A produção agropecuária brasileira cresceu em 2025, mas esse avanço não foi acompanhado por um aumento expressivo das emissões de gases de efeito estufa do setor.

Pelo contrário, o volume emitido ficou praticamente estável em relação ao ano anterior, em um movimento com trajetórias distintas entre a agricultura, cujas emissões de CO2 subiram no período, e a pecuária, que apresentou redução na quantidade de carbono emitido.

É o que indicam os dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, divulgados nesta quarta-feira, dia 21 de outubro.

As emissões brutas da agropecuária brasileira somaram 626,3 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) em 2025, ante 626,7 milhões de toneladas no ano anterior, igual a uma redução de apenas 0,07%, a menor variação anual registrada desde 1970.

A agropecuária é o segundo setor que mais emite CO2 entre os setores da economia brasileira analisados pelo SEEG. Ao todo, as emissões do Brasil foram de 2,06 bilhões de toneladas de CO2 equivalente no ano passado, queda de aproximadamente 6% em relação a 2024.

“É interessante notar que já houve quedas das emissões agropecuárias em outros momentos da nossa série histórica. Mas essa é a primeira vez que houve uma estabilização e todas as atividades agrícolas tiveram um recorde de produção”, comentou Gabriel Quintana, coordenador de ciência do clima no Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), uma das instituições participantes do estudo, em entrevista coletiva para a apresentação dos resultados.

Enquanto o recorde de abates e a redução do rebanho bovino contribuíram para diminuir as emissões da pecuária, a expansão da produção de grãos, da área cultivada e do uso de insumos agrícolas pressionou os indicadores das lavouras.

Na pecuária, as emissões recuaram 1,68%, para 494,1 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Já na agricultura, o movimento foi inverso: as emissões avançaram 6,45%, alcançando 132,1 milhões de toneladas de CO2 equivalente.

“Tivemos um aumento das emissões relacionadas à atividade de agricultura, e uma queda das emissões relacionadas à pecuária. Uma acabou compensando a outra e, no final, a gente teve essa estabilização das emissões”, ressaltou Quintana.

Apesar do recuo, a pecuária de corte permanece, pelas métricas do SEEG, como a principal fonte de emissões da agropecuária brasileira. Em 2025, a atividade respondeu por 410,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente, o equivalente a 65,6% de todas as emissões do setor.

Apesar do peso, houve uma redução de 1,7% nas emissões da bovinocultura de corte relação ao ano anterior.

A pecuária de leite seguiu trajetória semelhante, com queda de 2,9%, para 48,6 milhões de toneladas.

Juntas, as duas atividades concentraram 73,3% das emissões da agropecuária.

A explicação está principalmente na movimentação das emissões da fermentação entérica, processo natural de digestão dos ruminantes responsável pela liberação de metano, gás que é bastante poluente.

Em 2025, as emissões relacionadas a esse processo somaram 396,8 milhões de toneladas de CO2 equivalente, uma redução de 1,8% em comparação às 404,1 milhões de toneladas contabilizadas em 2024.

De acordo com o Imaflora, a queda está associada ao movimento de abate de bovinos observado no país ao longo dos últimos dois anos, que reduziu o número de animais no campo.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) utilizados no levantamento, o Brasil abateu 42,94 milhões de bovinos em 2025, crescimento de 8,2% sobre o ano anterior.

A produção de carcaças também bateu recorde, alcançando 11,1 milhões de toneladas, volume 7,2% superior ao registrado em 2024.

Com o aumento dos abates pelo segundo ano consecutivo, o rebanho bovino brasileiro encolheu aproximadamente 1,7%, chegando a 234,2 milhões de animais.

Na prática, isso significa que a pecuária brasileira conseguiu elevar sua produção de carne ao mesmo tempo em que reduziu o número de bovinos responsáveis pelas emissões de metano.

O comportamento também foi observado na atividade leiteira. O número de vacas ordenhadas caiu 2,7%, para 14,7 milhões de animais, enquanto a produção de leite cresceu 2,7%, atingindo o recorde de 36,7 bilhões de litros.

Se na pecuária os números trouxeram algum alívio, na agricultura o crescimento da produção veio acompanhado de um aumento das emissões.

De acordo com o Imaflora, o aumento das emissões da agricultora foi puxado pelo subsetor de solos manejados, que reúne as emissões do manejo dos solos agrícolas, do uso de fertilizantes sintéticos nitrogenados e de calcário, dos dejetos animais e da decomposição de resíduos agrícolas.

Essas emissões somaram 188,6 milhões de toneladas de CO2 equivalente, alta de 3% frente às 183,2 milhões de toneladas contabilizadas em 2024. Trata-se do maior volume já registrado nessa categoria.

Outras atividades agrícolas também contribuíram para o aumento das emissões.

No cultivo de arroz irrigado, o volume emitido alcançou 11,2 milhões de toneladas de CO2 equivalente, crescimento de 13% em relação a 2024. Já o manejo de dejetos animais registrou alta de 0,7%, somando 29,4 milhões de toneladas.

O movimento foi diferente na cana-de-açúcar. As emissões decorrentes da queima de resíduos agrícolas da cultura diminuíram 30,3%, chegando a aproximadamente 300 mil toneladas de CO2 equivalente. Foi a maior redução percentual entre os subsetores analisados pelo Imaflora.

Remoções

Além das emissões brutas, o levantamento do Imaflora também aponta que as emissões líquidas da agropecuária brasileira recuaram 0,9% em 2025, passando de 470,2 milhões para 465,9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.

O cálculo considera não apenas os gases de efeito estufa liberados pelas atividades agropecuárias, mas também as emissões e remoções de carbono associadas ao manejo do solo e à queima de pastagens.

Em 2025, enquanto as emissões brutas somaram 626,3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, as emissões de CO2 pelo solo e de gases de efeito estufa pela queima de pastagens acrescentaram 93,9 milhões de toneladas ao balanço.

Em contrapartida, as remoções de carbono pelo solo alcançaram 254,3 milhões de toneladas, resultando em um saldo líquido de remoções de 160,4 milhões de toneladas.

Com isso, as emissões líquidas da agropecuária ficaram 25,6% abaixo das emissões brutas, evidenciando a contribuição do solo para o balanço de carbono do setor.

Os números também mostram que esse resultado está diretamente relacionado às práticas de manejo adotadas nas propriedades rurais.

As pastagens de alto vigor, por exemplo, responderam pela remoção de 132,4 milhões de toneladas de CO2 em 2025, o maior volume entre as categorias analisadas pelo Imaflora.

Na sequência aparecem os sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta (ILPF), responsáveis pela remoção de 84,2 milhões de toneladas. Juntas, essas duas modalidades responderam por 216,6 milhões de toneladas de CO2 removidas da atmosfera.

As lavouras cultivadas sob sistemas de plantio direto também contribuíram para esse resultado. Duas categorias apresentadas no levantamento somaram remoções de 29,6 milhões de toneladas de CO2 enquanto as florestas plantadas responderam por outras 8 milhões de toneladas.

Em sentido contrário, algumas práticas de manejo contribuíram para aumentar as emissões de carbono do solo.

As lavouras cultivadas sob sistema convencional foram responsáveis pela liberação de 49,8 milhões de toneladas de CO2, enquanto as pastagens de baixo vigor emitiram 35,7 milhões de toneladas. Nas pastagens de médio vigor, as emissões alcançaram 7,9 milhões de toneladas.

A geografia da pegada de carbono

O levantamento também revela diferenças importantes na distribuição geográfica das emissões do setor.

O Cerrado permaneceu como o bioma com maior volume de emissões agropecuárias em 2025, respondendo por 209,1 milhões de toneladas de CO2 equivalente, redução de apenas 0,02% em relação ao ano anterior, O bioma responde aproximadamente 33% do total de emissões da agropecuária no Brasil.

Responsável por 28% de todas as emissões do agro, a Amazônia aparece na segunda posição, com 175,1 milhões de toneladas, redução de 1,7% em comparação com 2024.

Na sequência vem a Mata Atlântica, responsável por 148,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente, com ligeiro crescimento de 0,1% no período. O bioma responde por 24% das emissões da agropecuária.

A Caatinga registrou emissão de 50,3 milhões de toneladas de CO2, crescimento de 3,7% em relação ao ano anterior, a maior elevação percentual entre os seis biomas analisados. O bioma responde por 8% do total emitido pela agropecuária no Brasil.

Já o Pampa, que responde por 5% das emissões do agro, registrou emissão de 32,9 milhões de toneladas de CO2e, redução de 1,3%, enquanto o Pantanal, que responde por 2% do total, contabilizou 10,1 milhões de toneladas, aumento de 2,4%.

Na análise por unidade da Federação, Mato Grosso permaneceu como o maior emissor de gases de efeito estufa da agropecuária brasileira, seguido por Minas Gerais e Goiás.

Pará e Rio Grande do Sul completam a lista dos cinco estados com maiores volumes de emissões.

Para Quintana, os resultados mostram que a agropecuária brasileira ainda possui espaço para conciliar o crescimento da produção com a mitigação das emissões, especialmente por meio da disseminação de tecnologias e práticas de manejo mais eficientes.

“Esse avanço pode ser alavancado pela expansão de tecnologias e boas práticas de manejo, para a produção animal e agrícola, contribuindo para a maior produtividade do setor. É uma oportunidade de conciliar aumento de produção com mitigação das emissões”, afirma.

Resumo

  • Emissões brutas da agropecuária somaram 626,3 milhões de toneladas de CO2 em 2025, queda de apenas 0,07%, a menor variação desde 1970.
  • Pecuária reduziu emissões em 1,7%, impulsionada pelo recorde de abates e pela queda do rebanho bovino, enquanto agricultura registrou alta de 6,5%
  • Dados são do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima