O encontro anual de acionistas da John Deere, uma das maiores empresas de máquinas agrícolas do mundo, acontecerá no próximo dia 25 de fevereiro. E assim como foi no ano passado, uma pauta ligada a grupos políticos conservadores entrará no debate, com potencial para repercutir.

A proposta, ancorada pelo National Center for Public Policy Research (NCPPR), um grupo conservador dos Estados Unidos que tem liderado uma campanha ativa contra as políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI, na sigla em inglês) no ambiente corporativo americano, agora está de olho nas políticas de sustentabilidade da empresa de máquinas.

O grupo mantém uma posição minoritária na John Deere (algo em torno de meros US$ 2 mil nos últimos anos em ações, segundo um comunicado prévio ao encontro publicado nesta semana pela própria empresa) e fez a seguinte proposta à companhia: que seja elaborado um relatório mais transparente acerca do retorno sob o investimento feito para cumprir as metas de redução de emissões de gases do efeito estufa.

A argumentação da proposta foi apresentada em um documento arquivado na SEC - a CVM americana - nesta terça-feira, 20 de janeiro, e questiona se os investimentos feitos pela John Deere para cumprir suas metas climáticas estão, de fato, gerando retorno econômico.

Segundo o NCPPR, a empresa assumiu compromissos ambiciosos de redução de emissões como cortes de 50% nos escopos 1 e 2 e de 30% no escopo 3 até 2030, mas não divulgou quanto essas iniciativas custam, quais projetos específicos estão sendo priorizados e qual é o retorno esperado sobre esse capital.

Para o grupo conservador, isso representa uma falha de transparência, e chega a dizer que a reputação da John Deere está em cheque, citando que a própria SEC está cada vez mais combatendo greenwashing.

"Ao se recusar a fornecer um relatório específico de ROI (retorno sobre o investimento), a Deere está essencialmente pedindo aos acionistas que assinem um cheque em branco para uma 'transformação' cujo custo total e lucratividade permanecem ocultos por trás de uma terminologia vaga", diz a argumentação do grupo.

O documento prossegue dizendo que realocar recursos para eletrificar motores ou para usar combustíveis "verdes" traz riscos econômicos relevantes.

Em relação aos motores elétricos, citam que esses investimentos pressupõe "a existência de uma infraestrutura robusta de carregamento rural de alta tensão que simplesmente não existe". Somado a isso, afirmam que o peso das baterias necessárias para tratores elétricos de grande porte seria suficiente para causar "compactação catastrófica do solo".

O documento também argumenta que, em um setor intensivo em capital como o de máquinas agrícolas e de construção, a realocação de recursos para eletrificação, combustíveis alternativos e outras tecnologias “verdes” envolve riscos econômicos relevantes.

O NCPPR sustenta que a empresa não demonstrou de forma objetiva que essas apostas oferecem desempenho, confiabilidade e custos competitivos frente às soluções a diesel, considerado pelo grupo como uma grande vantagem competitiva da John Deere.

Outro ponto central da proposta é o argumento de que a maior parte da pegada de carbono da companhia (mais de 99%, segundo a própria empresa) está relacionada ao uso dos equipamentos pelos clientes, o chamado escopo 3.

Para o NCPPR, isso cria um risco direto ao modelo de negócios caso a Deere avance em metas que, na prática, pressionem seus clientes a adotar tecnologias mais caras, menos eficientes ou dependentes de infraestrutura inexistente em áreas rurais.

A John Deere recomendou seus acionistas a votarem contra a proposta. No comunicado prévio ao encontro de investidores, a empresa cita que a proposta é "desnecessária e não atende aos melhores interesses da Deere e de seus acionistas".

Segundo a companhia, as metas climáticas fazem parte de um plano mais amplo de inovação tecnológica voltado a ganhos de eficiência, produtividade e abertura de novas fontes de receita para clientes e para a própria empresa.

A Deere argumenta que esses investimentos em eletrificação e adaptação para uma frota compatível com combustíveis renováveis são tratados como qualquer outra decisão estratégica, e por isso, passam por processos internos de avaliação e supervisão pelo conselho.

A John Deere sustenta que suas divulgações de sustentabilidade, feitas com base em padrões amplamente adotados, já oferecem aos investidores uma visão adequada de riscos, oportunidades e metas.

Feliz ano velho

O pedido do NCPPR se insere em uma agenda recorrente de grupos de direita contra políticas corporativas associadas à agenda ESG.

No ano passado, outro acionista conservador e ativista da John Deere, o NLPC (National Legal and Policy Center), que atua na mesma agenda do NCPPR, pediu que a John Deere divulgasse estatísticas detalhadas de contratação por raça e gênero, em meio ao debate jurídico e político nos Estados Unidos sobre programas de diversidade, equidade e inclusão.

A proposta foi levada à assembleia realizada em fevereiro de 2025 e teve apenas 1,3% de adesão de toda a base acionária da empresa. A iniciativa desse grupo surgiu após a John Deere divulgar um comunicado, em julho de 2024, dizendo que iria interromper apoios à pautas identitárias.

A empresa disse na época que, “com base nas conversas em andamento”, se comprometeria a não participar nem apoiar “desfiles, festivais ou eventos externos de conscientização social ou cultural”.

A Deere e outras empresas deram alguns passos atrás nos seus programas de DEI no ano passado após uma pressão desses grupos políticos em redes sociais. A mais notória foi do cineasta e influenciador digital conservador americano Robby Starbuck.

No seu X (antigo Twitter), compilava fotos enviados por funcionários da empresa de máquinas que evidenciavam essas políticas, como tratores da empresa em versão miniatura com bandeiras do arco-íris (sempre associado à agenda de diversidade sexual e de gênero) em um escritório brasileiro da empresa.

Resumo

  • Grupo conservador com participação minoritária na John Deere pressiona a empresa a divulgar o retorno financeiro de seus investimentos em metas de redução de emissões
  • A John Deere recomenda rejeitar a proposta, afirmando que já presta informações suficientes ao mercado
  • O episódio repete um padrão de pressão política iniciado em debates sobre diversidade e inclusão, agora deslocado para a agenda ambiental