundos de investimento. O objetivo hoje é mitigar o risco de perda desses ativos."
Sérgio Stretnzke também disse que há a possibilidade de que a cooperativa se desfaça de alguns ativos, mas não detalhou quais ativos a cooperativa poderá se desfazer.
A direção da Cotribá já tem se reunido com credores para tentar soluções de renegociar as dívidas da cooperativa. "Esse é o grande desafio. Conseguir colocar esses nossos credores na mesa, a partir de agora, e tentar a melhor saída para que a dívida da cooperativa seja equalizada e que o prejuízo não venha a impactar diretamente no nosso cooperado, que sim, que vem trabalhando, vem nos auxiliando e vem buscando reerguer a cooperativa", disse Raber.
"Não podemos garantir nada que a gente vai conseguir fazer isso. No entanto, a liquidação nos permite, ao menos, sentar à mesa com todos os credores e buscar uma alternativa."
Antes de optar pela liquidação, a cooperativa gaúcha tentou um inédito pedido de recuperação judicial, instrumento restrito às empresas e que não envolve as cooperativas, que operam sob uma legislação própria.
Nas duas oportunidades que a cooperativa tentou dar entrada no pedido de RJ, a Justiça do Rio Grande do Sul aceitou o pleito da Cotribá em primeira instância, mas a decisão foi revertida em segunda instância.
Em decisão recente, do começo de setembro, ao analisar recurso apresentado pelo Banco Santander, a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu, de forma unânime, que a cooperativa não tem legitimidade para pedir recuperação judicial.
Agora, a Cotribá segue o caminho de outras cooperativas gaúchas que entraram em liquidação nos últimos anos, como a Piá, de Nova Petrópolis (RS), e a Languiru, de Teutônia (RS).
Ederson Raber, representante jurídico da Cotribá, adiantou que a atual direção resolveu se aproximar da equipe que vem conduzindo a liquidação da Languiru, o escritório de advocacia Weisheimer & Piccinini Advogados, com sede em Lajeado (RS).
Enfrentando também uma forte crise fiannceira, com dívidas que superavam R$ 1,1 bilhão, a Languiru resolveu pedir liquidação em 2023 e, desde então, vem renegociando os débitos. Em março passado, a cooperativa relatou que já tinha diminuído o rombo pela metade, com uma dívida ainda restante de R$ 584 milhões.
O advogado também informou que a cooperativa está tentando fechar acordo com a Tarvos Partners, escritório de Porto Alegre (RS) que chegou a prestar serviços à Cotribá no começo do ano.
"São assessorias que nos trazem uma segurança, uma seriedade e um objetivo comum, que é realmente dar continuidade à nossa atividade”, disse Raber.
O representante jurídico da cooperativa adiantou também que a ideia é dar mais transparência ao que vem sendo feito e citou como exemplo um portal na internet com informações sobre a liquidação, seguindo o exemplo do que fez a Languiru durante seu processo de liquidação.
"O que a gente precisa é transparência. Nós teremos um portal com a total transparência dos atos, a exemplo do que a Languiru mesmo faz. Qualquer pessoa pode acessar, pode visualizar o que está sendo feitos", disse Raber.
A ideia é também adaptar o plano de pagamentos feito pela cooperativa de Teutônia, afirmou Raber. “A Languiru tem um plano de pagamento muito bom, que a gente viu lá, a gente precisa adequá-lo aqui, que é em cima da movimentação financeira que existe.”
Em paralelo, a cooperativa está buscando cobrar os débitos de devedores. A antiga gestão da Cotribá chegou a estimar, ao AgFeed, que a cooperativa tinha R$ 900 milhões em contas a receber e que parte dos débitos são de produtores que adquiriram insumos da cooperativa e não quitaram suas dívidas posteriormente.
“Com nossos parceiros, os fundos, a gente já tem um trabalho em conjunto de cobrança. Tem um bom valor ali que já está se efetivando. Nossos credores também têm interesse de participar da cobrança, de quem deve para a cooperativa, e isso tem que fortificar”, afirmou Raber.
Sérgio Strentzke ressaltou que a cooperativa antes não conseguia sequer dar entrada com ações de cobrança por não ter recursos para arcar com as custas do processo.
"Antes a gente não tinha nem dinheiro para mover as ações. A gente precisa, o número, o valor de quem deve para Cotribá é muito alto. A nossa visão hoje de recuperar isso é muito baixa. Nós temos que ter mais ação."
A nova gestão traz um discurso diferente dos nomes que estavam no comando da cooperativa anteriormente, liderados por Carlos Diehl, que havia assumido em março passado e que renunciou ao cargo em setembro.
Diehl chegou também com um discurso de mudanças em relação à gestão de Celso Krug, mas descartou a ideia de liquidar a cooperativa.
O ex-presidente vinha optando por outras saídas, como a entrada de investidores que injetassem recursos na cooperativa, além da contratação de um CEO, Paulo Goulart, que pouco durou no cargo, e a tentativa de um inédito pedido de recuperação judicial, instrumento restrito às empresas e que não envolve as cooperativas, que operam sob uma legislação própria.
Nas duas oportunidades que a cooperativa tentou dar entrada no pedido de RJ, a Justiça do Rio Grande do Sul aceitou o pleito da Cotribá em primeira instância, mas a decisão foi revertida em segunda instância.
Em decisão recente, do começo de setembro, ao analisar recurso apresentado pelo Banco Santander, a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu, de forma unânime, que a cooperativa não tem legitimidade para pedir recuperação judicial.
Os atuais gestores não chegaram a citar o nome de Diehl durante a coletiva, mas uma frase de Ederson Raber pareceu uma resposta à antiga gestão: "Não podemos mais apostar, pensar em milagres.”
Sérgio Strentzke foi um mais direto: “Anteriormente se pensava que alguém vai vir e vai solucionar, vai trazer junto alguma auditoria, então, se perdeu muito tempo durante esse último ano na perda desse trabalho.”
Resumo
- Com dívidas de R$ 1,4 bilhão, Cotribá aprova liquidação extrajudicial após tentativas frustradas de recuperação judicial
- Nova gestão pretende renegociar dívidas, preservar ativos e reativar fábrica de ração para tentar recuperar as operações
- Cooperativa acumula prejuízo de R$ 164 milhões em 2026 e tem 90% de seu patrimônio comprometido