Na cidade de Dülmen, na Alemanha, a 50 km da fronteira com a Holanda, está o centro de pesquisa Hanninghof, onde a gigante de fertilizantes Yara esconde alguns dos segredos do seu futuro portfólio.

Um dos pontos fortes do trabalho é a área de nutrição de plantas e produtos biológicos, que conta com 25 cientistas PHDs dedicados, na unidade. O AgFeed visitou o prédio, que é repleto de laboratórios e estufas, onde são testadas as plantas em diferentes condições de manejo e de clima.

“Nosso trabalho aqui e nossas metas para o desenvolvimento de novos produtos estão sempre em torno dos esquemas centrais de mitigar estresses abióticos, reduzir emissões de gases de efeito estufa, melhorar a produtividade e melhorar o uso (dos nutrientes) que aplicamos”, explicou Jonas Ruhe, diretor global de Pesquisa e Desenvolvimento em Nutrição de Plantas e Produtos Biológicos da Yara International, durante a visita de empresários e jornalistas.

Antes de contar o que vimos por lá e que deverá vir ao Brasil é preciso fazer um esclarecimento. O termo “biológicos” para Yara, globalmente, inclui produtos vivos e também não vivos, englobando por exemplo os ingredientes de matriz orgânica, que são associados aos fertilizantes tradicionais.

Há diferenças na nomenclatura em diferentes idiomas e também na legislação de cada país, que usa termos diversos como bioestimulantes, biofertilizantes, dependendo da região.

No Brasil, a área “bio” da Yara é o que a empresa chama de “segmento de bioinsumos e foliares”, que vem crescendo dois dígitos por ano e que já responde por 14% do Ebitda (lucros antes de impostos, taxas, depreciação e amortização) da companhia no País.

“A gente espera até 2030 atingir até 30% de toda a margem gerada na empresa”, afirmou Raphael Gonçalves Martins, diretor de desenvolvimento de mercado da Yara Brasil, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

Em tempos de incerteza geopolítica e até retração no consumo de fertilizantes tradicionais, considerados “commodities”, é fácil de entender estratégias de empresas como a Yara se posicionar mais forte em linhas de maior valor agregado.

“Diferentemente de fertilizantes que, na média nos últimos 10 anos, cresceram de 3 a 5% ao ano, aqui nós estamos falando de um segmento que cresce 25% ao ano”, destacou Martins.

O segmento ainda representa pouco se comparado à massiva presença da Yara em fertilizantes tradicionais, mundialmente. O AgFeed apurou que a receita global com biológicos estaria próxima de US$ 300 milhões em 2025, enquanto o faturamento total alcançou US$ 15,7 bilhões.

Ainda assim, o desempenho atual vem garantindo a Yara Brasil já responder por 50% do negócio de bioinsumos e foliares da empresa, em nível global.

“A gente já está no Brasil entre as cinco maiores empresas nesse segmento de bioinsumos e foliares, em termos de faturamento. Nós temos o objetivo aqui, até 2030, de ser a empresa referência nesse segmento”.

O portfólio atual da Yara no segmento se baseia principalmente nos chamados produtos premium e orgânicos, nos fertilizantes foliares e nos chamados “coatings”, que são os grânulos de adubo tradicional revestidos com substâncias capazes de aprimorar a eficácia dos nutrientes.

Até agora não fazem parte dos bioinsumos da Yara, nem no Brasil, nem lá fora, produtos com microrganismos vivos. Mas eles estão a caminho, deixou claro Jonas Ruhe, na conversa, lá na Alemanha.

“Como estamos atualmente em testes de campo, prevemos que, por volta de 2028 ou 2029, o produto provavelmente chegará ao mercado, isso, claro, considerando o processo de registro”, afirmou Ruhe, sobre a chegada dos primeiros biológicos da Yara (pelo padrão brasileiro, com organismos vivos).

Até lá a empresa espera já ter a regulamentação da nova lei de bioinsumos aprovada, o que facilitaria o registro das inovações. Outros players do mercado de fertilizantes vêm alegando dificuldades na aprovação de novos produtos que associam o adubo tradicional ao biológico.

A maturidade do mercado brasileiro, por enquanto, é vista apenas na área de defensivos, onde microrganismos vivos são amplamente utilizados para combater pragas e doenças.

Na Alemanha, o diretor da Yara disse que a empresa vem se dedicando principalmente a resolver os gargalos do trabalho com microrganismos, sendo o principal deles o chamado “shelf life”, tempo de vida para que cheguem ao produtor rural sem perder a eficácia.

Misturas entre diferentes microrganismos também vêm sendo testadas, assim como produtos à base de biologia molecular.

Raphael Martins, da Yara Brasil, disse acreditar que a principal função dos organismos vivos será produzir outros compostos, que aí sim vão atuar sobre as plantas.

“Hoje a disrupção é utilizar os microrganismos como motor de produção das substâncias”, pontuou.

Trata-se, por exemplo, de um termo que o mercado passa a mencionar com mais frequência nos biológicos – os chamados metabólitos.

“Mounjaro” a caminho

Somente no Brasil, a Yara investiu R$ 190 milhões nos últimos três anos no segmento de bioinsumos e foliares, segundo Martins, incluindo pesquisa, fábrica e contratação de times de campo.

“A gente tem um investimento muito grande no que chama de geração de demanda, por ser um segmento no Brasil extremamente competitivo. Nós temos mais de 870 empresas no Brasil que comercializam produtos nessa categoria”.

A previsão é lançar 10 novos produtos nos próximos cinco anos. As próximas apostas devem vir principalmente de produtos “que tem um apelo mais fisiológico”, ele diz, que combinam a nutrição com uma espécie de ajuda para que planta seja mais eficiente no uso dos nutrientes.

O executivo diz que esse segmento cresceu 30% em 2025 na comparação com o ano anterior. Está nessa categoria a linha chamada Yara Amplix, um fertilizante misto, que associa ingredientes orgânicos e que também foi bastante destacado na apresentação em Hanninghof.

“A gente deve lançar aqui no próximo ano um produto à base de peptídeos”, revelou Martins, lembrando que os peptídeos estão sendo muito falados no momento em função do “Mounjaro”, a famosa caneta emagrecedora, cujo princípio ativo é um peptídeo.

Neste caso, porém, não é para perder peso, brincou ele. Pelo contrário, a expectativa do novo produtor é permitir um maior aproveitamento do potencial produtivo de culturas como a soja, que ainda produzem muito abaixo do que poderiam.

Os estudos com o novo segmento, de peptídeos bioativos para a agricultura, já mostram resultados no campo, segundo a Yara, com lançamento previsto para 2027.

“Os peptídeos são cadeias de proteínas e aminoácidos que tem funções específicas de dar sinais para as plantas. No caso do Mounjaro dá um sinal para nosso corpo que a gente já está bem alimentado, mesmo sem comer”, explicou.

Já no caso de uma soja, por exemplo, que estivesse sob altas temperaturas, fazendo menos fotossíntese, produzindo menos, o peptídeo teria a capacidade “de dar um sinal para a planta de que a condição está boa, então ela vai conseguir produzir mais”.

A ação esperada é fazer com que a planta consiga aproveitar melhor os nutrientes, a água e a luminosidade disponíveis, tolerando mais as condições de estresse e produzindo mais.

“Um dos principais causadores aqui de queda de produtividade no Brasil sem dúvida alguma são os estresses. Não é só nós que estamos estressados, as plantas também estão”.

Em paralelo, a estratégia da Yara Brasil passa também por seguir expandindo as vendas dos fertilizantes “revestidos”, conhecidos como “coating”, globalmente.

O movimento ocorre com produtos que já estão sendo comercializados, como o Yara Basa Full, um fertilizante à base de fósforo e outros macros e micronutrientes, porém recoberto com substâncias orgânicas, mas também deve ser visto quando os novos lançamentos chegarem, associando as inovações à plataforma de NPK já característica da companhia no mercado brasileiro.

Raphael Martins deixou claro que não é foco atual da Yara atuar em controle biológico de pragas e doenças.

“O que está  dentro do nosso core, é mais a linha de promoção de crescimento e aumento da eficiência dos nutrientes, ou solubilização de nutrientes do solo”.

Resumo

  • Yara Brasil pretende elevar contribuição de bioinsumos e foliares no Ebitda de 14% para 30% até 2030
  • Globalmente, multinacional de fertilizantes planeja lançar primeiros produtos à base de microrganismos vivos em 2028
  • Entre os lançamentos previstos para 2026 no mercado brasileiro está um produto a base de peptídeos, mesma categoria do princípio ativo do medicamento Mounjaro

Jonas Ruhe, diretor global de P&D em Nutrição de Plantas e Produtos Biológicos da Yara International

Amostras no laboratório do Centro de Pesquisa Hanninghof