A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) reconheceu 109 produtos agro como editados geneticamente desde 2018, segundo levantamento obtido com exclusividade pelo AgFeed.

Para Mario Tyago Murakami, presidente da CTNBio e diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), a expansão reflete a democratização do acesso à biotecnologia agrícola.

“Anteriormente, a biotecnologia era basicamente associada aos transgênicos, que implicam custos muito mais altos e maiores exigências técnicas para aprovações. A edição gênica facilitou significativamente o acesso à biotecnologia avançada”, introduz.

A edição gênica pode reduzir significativamente o tempo e o investimento necessários para obter características desejadas. Alterações genéticas que poderiam exigir anos de melhoramento convencional podem ser obtidas em meses.

A agilidade da edição gênica ou CRISPR reflete-se em números. Desde 2019, o número de organismos editados e classificados como convencionais pela CTNBio aumentou a cada ano até chegar a 25 em 2024.

Em 2025, no entanto, o total caiu para 16 classificações de organismos desenvolvidos com técnicas inovadoras de melhoramento de precisão, como são referenciados os produtos com edição gênica pelo órgão.

“Vejo como uma queda pontual, pois os pedidos de análise seguem aumentando”, argumenta Murakami. Em 2026, outros sete organismos desenvolvidos por edição gênica já foram aprovados.

Segundo estimativa da Research and Markets, o mercado global de tecnologias CRISPR aplicadas à agricultura foi avaliado em aproximadamente US$ 231 milhões em 2024 e poderá alcançar US$ 645 milhões em 2032.

Entre as empresas que desenvolvem tecnologias CRISPR estão Bayer e Inari, com pesquisas em soja; Vylor, em milho; Syngenta, em edição genética de plantas como tomate; Pairwise, em amoras-pretas e outras frutas; e Tropic Biosciences, em bananas.

De microrganismos a animais

A lista de 109 produtos inclui 70 microrganismos utilizados na agricultura e pecuária, 32 vegetais, como soja, milho, cana, eucalipto, batata, tomate e até amora, além de sete animais, como bovinos, tilápias e suínos.

Cada um desses produtos geneticamente editados apresenta algum tipo de vantagem produtiva ou comercial. Por exemplo, variedades de batata e tomate apresentam maior vida de prateleira, citros mostram resistência ao greening e amoras-pretas obtêm maturação uniforme e melhor arquitetura de planta. Esses materiais podem chegar às gôndolas em breve.

No caso dos animais, tilápias avançam para maior rendimento de filé, bovinos Angus ficam mais tolerantes ao calor e suínos, mais resistentes à PRRS.

Os bioinsumos, com 64,2% dos registros, também são uma área crescente em volume de consultas à CTNBio.

Editados vs transgênicos

A técnica CRISPR permite realizar alterações direcionadas no DNA sem a introdução de genes exóticos aos organismos originais.

A pesquisa sobre o tema, inclusive, rendeu o Prêmio Nobel de Química às cientistas Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier em 2020.

Conhecida como “tesoura molecular”, a tecnologia permite alterar a expressão de genes, abrindo grandes oportunidades técnicas e comerciais.

“O CRISPR é uma ferramenta de alta precisão que não deixa 'cicatriz'. A técnica mimetiza os métodos de melhoramento genético convencionais, ou seja, os organismos editados são 100% não-transgênicos”, explica Mario.

Em 2018, o Brasil aprovou a Resolução Normativa nº 16 da CTNBio, que estabeleceu um sistema de consulta para distinguir os transgênicos dos organismos editados sem material genético recombinante exógeno (genes de outros organismos).

Na prática, a RN16 classifica produtos editados por CRISPR como não transgênicos, equivalentes aos convencionais. Argentina, Canadá, Inglaterra, China e outros países também adotam ou preparam legislações semelhantes.

“A perspectiva é de redução dos investimentos em transgenia e aumento em organismos desenvolvidos com edição gênica, que estarão mais presentes nas gôndolas dos supermercados”, acrescenta Murakami.

Ainda assim, tais organismos precisam passar por avaliação e deliberação da CTNBio para comprovar essas características como etapa intermediária antes de irem ao mercado.

Resumo

  • CTNBio reconheceu 109 produtos agro editados geneticamente desde 2018, com destaque para microrganismos utilizados na agricultura e pecuária
  • Edição genética por CRISPR avança no Brasil e permite desenvolver características como resistência a doenças, maior produtividade e vida útil prolongada
  • Bayer, Inari, Vylor e Syngenta estão entre as empresas que investem em edição genética, tecnologia que pode ampliar o acesso à biotecnologia agrícola